Mariana furta-cor
>> quarta-feira, 21 de abril de 2010
Mariana ouvia desde pequena que o que mais importava nas pessoas era o que tinham por dentro. Sua mãe, a tia, a avó e até o pai insistiam em dizer coisas como “beleza não põe mesa”, “quem ama o feio, bonito lhe parece” e “quem vê cara não vê coração”. Quando pequena a menina não entendia bem tais frases, mas de tanto ouvi-las, eis que algo estranho aconteceu: Com 7 anos de idade Mariana não enxergava mais pessoas. Ela via cores, e sabia bem o que cada uma representava sobre a personalidade daquele a sua frente.
Com o passar dos anos, a menina ia descobrindo mais e mais sobre os seres humanos: Nem todas as pessoas bonitas são boas, mas não necessariamente todas são ruins. Existem pessoas feias por fora e por dentro, e outras tão lindas em algum dos aspectos que ficava difícil para os seus sentidos descobrirem em qual dos dois lados morava essa beleza. Devido ao seu dom, ela não tinha muitos amigos. Não por ser anti-social ou ter qualquer problema de relacionamento, mas a percepção aguçada sobre o mundo a tornava avoada e meio calada na maior parte do tempo. Mariana cursou o ensino fundamental numa escola pequena onde a mãe dava aula, terminou o ensino médio formando-se professora, e cursou faculdade de pedagogia. Dava aula no jardim de infância, e nada poderia a fazer tão feliz: Não existia feiúra nem por dentro e nem por fora. Conviver diariamente com crianças era uma benção para seus olhos cansados da fealdade da espécie humana.
Do alto dos seus 22 anos, uma coisa mágica aconteceu. Algo totalmente diferente de tudo que vivera até então. Ela já havia visto pessoas roxas, pretas, amarelas e azuis. Havia visto algumas com tons tão sombrios que era impossível identificar uma coloração certa para eles. Mas o que viu naquele dia mudou completamente o curso de sua história. Mariana estava sentada na porta da escola quando um rapaz veio andando em sua direção. Seu coração parou por um momento, depois bateu tão rápido que quase saiu pela boca. O rapaz era furta-cor. Com muito esforço ela deu a informação que ele pediu, e não pode furtar sua mente de desejar que ele conseguisse o emprego que vinha pleitear: Seria professor da primeira série, lhe disse, exultante de alegria e nervosismo.
Como isso é uma história, e acredito que as histórias devem ser agradáveis a quem lê, lhes direi o que querem ouvir: O rapaz conseguiu o emprego. Mariana não conseguia formular sequer uma frase com sentido quando o via. Seus pensamentos voavam alto, soltos pelo ar, e por mais que ela tentasse segurá-los, quando percebia que flutuavam já era tarde demais. Não que o moço em questão fosse indiferente a sua presença. Ele também a notava, e o mesmo acontecia com seus pensamentos: Por mais que inventasse mil mecanismos para mantê-los presos, quando caía em si já estavam pairando pelo ar, afoitos, desesperados por encontrar uma janela qualquer e alcançar o céu.
Alguns meses foram necessários para que um bom dia pudesse ser proferido por uma das bocas. Foi o rapaz, que esqueci-me de dizer, chamava-se Pedro, que tomou a atitude. Pedro respirou fundo e colocou na cabeça a rede que havia feito para prender os pensamentos. Passou por ela no corredor e disse “Bom dia”. Olhou para sua cabeça. Ela usava uma rede parecida e respondeu um bom dia sorridente, quase um sinal de satisfação, quase um convite para que fosse mesmo um dia lindo e doce. Depois desse dia davam-se bom dia todos os dias, e cada dia com tom diferente: Alguns eram convites, outros eram medo, terceiros bons dias eram dúvida e existiam ainda aqueles em tom de beijo, dados em voz baixa e com as bochechas pegando fogo.
Vou contar agora um detalhe da história que havia omitido desde o princípio: Mariana enxergava cores nas pessoas, mas ao olhar no espelho via apenas Mariana. O que ela não sabia era que também era furta-cor. E sabia menos ainda que Pedro tinha a mesma capacidade de ver cores. Não sabia também que ele dava aula para crianças pelos mesmos motivos que ela, que era tão avoado quanto ou até mais, e que não conseguia segurar pensamentos na cabeça. Ambos não faziam idéia de que enquanto passavam pelo corredor sem conseguir falar, seus pensamentos encontravam-se no ar, tendo conversas intermináveis.
Conforme o tempo passava, o bom dia foi evoluindo. Ele cresceu primeiro para um “tudo bem?”, e depois dessa simples pergunta crescia cada dia mais. Sem perceber, Pedro e Mariana tornaram-se amigos, de uma maneira especial e, sem querer ser irônica, bastante colorida. Não, não estou falando do significado atual da expressão amizade colorida. Não que os dois não pensassem em beijos, mas mesmo com os pensamentos presos na cabeça, a coragem insistia em dar longos passeios enquanto conversavam. Talvez a coragem dela se encontrasse com a dele e passasse o tempo dando beijos de cinema atrás da árvore do pátio, não sei. Só sei que digo amizade colorida no sentido mais puro: Sendo eles furta-cores, não poderia ser mesmo diferente.
Num dia ensolarado qualquer, lá pro meio de abril, a coragem de Pedro resolveu dar as caras por alguns minutos. Tempo suficiente para que ele a convidasse para tomar um sorvete no final de semana. Por entre bons dias e tudo bens, a semana passou e logo era sábado à tarde. O coração de Mariana encheu-se de luz quando ela tirou seu vestido azul do armário e colocou as sapatilhas creme para combinar. Com um laço de fita enfeitando os cabelos, lá foi ela até o parque. Pedro a esperava sentado num banquinho, olhando um menino brincando com um balão. Todas as suas cores se acenderam quando ela chegou. Era um brilho perolado o que eles compartilhavam, um brilho tão enorme e tão intenso que poderia cegar, caso alguém enxergasse. Depois de dois picolés de uva, Pedro resolve fazer a revelação bombástica. Ao menos supostamente bombástica, uma vez que os olhos de Mariana se encheram de lágrimas quando ele contou. Mas não eram lágrimas de bomba, eram de alegria, de uma infinita e contagiante alegria. Eu vejo cores em você, ele disse. Mariana o abraçou forte, quase sufocando, lhe deu um beijo e sussurrou em seu ouvido: Eu te vejo furta-cor.
O que se passou depois daquele dia no parque tomaria muitas e muitas páginas caso eu resolvesse contar. Pode lhe parecer estranho ou irreal o que vou dizer, mas levando em consideração que você leu até aqui uma história sobre duas pessoas furta-cor, creio que a frase não lhe soará tão fora do real assim. É que o melhor resumo que posso fazer sobre a história de Pedro e Mariana é o seguinte: Eles viveram felizes para sempre.

2 comentários:
Ai que fofo! uahuahuahuahuaha
Acho que vc deveria escrever coisas fofas assim mais vezes!!! =~~
ah que bonito!
Adorei o casal e que bom que o final foi o esperado! ehaiuehaiueheh
http://marcelareinhardt.blogspot.com/
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