O terceiro mundo

>> sábado, 5 de junho de 2010

Era um mundo pequeno, muito pequeno. Pequeno e sujo. De uma sujeira que por mais que se lavasse, não saía. Eram manchas nas paredes, que subiam mais e mais. A cada dia o encardido se tornava mais escuro, e o cheiro de lodo tomava mais conta do ambiente. Era úmido e frio naquele mundo, e respirar era tarefa difícil: Só quem visitava o lugar com freqüência ou morava por lá conseguia se adaptar. E mesmo para estes, vez ou outra a coisa complicava: Tinham que prender a respiração por alguns segundos para suportar novamente.

Não havia casas por lá, apenas prédios. Prédios sem porteiro, sem interfone, sem telefone ou internet. Sem forma alguma de comunicação. Os apartamentos eram pequenos, e não havia também luz. Alguns conseguiam lanternas, outros usavam velas. Vez ou outra algum apartamento pegava fogo, e levava consigo o morador. Não havia trancas nas portas, e todos que lá moravam conviviam com a sensação de perigo iminente, olhando paranóicos para as sombras, sentando no canto do cômodo e olhando fixamente para a porta. Quase ninguém dormia, e os que conseguiam o faziam cobrindo-se até a cabeça, como se tal atitude desse um pouco mais de segurança. Ninguém queria mesmo conseguir dormir, pois os pesadelos daquele mundo eram sempre densos, sempre. Eram pesadelos daquele tipo que mesmo ao acordar continuamos sentindo.

Nesse mundinho pequeno e sujo ninguém falava. As poucas palavras existentes eram escritas, mas poucos sabiam ler. Alguns tinham desaprendido por medo. Acho que medo é mesmo o melhor adjetivo pra descrever tudo naquele lugar. Qualquer coisa que nascia lá era fruto do medo, e os frutos davam frutos, que davam frutos, e num dia distante os frutos do medo se transformaram numa coisa chamada pânico. Como ninguém falava, nunca tinham discutido sobre isso. Eles apenas conviviam, andando pelas paredes, chorando pelos cantos.

Raramente alguém ia a rua. A maioria da população se mantinha em casa, sozinha, olhando pro nada e sem coragem de levantar. Sendo assim, as ruas fediam a lixo e lágrimas. Eram poças imensas, e se você um dia se aventurar por lá, vai constatar: As lágrimas depois de algum tempo exalam um odor capaz de matar. Um cheiro de uma tristeza tão enorme que contagia, fazendo com que, uma vez no mundo, rapidamente você se tornasse mais um de seus moradores solitários e desesperados.

Poucas pessoas conseguiam sair de lá. A maioria morava naqueles prédios há muito tempo. Já não se lembravam mais como ou quando haviam ido parar lá. Quando um apartamento fica vago, rapidamente alguém aparece e compra. Não existe aluguel , nem fiadores, nem proprietários de mais de um imóvel. Não tem mesmo motivo para se fazer negócio. A única coisa que se sabe é que ninguém vai morar lá por conta própria, alguma coisa sempre obriga a pessoa, e sem que ela perceba, já foi.

É sempre triste e cinza e vago e escuro. É sempre solidão e mágoa e medo, às vezes pânico. É uma eterna vontade de não dormir, aliada a uma tão eterna vontade de nunca acordar. É como dormir por meses sem perceber, e despertar com o mundo inteiramente mudado. É frio lá, muito. É um mundo sem fim, apesar de pequeno (e não sei se você vai-me entender quando ler). É um mundo que em seu espaço parco não para nunca de crescer. É um mundo que contamina e mata. É um mundo chamado Depressão.

3 comentários:

MiniRê 5/6/10 17:43  

Ja passei muito tempo dentro desse mundo... A cada fez que eu respirava aquele ar contaminado, uma parte de mim morria envenanada.. e o mundo passou da minha vida como alguem que pede carona. Não sei se foi ele ou eu, mas quando eu me vi livre dele, me agarrei no novo mundo desforme que via, que mesmo não sendo bonito, era muito melhor do que aquele mundinho...

Luke 5/6/10 17:59  

Conto fantástico apesar do seu tema. Parabéns,

- NSS - National Sarcasm Society. 5/6/10 18:13  

Cara, apesar do seu tema[2], ficou PERFEITO.

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