Ato III - Posfácio

>> quarta-feira, 2 de junho de 2010

Acordaram sentindo-se refestelados. Não se conheciam, não lembravam o nome um do outro. Não sabiam endereços, telefones. Mal reconheceram-se ao se olharem de manhã. Não sabiam por que mesmo haviam dormido juntos. Eram, para cada um, apenas mais um. Para ele na realidade ela era a primeira, mas ela nunca saberia.

Olharam-se mais uma vez. Vestiram-se, saíram. Saíram para nunca mais. Estava cometido o crime, e como em todos os crimes, não havia volta. Mataram-se ali, um pouco mais, naquela noite. Mataram as mãos dadas no parque, os telefonemas no meio da madrugada, as idas ao cinema, os filhos, a casa no campo, os amigos em comum, a vida. Mataram uma vida que poderiam ter levado juntos, se soubessem ao menos um pouco o quanto eram parecidos.

Mas essa é a cidade grande, meus caros, e nas idas e vindas desse mundo insano e casual, matamo-nos, pouco a pouco, dia após dia. A cada 24 horas vive-se uma vida, quando se resolve viver como se não existisse mesmo o dia seguinte. É triste, sei. Mas amanhã sempre se pode encontrar um novo possível amor eterno. Mais 24 horas.

2 comentários:

Menos 3/6/10 01:05  

Cidade grande: o eliminador-mor dos se's e dos será-que's.

MiniRê 5/6/10 01:00  

Vou te falar.. descobri que cometo esses crimes a cada dia. E quando percebi, estou morrendo....

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