Josefina e o céu

>> segunda-feira, 17 de maio de 2010

Josefina olhou pro céu e ele era azul. O céu olhou pra Josefina e ela era branca feito leite. Branca feito queijo minas bem fresquinho. Josefina olhou pro céu e ficou encabulada ao perceber que ele olhava de volta. Suas bochechas pálidas coraram e mirou o chão. Fitou o céu mais uma vez e sorriu. O céu sorriu de volta como sabia sorrir, com raios de sol tão fortes que deixaram a menina meio cega por alguns segundos.


Um dia olhando o céu a mocinha foi ao chão. Tropeçou numa pedra qualquer e seu joelho branco era agora vermelho. Vermelho sangue, e o sangue escorria perna abaixo. Ela chorou e o céu, sem conseguir conter, chorou também. Choveu por três dias seguidos naquela semana, e ela se sentiu muito triste ao ver o estrago que a chuva causou. Começou então a ser um pouco mais atenta: Olhava o céu apenas quando estava parada, mas ao andar prestava atenção no caminho.

Os dias iam passando e a amizade entre Josefina e o céu só fazia crescer. Era bonito de ver o sentimento que crescia entre os dois. Quando ela acordava de manhã virava logo o rosto pra janela e olhava pra ele, espantada com o modo como podia ser tão bonito. Nas noites quentes do verão ele a presenteava com estrelas, muitas estrelas, que ela ficava admirando por horas, até pegar no sono.

Tudo continuaria muito bonito, não fosse a preocupação repentina de Dona Josefa, mãe da Josefina. “Essa menina vive com a cabeça nas nuvens”, dizia, com uma expressão tão preocupada que dava dó. Ela não entendia como podia ser uma menina e o céu assim, tão amigos. Tantas fez e tanto perturbou Seu José, que compraram um computador pra Josefina.

Nos primeiros dias ela não ligou muito, nem sequer ligava o tal do computador. Queria mesmo era olhar o céu e ver o dia passar. Na segunda semana ela ligou “só umas duas vezes”, segundo disse ao amigo. Passado um mês a menina mais ficava no computador que qualquer outra coisa. Ia esquecendo aos poucos, naquela velocidade que só as crianças tem de esquecer, o seu amigo céu. E ele ficou triste que só ele. E ele nublou, choveu, quase caiu. Ele mandou tudo que pôde, desde dias muito quentes a tempestades de raios que pareciam não ter fim. Mas a menina nem ligava, seduzida pela tecnologia. Um dia o céu resolveu esquecer também, e partiu em busca de novos amigos.

Os anos se passaram como tinha de ser. Josefina e seu amigo computador ficaram muito unidos, embora ela sempre achasse que havia algo mecânico demais, estranho demais em suas atitudes. Ela sempre achou o computador meio “pau-mandado”, e isso nunca a agradou. A menina se formou no ensino fundamental, depois no médio, e finalmente chegou a hora de entrar na faculdade. Já não era mais uma menina agora: Era uma moça muito bonita e simpática, sempre pronta a ajudar e conversar com quem precisasse.

Na hora de escolher o que estudar, Josefina hesitou. Eram muitas as opções, e muito difícil a escolha. Como saber o que gostaria de fazer pra sempre? Como se saber se aquela escolha era mesmo a certa? A moça acabou por escolher um curso que estava logo no início da lista de cursos: Astronomia. Não sabia se era o nome, não sabia bem o que era, mas alguma coisa a impelia a fazer tal escolha. A mãe chiou, “Isso não dá futuro minha filha, vai ser médica, vai ser advogada. Você precisa ser doutora!”, o pai dizia apenas “Deixa a menina, Josefa, deixa a menina!”. E ela deixou.

Josefina estudou e estudou e foi levando. Lá pelas tantas ela se lembrou do amigo, aquele amigo que tanto gostava na infância. Josefina olhou pra cima e viu o céu. E entendeu finalmente o que a motivara a seguir aquele caminho. Ela já não era mais uma menina, mas ele continuava exatamente o mesmo. Josefina de repente olhou o céu com outros olhos. Ela agora era astrônoma, e eles viveram felizes para sempre.

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