O Começo da Continuação da Vida - Capitulo 2 (A Primeira Decisão)

>> segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Eu o abracei de verdade, e foi como antigamente, como quando nascemos. Mas estes são tempos muito distantes que eu já não consigo mais me lembrar de como foi, apenas sei que é o mesmo sentimento. Fomos feitos para sermos amigos, de verdade, amigos. Não consigo me lembrar de nenhum outro sentimento por ele alem desse.

Ao terminarmos o abraço, percebi que todos estavam compartilhando o mesmo momento, foi que me ocorreu que João era aquele mais velho, que se chamava Severo, e seus olhos agora estavam mais profundos que no minuto anterior. De fato ele foi o Primeiro.
Olhei a minha volta, e os reconheci um por um, Luciano e Marina, os irmãos, os Últimos, lembrei de seus verdadeiros nomes, enquanto eles se entreolhavam.
- Quinto, Lúcido; Sexto, Vita. Lembram agora?
- Esperança, a Segunda! Eu lembro de você! E como lembro! - Vita correu para os meus braços, amável como sempre.
- Agora me lembro, lembro de saber quem somos, mas não lembro quem somos. - Disse Lúcido pausadamente com suas mãos sobre o rosto confuso.

E então eu eu novamente passei os olhos sobre eles e vi, me deparei com Roberto, o Quarto, com quem não precisei falar.
- Espero que se lembre de mim, Esperança. Sou eu, Só.

Meu sorriso cresceu e então virei meu rosto para Marcos, que agora eu tinha certeza que era o Terceiro, o meu Terceiro, aquele que foi feito para me completar, mas não lembrava de seu nome, e para meu espanto ele disse:
- Quem realmente são vocês? Eu não consigo me lembrar. - passava a mão em seus cabelos, agora mal cortados, e ainda confuso disse baixo. - Humano. Acho que sempre fui chamado assim.

Embaraçada com meus sentimentos e minhas lembranças, levantei do sofá e me virei para a porta da sala. Tinha uma vidraça fechada que dava para a rua, o dia era como qualquer dia, mas chovia, como todo dia que acontece algo importante. A chuva alguns de nós acreditamos, serve para acontecimentos importantes, e no momento, o tempo havia parado, como no inicio. A chuva não chovia, não molhava e nem caía, mas era assim mais fácil de perceber sem precisar de muitas perguntas que o tempo havia parado.
- Está acontecendo – disse Severo – O tempo resolveu estar ao nosso favor.
- Eu não diria isso. - Só se aproximou da vidraça ao meu lado, tocou em meu ombro e continuou – Diria que há algo mais importante, ou simplesmente, está na hora de cumprirmos nossa missão.
- Mas, e se for, sei lá, uma armadilha? - Eu pensei por alto – Quem fez isso conosco? Será que... - antes que eu terminasse, Lúcido se levantou.
- Não acredito que possa parar o tempo, mas seja o que for que tenha nos sucedido, é provável que não saiba sobre nós nesse momento e, com isso, nós ganhamos tempo.
- Quer dizer que devemos retomar nossas funções? - disse Severo espantado com o rumo da conversa.
- Como desde sempre. Como nunca deveríamos ter parado! - Lúcido incisivo.
- Que assim seja como antes! Vamos acha-lo! - A ultima palavra como sempre, de Severo.

Só, como sempre, saiu primeiro de encontro ao fim da história.

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Só uma menina - Parte II

>> terça-feira, 10 de novembro de 2009

Fui um dia ao bar encontrar um desconhecido. Ele era bem mais velho que eu, e eu já sabia disso quando fui encontrá-lo. Era extremamente chato. Chato e massante. E mais tarde descobri que além de tudo era brocha. Enquanto no bar, aproveitei pra beber (beber sem ter que pagar é sempre uma oportunidade que não pode ser perdida). Depois de alguns conhaques, estava totalmente desligada da realidade. O cara falava e falava e eu nem me preocupava mais em responder, só ficava fingindo que ouvia, enquanto minha cabeça passeava por campos floridos e dias com cheiro de maçã verde.


Lá pelas tantas apareceu um cara na mesa, enquanto o velho foi ao banheiro. Já havia sentido seus olhares antes, ele me consumia com os olhos. Seria até meio desconfortável numa situação normal, onde eu não estivesse tão entediada. Olhei pra ele e sorri. Ele estava visivelmente constrangido, agora que caíra na real sobre a atitude bocó que teve. Ficou me olhando sem dizer palavra, e eu continuava sorrindo. Me entregou um cartão e saiu.

Eu sinceramente não pensei em ligar num primeiro momento. Ele pareceu tão idiota, tão abestalhado na minha presença, e sempre odiei isso. Gosto de caras com atitude, muita atitude, daqueles que chegam em qualquer lugar e chamam toda a atenção pra si. E chamam não por serem necessariamente bonitos, mas porque tem um charme e um magnetismo desconcertantes. Ele não era assim. Não que não tivesse charme, mas era banal num primeiro momento.

Alguns dias depois, estava sozinha em casa e resolvi ligar. Não foi nenhum impulso de interesse, não foi nenhuma real vontade de vê-lo de novo. Talvez por estar sozinha, de repente me lembrei dele e do cartão. Liguei. Ele atendeu. Ficou visivelmente surpreso com minha ligação. Tentou inutilmente fingir que não sabia quem estava falando. Óbvio que sabia, e sua tentativa de agir como se não foi inútil. Me chamou pra tomar um chopp, aceitei, não tinha mesmo nada pra fazer.

