Marina e o menino morto - Parte II
>> quinta-feira, 29 de julho de 2010
- É, faz sentido. Mas como pode você estar morto e estar aqui na minha frente? Como foi que isso aconteceu? E todo mundo te vê? E é claro que eu gosto de pão. Todo mundo gosta de pão – Disse a menina, ainda bastante assustada.
Rafael não respondeu, apenas olhou pro chão e pareceu ficar bastante triste. Marina não sabia o que fazer, mas resolveu se acalmar e tentar conversar. Falou sobre a mãe, o pai e o irmão e sobre casa onde morava, mas quando o guri perguntou sobre seus amigos, foi a vez dela abaixar a cabeça e parecer tristonha.
- No meu tempo eu tinha uma porção de amigos. Costumávamos pescar no riacho, correr pelas ruas da cidade e roubar dinheiro da caixinha da igreja pra comprar doces. Até o dia em que tudo aconteceu.
- Tudo o quê? O que aconteceu? Anda, fala, está me deixando nervosa!
- Ah, é uma longa história, você quer mesmo saber? - Ele disse, percebendo que a menina estava muito interessada.
- Claro que eu quero saber!
Bom, então está bem. Você quer saber, eu conto:
Tudo começou quando minha mãe tinha 17 anos de idade. Ela era muito, muito bonita. Tinha os cabelos claros e os olhos azuis, como os meus. Ela se chamava Cecília, e gostava muito de ler e inventar histórias. Um dia ela apareceu grávida em casa, e meus avós não acreditaram quando ela lhes disse que o filho era do Boto. A puseram pra fora, e ela veio viver nessa casa onde hoje você vive. Quando eu tinha 10 anos, minha mãe faleceu e fui morar com meus avós na cidade. Fiz muitos amigos, e todos diziam que eu havia puxado a minha mãe, porque sabia muito bem como contar uma história. Diziam também que minha mãe morreu de tristeza, pois viu meu pai apenas uma vez na vida, mas não conseguiu esquecer esse amor. Com história de Boto não se brinca!
Um ano se passou, e começaram a falar pela cidade que uma mulher havia se mudado para a casa. Ninguém a via durante o dia, mas diziam que a moça havia sido abandonada pelo noivo e vagava de branco pela cidade durante a noite. Eu sempre gostei de aventuras, e por isso um dia saí de casa de madrugada e fui pra praça esperar a tal mulher passar. Quando vi a mulher de branco, fiquei gelado que só vendo, mas tomei coragem e fui até ela me apresentar. Falei que meu nome era Rafael e que ela era bem vinda na cidade, mas quando ela levantou o véu meu coração parou! Era a minha mãe, a minha mãezinha ali, em carne e osso! Meus olhos se encheram de lágrima e eu não conseguia falar. Ela sorriu pra mim e...
- Pérai! Você está me dizendo que é filho do Boto com a Bela da meia noite? E você quer que eu acredite nisso? Você está achando que eu sou o quê, alguma bobona?
- Mas você nem me deixou terminar, ora bolas! Você não disse que queria saber? Aposto que está com medo!
- Eu não tenho medo de nada. Eu só não estou acreditando. Mas tudo bem, vá lá, termine sua historinha que logo eu tenho de voltar pra casa.
- Pois bem, onde parei? Ah sim...
...Ela sorriu pra mim e abriu os braços. Apesar de estar morrendo de medo, lhe dei um abraço. Mamãe começou a chorar, e disse que eu precisava fazer uma coisa por ela, pra ela poder descansar em paz. Eu disse que faria qualquer coisa. Então ela me contou toda a verdade sobre meu pai.
- Ahhh, eu sabia! Você é filho do Boto coisíssima nenhuma! Fala vai, quem era seu pai afinal?
- Calma, você está muito nervosa. Pra ouvir uma história é preciso manter a calma e abrir a cabeça, senão a história fica voando triste por aí, querendo ser contada. A minha mãe dizia que...
