O parto

>> segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Não atrapalhem-me, estou parindo. Estou pondo pra fora esse filho que há tanto carrego no ventre. Aliás, não. Esse eu carrego no pensamento, e não suporto mais o peso. Oh Zeus, entendo agora da dor que me falastes ao parir Atena. Entendo perfeitamente!

Não atrapalhem-me, estou parindo. Estou me livrando dessa criança feia e sem graça, essa criança que não quero e nunca quis. Depois que ela sair eu lhes darei, façam dela o que quiserem. Podem devorar a criança sem dó. Podem proferir as palavras que quiserem sobre ela, já não me importo. A criança quando sai não me pertence mais.

Não atrapalhem-me, peço encarecidamente! Já disse, estou parindo! E saem rios de sangue e lágrimas. As contrações vão se tornando cada vez menos espaçadas, e nesse momento quase desfaleço. Deixem-me aqui no meu canto enquanto grito, enquanto vejo tudo enturvecer e evanesço.

Não atrapalhem-se. Estou parindo? Pari. Saiu. Livrei-me. Jogo agora a criança aos leões. Façam dela o que bem entenderem, já disse.

1 comentários:

Renata Salles 9/2/10 06:11  

Nossa Danda... festival de textos fortes.

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