Só uma menina.
>> domingo, 1 de novembro de 2009
Existiam nela coisas inexplicáveis. Muitas coisas, pra ser sincero. A começar pelo jeito que falava, com um tom deliciosamente sacana. Seus olhos olhavam como que pedindo alguma coisa, sempre, mesmo que eu nunca tenha conseguido descobrir o que. Talvez pedisse amor, talvez pedisse apenas desejo, olhando com aqueles olhos que pareciam sempre beirar as lágrimas, de tanto que brilhavam. Talvez fosse só mais uma menina, mas pra mim foi sempre mais, muito mais.
A conheci numa mesa de bar. Um bar bem vagabundo, aliás. Estava sentada sozinha, com um copo descartável cheio de conhaque, olhando pro nada. Sei que sua cabeça estava em qualquer outro lugar, menos ali. De repente um cara sentou a sua frente. Um cara visivelmente bem mais velho. Pensei ser seu pai, mas logo pensei “meninas não bebem conhaque com seus pais em bares sujos”. Não conseguia desviar o olhar, eu a comia com os olhos, tendo os pensamentos mais obscenos. Era apenas uma menina, e eu já sabia. Era uma menina diferente, e era impossível ficar indiferente a ela. Meus desejos se tornavam cada vez mais involuntários, ela exalava um perfume que misturava álcool e sexo, e que tomava o ambiente (ou ao menos parecia ao meu olfato, que nesse momento só conseguia a respirar). Lá estava ela, e o cara levantou pra ir ao banheiro. Me enchi de uma coragem bem idiota, e fui até lá. Ela olhou e sorriu, havia sentido meus olhares pesando por cima dela. Simplesmente emudeci. Emudeci parado em frente a uma menina. Nem com as mulheres mais impossíveis eu havia me sentido daquela maneira.
Podem imaginar que meu contato não durou muito. Sabia que o coroa voltaria a qualquer momento. Simplesmente entreguei um cartão e saí. Era estranha a sensação de que ela entendeu. Estranha a sensação de que ela ligaria. Até hoje, juro, não consigo compreender o que fez uma menina tão cheia de si, tão encantadora e incrível ligar pra um cara mala feito eu. Eu não entendo.
Estava então um dia em casa tentando escrever alguma coisa, quando o telefone tocou. Ouvi uma vozinha suave perguntar “Marcelo?” do outro lado da linha. Gelei. Não tinha ouvido ainda sua voz, mas sabia que era ela. Só podia ser ela. Agi como se não soubesse quem estava falando. “Meu nome é Clara, você me deu seu cartão no bar outro dia”. Clara. Alva. Linda. Perfeita. Meu coração disparou, tentei me controlar e agir naturalmente. Com desdém até. Mulheres gostam de desdém, a sensação de desprezo parece acender alguma coisa dentro delas. Inexplicável: Seja um cara legal e atencioso e você ganha uma vadiazinha que te usa. Seja um babaca pretensioso e elas correm atrás de você como umas idiotas. Inexplicável. Conversamos por alguns minutos, ela não tinha muita desenvoltura ao telefone. Era do tipo que vale muito mais a pena conferir ao vivo. Seu sorriso, seus modos, seus gestos. Marcamos um chopp no mesmo dia.
Quando cheguei ao bar e olhei, ainda não conseguia acreditar que ela estava realmente ali. Era uma menina, num bar, à noite. Não fazia sentido algum. Sentei e começamos a conversar. Ela era esperta, inteligente, atenta. Prestava atenção em mim como se eu fosse o maior dos intelectuais, como se tivesse alguma coisa muito boa a oferecer. Não consigo entender como, mas lá pelas tantas estávamos no meu apartamento, fazendo sexo da maneira mais descontrolada. Peguei no sono, quando acordei ela já havia ido embora. Deixou um papel com o número do telefone e alguns coraçõezinhos desenhados com caneta cor de rosa. Era só uma menina, e eu tinha agora certeza. Mas uma menina em total descontrole, e isso eu ainda não entendia. Seria só uma menina?
[continua]

1 comentários:
Puuutz!!!
Adoro quando vc escreve sobre homens obecados!!! \o/
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