Glória

>> domingo, 7 de fevereiro de 2010


Acordava sem vontade e sem razão, e saía pra trabalhar. A vontade de viver também era ligeiramente escassa, mas quanto a isso ia levando. Sabia que sobrevivia, mas por não saber o que seria afinal viver, preferia não pensar muito nessas coisas. Às vezes achava que viver era ter muito dinheiro e fazer o que quisesse, na hora que quisesse. Às vezes achava que talvez vida fosse o que levava: o emprego mediano, o marido mediano, a família mediana e os almoços de domingo. Só se sentia feliz quando dançava, e era a única atividade da qual não abria mão. Nos sábados a noite era a rainha da gafieira, e não havia no mundo quem lhe tirasse esse título. Não que tenha sido algum dia realmente coroada rainha, mas era assim que ela se sentia: O sapato de salto e bico redondo arrastando-se macio pelo piso de madeira, os vestidos que ela mesma fazia, rodopiando pelo salão. O cabelo preso na lateral por uma flor de pano e os brincos que havia herdado da mãe. Usava na boca um batom carmim, um pouco de rouge nas bochechas e um sorriso de parar o trânsito. Era bonita, afinal. Mas muito mais nos sábados à noite. Era o seu momento de Glória.

2 comentários:

Luke 7/2/10 19:22  

Intenso e poético. Muito bom.

Renata Salles 7/2/10 19:23  

Vou te dizer que uns tempos atras eu estava assim, pensando apenas em um momento de gloria e no resto da semana, assim meio, preto no branco....

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