Marie.

>> quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Acendeu um cigarro e cruzou as pernas, deixando as belas coxas ligeiramente à mostra. O vestido de cetim acentuava suas voluptuosas curvas, o batom vermelho dava o tom exato à figura. Os cabelos negros cortados a Channel davam um ar de mistério, seus olhos fitavam com desdém o ambiente. Um desdém na realidade despretensioso, mas que instigava até o mais distraído dos homens.

Durante o dia seu nome era Júlia, mas a noite sua personalidade doce e pacata era substituída pela francesa Marie. Adotara o nome e um sotaque muito bem ensaiado. Havia provado de diversos corpos, em fantasias tão absurdas que deixariam quaisquer um escandalizado. Para ela era tudo uma grande encenação, e sendo assim, não sentia qualquer pudor, vergonha, nojo ou culpa. Quando o dia clareava era novamente Júlia, e apenas Júlia. A menina sonhadora e inocente.

Entendamos inocência como algo muito além de sexo ou não. Sua inocência residia na pureza que trazia no coração. Na pureza que trazia da infância na roça, e da falta de conhecimento sobre o mundo da cidade grande. A realidade dos engravatados daqueles anos era pra ela um abismo, do qual não se conseguia sair uma vez que se fizesse parte. Via nos olhos de cada homem a solidão, multiplicada ainda mais devido ao recato e pudor das moças da época.

Naquela noite era tudo festa no cabaré. As luzes pareciam mais brilhantes, e homens desvairados bebiam champanhe em delicados sapatos, enquanto as moças riam alto e fingiam algum prazer. Eram rapazes da marinha, e era sempre comemoração quando eles chegavam: Pagavam em moeda estrangeira e davam dinheiro sem pestanejar. Compravam as melhores bebidas e quase sempre acabavam com o estoque do bar.

De repente Marie olha com espanto para um rapaz sentado numa mesa no canto. Seus olhos enchem de lágrimas, e tenta em vão disfarçar. Um turbilhão de sentimentos passa por sua cabeça, domina seu corpo, e ela já não consegue mais controlar o nervosismo. Não sabe se vai até ele, se vira o rosto pro outro lado na esperança de não ser reconhecida. Toma coragem, anda até lá. Os sapatos de salto batem fazendo barulho no chão de tábua corrida. O piso cintila com seu cetim, e a coragem se torna cada vez mais forte.

Para em frente a ele. Quantos anos haveriam se passado? Ela se lembra perfeitamente do momento em que foi embora, mas não fazia idéia de que ele também havia ido. Será que se lembraria de seu rosto? Das brincadeiras no pasto e do leite recém ordenhado? Ele a olha como que a uma desconhecida. Não, ele não lembrava. Faziam mesmo muitos e muitos anos. Um sorriso de desapontamento toma seu rosto.

Ele a tira então para dançar. Tocava um bolero qualquer. Ela se mantém calada. Ele estava completamente alcoolizado, a beijou no pescoço. Ofício, ela pensou. Entregou-se ao momento, mas dessa vez não conseguia ser Marie. Era Júlia, e apenas Júlia. Controlou-se, trouxe a francesa de volta. Ele a tocou na cintura, enquanto olhava seu decote com olhos de luxúria.

Subiram. Ele quis apenas o abat-jour acesso, e com isso uma luz avermelhada tomou conta do quarto. O cheiro de álcool emanava de seu corpo, rasgou o vestido de cetim e a jogou na cama. Meses no mar, rodeado por outros homens, tornam um homem um animal. A possuiu de todas as maneiras, refestelando-se de sua volúpia. Fazia de tudo, menos olhá-la nos olhos. Talvez se tivesse olhado, teria evitado toda aquela cena. Ao esgotar seu desejo, caiu pro lado, já adormecendo. Ela se levantou, vestiu o penhoar e caminhou até a janela. Uma onda de consciência a levou embora, pra sempre.

Era capaz de agüentar o peso dos corpos por cima do seu. Capaz de tolerar os maiores absurdos, as fantasias mais escatológicas. Era capaz de suportar, noite após noite, o desafio de fingir ser alguém que não existia. Mas deitar-se com aquele que alguns poucos anos depois dela havia saído do mesmo ventre? Esse peso era insuportável. Marie e Júlia se abraçaram, e se deixaram levar pro céu naquela noite.

1 comentários:

Renata Salles 14/9/09 19:00  

PQP!!!!

Final surpreendente Danda... Adorei!!!
Destinos nem sempre bem escolhidos, fantasmas do passado e tragédias familiares são sempre peças fundamentais em um drama.

Continue escrevendo maravilhosamente bem como sempre!!!

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