Quando cheguei no bar, ele já me esperava com um sorrisinho no rosto. Marcelo. Sentei, ele me olhava como quem olha pra um bebê, com aquela cara de babaca com que as pessoas olham pra bebês. Conversamos por algum tempo, ele era realmente interessante. A inteligência dele me excitava, e a cada comentário sarcástico sobre algum filme, eu sentia o calor subindo pelas minhas pernas. Me enganei, ele era extremamente charmoso. Charmoso e bom de cama, como mais tarde comprovei.

Mas eu não podia ficar. Haviam muitas coisas sobre mim que ele não sabia, e que, caso soubesse, mudariam completamente sua visão pura e imaculada sobre a minha pessoa. Deixei um bilhete com meu telefone e alguns coraçõezinhos. Porque não manter nele a imagem que possuia de mim? Resolvi brincar de menina um pouco. Mas ele devia saber: Meninas não dormem fora de casa, e não fazem sexo num primeiro encontro. Ele me enxergou como quis, sem a minha intervenção na imagem. Azar o dele.
[continua]

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Só uma menina.

>> domingo, 1 de novembro de 2009

Existiam nela coisas inexplicáveis. Muitas coisas, pra ser sincero. A começar pelo jeito que falava, com um tom deliciosamente sacana. Seus olhos olhavam como que pedindo alguma coisa, sempre, mesmo que eu nunca tenha conseguido descobrir o que. Talvez pedisse amor, talvez pedisse apenas desejo, olhando com aqueles olhos que pareciam sempre beirar as lágrimas, de tanto que brilhavam. Talvez fosse só mais uma menina, mas pra mim foi sempre mais, muito mais.


A conheci numa mesa de bar. Um bar bem vagabundo, aliás. Estava sentada sozinha, com um copo descartável cheio de conhaque, olhando pro nada. Sei que sua cabeça estava em qualquer outro lugar, menos ali. De repente um cara sentou a sua frente. Um cara visivelmente bem mais velho. Pensei ser seu pai, mas logo pensei “meninas não bebem conhaque com seus pais em bares sujos”. Não conseguia desviar o olhar, eu a comia com os olhos, tendo os pensamentos mais obscenos. Era apenas uma menina, e eu já sabia. Era uma menina diferente, e era impossível ficar indiferente a ela. Meus desejos se tornavam cada vez mais involuntários, ela exalava um perfume que misturava álcool e sexo, e que tomava o ambiente (ou ao menos parecia ao meu olfato, que nesse momento só conseguia a respirar). Lá estava ela, e o cara levantou pra ir ao banheiro. Me enchi de uma coragem bem idiota, e fui até lá. Ela olhou e sorriu, havia sentido meus olhares pesando por cima dela. Simplesmente emudeci. Emudeci parado em frente a uma menina. Nem com as mulheres mais impossíveis eu havia me sentido daquela maneira.

Podem imaginar que meu contato não durou muito. Sabia que o coroa voltaria a qualquer momento. Simplesmente entreguei um cartão e saí. Era estranha a sensação de que ela entendeu. Estranha a sensação de que ela ligaria. Até hoje, juro, não consigo compreender o que fez uma menina tão cheia de si, tão encantadora e incrível ligar pra um cara mala feito eu. Eu não entendo.

Estava então um dia em casa tentando escrever alguma coisa, quando o telefone tocou. Ouvi uma vozinha suave perguntar “Marcelo?” do outro lado da linha. Gelei. Não tinha ouvido ainda sua voz, mas sabia que era ela. Só podia ser ela. Agi como se não soubesse quem estava falando. “Meu nome é Clara, você me deu seu cartão no bar outro dia”. Clara. Alva. Linda. Perfeita. Meu coração disparou, tentei me controlar e agir naturalmente. Com desdém até. Mulheres gostam de desdém, a sensação de desprezo parece acender alguma coisa dentro delas. Inexplicável: Seja um cara legal e atencioso e você ganha uma vadiazinha que te usa. Seja um babaca pretensioso e elas correm atrás de você como umas idiotas. Inexplicável. Conversamos por alguns minutos, ela não tinha muita desenvoltura ao telefone. Era do tipo que vale muito mais a pena conferir ao vivo. Seu sorriso, seus modos, seus gestos. Marcamos um chopp no mesmo dia.

Quando cheguei ao bar e olhei, ainda não conseguia acreditar que ela estava realmente ali. Era uma menina, num bar, à noite. Não fazia sentido algum. Sentei e começamos a conversar. Ela era esperta, inteligente, atenta. Prestava atenção em mim como se eu fosse o maior dos intelectuais, como se tivesse alguma coisa muito boa a oferecer. Não consigo entender como, mas lá pelas tantas estávamos no meu apartamento, fazendo sexo da maneira mais descontrolada. Peguei no sono, quando acordei ela já havia ido embora. Deixou um papel com o número do telefone e alguns coraçõezinhos desenhados com caneta cor de rosa. Era só uma menina, e eu tinha agora certeza. Mas uma menina em total descontrole, e isso eu ainda não entendia. Seria só uma menina?
[continua]

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