João e Maria
>> quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Acordou de relance às 5 da manhã. Olhou ao redor, as garrafas espalhadas pelo chão, uma menina que ele nem conhecia dormindo a seu lado. Tentou lembrar onde estava, o que fazia ali. As camisinhas usadas denunciavam o ato, e neste momento pensou “ao menos isso, proteção”. Proteção contra doenças e uma possível gravidez indesejada. Proteção contra o que poderia deteriorar o corpo, mas e a alma?
Maria Clara acordou cedo, foi pro trabalho como fazia todos os dias. No final do dia o patrão mandou lhe chamar. Demitida. É bem verdade que não gostava do emprego, mas tinha feito de tudo até ali para mostrar serviço, para ir bem. Ainda assim, estava agora desempregada. Aquilo bateu como um soco no estômago, a deixou desnorteada e sem chão.
João Paulo acordou pra lá de meio dia. Levantou-se, tomou café. A namorada já tinha ido trabalhar e lhe deixou um bilhete na mesinha de cabeceira. “João, não dá mais pra mim assim. Você anda estranho demais, acomodado demais. Meu emprego não sustenta nós dois, e a tua presença na minha casa ta começando a me incomodar. Você não faz nada da vida e nada pra mudar isso. Desculpa dizer num bilhete, mas eu perco a coragem toda vez, porque você me dobra como ninguém. Arruma um lugar e vai, vai antes que eu volte.”
Saiu do prédio ainda sem saber o que fazer. Largou tudo pra trás sem querer saber do dia de amanhã. Olhou a rua, as pessoas passando, absortas em seus pensamentos. Sentou num bar qualquer, pediu um whisky e começou a beber. Um, depois mais um, depois outro. As horas foram passando sem que se desse conta. A cada dose seu corpo ia amolecendo um pouco mais, ficando mais leve, mais solto.
Saiu do prédio ainda sem saber o que fazer. Largou tudo pra trás sem querer saber do dia de amanhã. Pegou apenas uma mochila com o principal: seus livros favoritos, seus cds e algumas mudas de roupa. Tinha ainda algum dinheiro guardado, entrou num bar qualquer, sentou. Pediu uma vodka e começou a beber. Uma, depois mais uma, depois outra. As horas foram passando sem que desse conta. A cada dose seu corpo ia amolecendo um pouco mais, ficando mais leve, mais solto.
Reparou num rapaz sentado perto dela, sorriu. Ele olhou e por alguma razão desconhecida sorriu de volta. Encabulou-se com a reciprocidade do sorriso, olhou pro copo e ficou ali, sentindo seu corpo pegar fogo. Não conseguia mais pensar em emprego, em dinheiro, em como se sustentaria. Só conseguia pensar naquele desconhecido sentado ali. O desconhecido que sorriu de volta.
Olhou a menina que estava sentada lá, e reparou que já havia bebido um pouco além da conta. Ficou olhando e pensando no quanto era bonita. Ela era normal, mas ainda assim tão diferente daquela que ele estava acostumado. Ela olhou e sorriu, ele sorriu de volta. Ela abaixou a cabeça, ele continuou olhando. Levantou-se e foi até lá, sem pestanejar. Nunca foi mesmo de se conter, agora não seria diferente.
- Olá.
- Oi. – Disse isso e corou.
- Vem sempre aqui?
- Olha, eu acabei de perder o emprego, tô bêbada e sem a mínima noção do que fazer. Tudo que eu menos preciso hoje é de uma cantada barata pra terminar de estragar meu dia.
- Minha namorada terminou comigo com um bilhete, onde me mandava sair da casa dela. Não tenho pra onde ir e também estou desempregado. Tudo que eu menos preciso hoje é de uma menina que não caia na minha cantada barata. Hoje ela é tudo que eu tenho.
Silêncio. O bom e velho silêncio do entendimento. Aquele silêncio que vem quando duas pessoas, mesmo desconhecidas, se compreendem perfeitamente. Olharam-se ainda algum tempo, o suficiente pra que o silêncio do entendimento evoluísse para a tensão sexual incontrolável.
Chegaram na casa dela, entraram. De repente um lampejo de sobriedade se propôs a estragar o momento vindouro. Maria abriu a geladeira e tirou duas cervejas. Depois mais duas. Depois uma garrafa de vodka barata e uma cachaça vagabunda pra terminar. Já estavam no quarto fazia tempo. Estavam no quarto e beijavam-se como velhos amantes.
Fizeram sexo descontroladamente. Aquele sexo sem pudor que só se faz de primeira com um total desconhecido. Adormeceram, completamente entorpecidos. Maria acordou poucas horas depois, ficou olhando ele dormir. Sabia que o que sentia provavelmente era fruto da carência, aliada ao fato de ter perdido o emprego. Ainda assim resolveu que arriscaria. Ia esperar ele acordar e então se conheceriam. Fariam tudo ao contrário, mas e daí?

1 comentários:
Sensacional, dona Danda!
Esbocei varios sorrisos lendo esse seu texto agora...
Mas que situação, hein??? Atoron acasons!
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