- Para, não começa a contar outra história, desembucha logo vai, quem era seu pai?
- Tá bem, continuo então...
...Minha mãe então me contou que meu pai se chamava Honorato, mas era conhecido por todo lado como Cobra Norato. A mãe o pariu na beira do Rio, junto com uma irmã gêmea. Eles eram duas cobras, e digo isso literalmente, e só de noite ele deixava a pele de cobra por lá e virava homem. Só que de manhã tinha sempre que voltar, vestir a pele e ir pro rio. Desencantar ele era muito, muito complicado. Era preciso encontrá-lo dormindo, jogar três pingos de leite de mulher em sua boca e dar uma pancada de ferro virgem em sua cabeça. Aí ele fecharia a boca, três gotas de sangue cairiam de sua cabeça e ele seria finalmente homem durante todo o dia. Numa noite ele veio a um baile na cidade e conheceu minha mãe. Eles dançaram durante toda a festa, e no final ele foi embora prometendo um dia voltar. Mamãe achava que ele era um pescador de outra cidade e passava os dias na beira do rio, esperando ele voltar. Numa noite ele finalmente apareceu, em sua forma de cobra, e minha mãe se assustou. Meu pai deixou a pele, e como minha mãe era muito corajosa, ficou lá escutando ele contar se explicar.
A história do meu pai, por sinal, era bastante complicada. Além de tudo que eu disse, ele também matou sua própria irmã, porque ela era muito má! Minha mãe então teve uma ideia: Eles teriam um filho, e então ela poderia usar o próprio leite para desencantar meu pai. E foi o que fizeram. Mas minha mãe não podia contar aos meus avós quem era realmente meu pai, então disse que eu era filho do Boto, para que depois do desencantamento, pudessem ficar juntos sem que ninguém soubesse quem ele era.
Quando eu nasci minha mãe não deu leite. Alguma coisa aconteceu e por mais que ela tentasse, não saía uma única gota. Meu pai então foi embora, procurar em alguma outra cidade se havia alguém corajoso o suficiente para ajudá-lo. Mas ele nunca mais voltou, e por isso minha mãe foi ficando mais e mais triste a cada ano. Quando ela morreu e chegou ao céu, encontrou Rudá e lhe fez um pedido. Pediu que a deixasse andar pela terra até encontrar novamente seu grande amor, e então poderia entender porque ele sumiu e finalmente descansar em paz. Rudá lhe concedeu o pedido, mas com uma condição: Poderia andar somente durante a noite, e sempre com o rosto coberto. Minha mãe aceitou e então voltou a terra para tentar encontrar meu pai. O problema é que Rudá não lhe contou outra condição do acordo: Mamãe não seria capaz de deixar a cidade, por mais que tentasse. Alguma coisa acontecia e ela de repente se via voltando para o mesmo lugar. Toda vez que tentava sair da cidade, ao piscar os olhos se encontrava novamente na porta de sua casa. Começou então a vagar pelas ruas durante a noite, tentando pensar num modo de encontrá-lo e poder descansar. Foi quando ela me encontrou.
- Ai meu Deus do céu, essa história está cada vez mais estranha Rafael, eu não estou acreditando muito em você não...
- Você está falando com um menino morto, não está? Que motivo tem pra não acreditar na minha história? Conto histórias muito bem, mas nunca fui mentiroso, viu?!
- Você está me deixando é nervosa pra saber como isso termina. - Disse Marina, cruzando os braços e chutando furiosamente uma pedrinha do chão.
- Eu vou terminar de contar logo logo, se você parar de me interromper toda hora! Se acalma que já está quase no final.
- Tenho que ir pra casa almoçar, senão minha mãe vem me procurar. Mas depois do almoço eu volto, você vai estar aqui?
- Claro que vou. Eu não tenho mesmo outro lugar pra ir.
[continua]

1 comentários:
Caraaaaaaaaca, olha a vibe cultura brasuca chegando!! haahahhahaa
Adorei, Danda!!! PRECISO dar parte 3!
Postar um comentário