Maldade
>> quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Maldade era uma menina bonita, muito bonita. Tinha os cabelos negros e anelados e os olhos esverdeados, mas não muito claros. Olhos penetrantes, de prazer e medo. Ela era alta e encorpada, desde novinha. Não foi a moça mais bonita da escola por mero acaso: Uma menina, Boazinha, com seus cabelos loiros e olhos azuis, era sempre preferida pelos meninos nas disputas eternas sobre quem era a mais bela. Mesmo assim, Maldade era feliz. Ela conseguia persuadir qualquer um a ir aonde ela quisesse. Boazinha nunca conseguia, sua habilidade de convencimento nunca foi das melhores.
Na faculdade sim, Maldade era a mais bela. Vamos chamá-la Mal, pra coisa ficar mais íntima. Mal era responsável pelas festinhas secretas, pelos porres, pelos trotes violentos e os vídeos com virgenzinhas idiotas sendo descabaçadas. Ela estava em todas, e nunca inocentemente. Aliás, se existe uma palavra que nunca fez parte do seu vocabulário, essa palavra é inocência. Formou-se com louvor, idolatrada por todos os professores. Não existe mesmo professor que não goste de Maldade. Ao sair conseguiu logo um bom emprego, devido aos contatos que foi estabelecendo ao longo do curso. Mal era agora advogada.
Pegava todos os casos que ninguém mais queria. Defendia ladrões, seqüestradores, homicidas, estupradores, psicopatas e toda a sorte de criminosos perigosos. Dava pra ouvir ela quase gemer de prazer ao ouvir a expressão “crime hediondo”. Era mesmo uma advogada das melhores. Ou das piores, depende muito do ponto de vista. É bem verdade que sempre dava um jeito de inocentar seus clientes, fosse com favores ao júri, fosse com seu poder incrível de persuasão.
Lá pelas tantas resolveu entrar pra política. Era a candidata perfeita a qualquer cargo. Bonita e inteligente, convencia até o mais honesto dos homens sobre as suas propostas políticas. Começou comendo pelas beiradas, chegou a deputada estadual, mas logo percebeu que seu lugar na política não era exatamente aquele: Ela deveria estar por trás, instruindo os políticos sobre como agir. Sendo assim, sua imagem de repente sumiu da TV e dos jornais. Ao menos a imagem física. É bem verdade que isso feriu um pouco sua vaidade, mas de que importava agora? Ela estava no auge. Alguns acreditam que ela assessora até o presidente. Mas a opinião da maioria é que seu último cliente foi Deus, que a contratou para cuidar de um tal de Haiti. Vai saber do que a Maldade é capaz...

2 comentários:
nossa, bem forte!
Queria saber que fim deu a boazinha???
Bem, eu gostei muito do texto, mas devo ser sincera e dizer que o final foi muito forte.
Ao tocar o nome de Deus se prepare, pois sempre vem elogios e críticas...
Não é fácil ser Deus, não é fácil escrever o que pensamos, não é fácil ser haitiano...
Isso me lembra nosso bate papo sobre o Haiti e nossas conversas literarias em torno de uma garrafa de cerveja.
Realmente excelente texto! Tive medo da maldade, mas.. quem de nós não tem um pouco dela?
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