Os gritos
>> domingo, 13 de junho de 2010
Ela acordou de manhã. Colocou um vestido que não gostava, sapatos de salto que não cabiam direito em seus pés, um casaco que não esquentava (mas era mesmo muito bonito, diziam) e óculos que não precisava. Pegou a bolsa cheia de inutilidades e saiu.
Entrou no ônibus para ir ao emprego que nada tinha a ver com ela, saltou na porta do prédio. Realizou sorridente todas as tarefas, aquelas tarefas que a faziam querer gritar e mandar o mundo tomar no cu. Finalmente chegou a hora de ir embora. Virou pra esquerda e foi andando meio sem rumo. Encontrou o namorado, que não era seu, e o convidou para dar um passeio. Ele, obviamente, não foi.
Entrou numa cafeteria e pediu uma coca-cola. Deixou a lata cheia em cima da mesa e saiu. Refrigerante dava mesmo celulite, porque beber? Pedí-lo foi apenas um impulso. Passando por uma vitrine, viu mais um vestido que detestou. Entrou e comprou. Os sapatos machucavam, mas ela nem ligava. Eram elegantes afinal, precisava usá-los.
Entrou no metrô, e desceu três estações antes do que devia. Caminhou um pouco mais pela cidade onde não queria morar. Chegou em casa sem saber ao certo porque havia saído. Colocou pra tocar um disco que lhe dava dor de cabeça, tomou uma aspirina e um copo de vodka. Ficou sentada na cadeira, pois não queria bagunçar a cama.
Seu namorado tocou a campainha, ela não atendeu. Ele insistiu, ela abriu a porta. Olhou pra ele e não conseguia lembrar porque haviam começado a namorar. Seus olhos lhe davam uma espécie de irritação que a fazia querer matá-lo. Mas ela nunca matava. Fizeram sexo por algum tempo, enquanto ela olhava um passarinho pousado na janela. Olhou pro céu e percebeu que estava nublado. Vai chover bastante mais tarde, pensou, enquanto o homem gemia de maneira estranha, deitado em cima dela.
O namorado foi embora, ela tomou um banho e sentou no sofá. Ligou a TV e começou a assistir o jornal. Não gostava nem um pouco de noticiários, mas era preciso se manter informada. Comeu um prato de salada no jantar. Odiava salada com todas as suas forças, mas sabia que saúde deve vir em primeiro lugar. Não sabia como sabia disso, mas sabia. Talvez sua mãe tivesse lhe dito, talvez tivesse visto na TV. Alguma coisa por dentro gritava que saúde é muito importante. Ela nunca discutia com os gritos de dentro.
Deitou na cama. O colchão era duro e ela gostaria muito de ter um macio e fofo. Mas colchões macios e fofos fazem mesmo mal para a coluna. Conformou-se e dormiu. Amanhã era um novo dia e aquele emprego abominável a esperava. Tem muita gente que não consegue emprego algum, estudei muito para conseguir este, sou bem sucedida, pensou, enquanto ajeitava o travesseiro embaixo da cabeça.
Pegou no sono. Sonhou com latas de refrigerante, batatas fritas, colchões que faziam seu corpo afundar, tênis coloridos, calças largas e sorrisos. Sonhou com um homem que a abraçava e dormia do seu lado, que lhe dava grandes rosquinhas glaçadas na boca e adorava ouvi-la contar piadas idiotas e sem sentido. Sonhou que pintava quadros, muitos quadros. Quadros de céu azul e flores, de crianças e cachorros e lagartas enormes e coloridas. Sonhou de repente com um barulho estridente e repetitivo. Acordou. Era o despertador.
Havia chovido muito aquela noite. Vestiu o vestido cinza que tinha comprado no dia anterior, sapatos de salto um pouco menos desconfortáveis e um casaco que aquecia, pois fazia frio (ainda assim, era um casaco bastante bonito, diziam). Saiu com um grande guarda chuva preto, pegou o ônibus de sempre, trabalhou o trabalho de sempre. Dormiu com o namorado de sempre, embora após o sexo ele tivesse simplesmente se virado pro lado e pego no sono.
Ela não bebeu refrigerante, não comeu rosquinhas e definitivamente não pintou quadro algum. Não haviam batatas fritas, nem sorrisos, nem piadas. São apenas gritos de dentro, pensou, enquanto pegava novamente no sono. E como eu disse antes, ela nunca discutia com eles.

2 comentários:
Tenho certeza que tem muitas pessoas assim nesse momento dormindo pensando no dia de amanhã e que queriam que o domingo não acabasse nunca.
Definitivamente, é sofrivel a rotina, para alguns menos, pra outros mais. Mas eu defino a rotina como uma serie de coisas desagradaveis que vc deve fazer sistematicamente. Porque se vc gostasse de fazer uma determinada coisa todo dia, isso jamais seria uma rotina, seria fazer de novo alguma coisa...
Rotina é assim, sempre cinza e vazio...
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