De onde vem a melancolia.

>> quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Não era dia de nascer, não era hora. Da cama do hospital ela via o mar pela janela, e uma onda de melancolia tomava conta. A barriga pesava muito praquela jovenzinha que até outro dia sustentava apenas a si mesma, e com o esforço de professora primária pagava a pensão e a comida.

A visão do mar lhe trazia enjoo. Ficava nauseada em pensar no quanto foi tola, acreditando nas palavras doces daquele que agora havia sumido. Casado. Como pôde ela, sempre tão esperta, cair na conversa de que abandonaria a família? Apenas mais uma das conquistas fáceis de um vigarista qualquer. E agora estava sozinha. Afagava os longos cabelos negros, quando sentiu que já era a hora.


Sofreu. E a cada grito lembrava mais e mais de sua história. Queria uma mão amiga, queria sumir, queria não sentir dor. Pensava em ir pro interior criar o filho, viver uma vida mais pacata, se afastar da mágoa da cidade grande. O Rio de Janeiro naquele ano de 1935 não era mais o mesmo pra ela. Era outro e era melancólico e vazio.

Nasceu. Era menino e era enorme, lindo. Os olhos azuis e graúdos, azuis e graúdos demais pra um recém nascido. A pele alva e um rosto de sonho faziam quem olhasse pensar que já tinha meses de idade. Olhou o filho, pegou-o, ouviu seu choro, quis chorar. Chorou. Ainda trêmula de dor, despertou de repente do transe quando viu o pai da criança entrar pela porta do quarto, e a enfermeira arrancar o bebê de suas mãos. Ela tentou impedir, com suas últimas forças.

Gritou. Mais e mais, e levantou, mesmo sem poder. O sangue escorria pelas pernas, e de repente tudo girou. Era o fim. Ele levava a criança embora, e ela só tinha forças pra manter os olhos semi-cerrados e ver os dois indo embora. Ouvia ao longe os berros do bebê, e não podia fazer nada.

Acordou. Não sabia quanto tempo havia passado. Podiam ser horas, dias. O sol brilhava alaranjado lá fora. Era fim de tarde. Fim. Quantos finais ela ainda veria, antes do seu próprio? A enfermeira apareceu, olhou com olhos de pena, e murmurou algo sobre lamentar muito a morte do bebê. Lágrimas rolaram dos seus olhos, e insistiu ter visto levarem ele embora na noite anterior. A enfermeira argumentou, e terminou dizendo que era melhor descansar, que logo se sentiria bem de novo.

A menina contida ali havia ido embora, e o que sobrou era apenas a sombra de uma vida. Saiu do hospital dias depois. As luzes e cores da cidade agora eram apenas nuances de cinza, e as crianças brincando eram somente vultos a aumentar sua tristeza. Sentou-se no banco da praça, e olhou ao redor. O chafariz, os casais, os pombos, tudo a fazia pensar no quanto se sentia infeliz e vazia.

Os anos passaram. Muitos, muitos anos. Era ela ali, eu sei, sentada no mesmo banco de praça, vestida em farrapos. Era ela embaixo da ponte, no paço, na praça. Era ela a pomba branca, as meninas, as moças, os rapazes. Era ela a desilusão e a tristeza, é ela a melancolia. Eu sei que é, e sempre a vejo vagar. Vejo os mesmos olhos tristonhos, olhos de mágoa e de sonho todo dia de manhã. Assim que levanto e me olho no espelho.

1 comentários:

Renata Salles 4/2/10 09:50  

Sensacional!
tive a sensação ao ler os ultimos paragrafos um retrato da Desespero.

Senti como se todos so sonhos fossem embora e que depois deles irem, ninguem tem motivo mais para viver. Viramos sombras, no parque, sob a ponte, trajados de nossos farrapos...

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