Marina e o menino morto
>> quarta-feira, 21 de julho de 2010
Marina morava ao lado do cemitério. “Vizinhança pacata”, dizia sua mãe, quando a família perguntava porque não se mudavam. Ninguém mais vivia naquele cantinho da pequena cidade além delas duas, o pai e o irmão menor. É bem verdade que não haviam mesmo preocupações: fofoca, barulhos noturnos e música alta vinda de outras casas não faziam parte de suas vidas. Em compensação, Marina não tinha amigos. No auge dos seus 11 anos, era uma menina quieta e silenciosa, que passava os dias desenhando e inventando histórias.
A mocinha não frequentava a escola. Sua mãe dizia que o convívio com outras crianças faria Marina sofrer, e por isso a ensinava em casa até que tivesse idade suficiente pra se defender dos “monstrinhos malvados”, como os chamava. Durante os anos de escola, Mariana (a mãe da Marina) havia sofrido muito. Filha de pais separados numa época e num lugar em que isto era pouco comum, ouvia todo tipo de piadinha e ofensa. Cresceu sem amigos, e não queria ver a filha passar pelo mesmo. A verdade é que a menina queria muito conhecer outras crianças, mas sorria e concordava com o que a mãe dizia. Nunca foi muito de discordar, e apesar da pouca idade, entendia seus motivos.
Um dos passatempos favoritos de Marina era caminhar pelo cemitério, olhando as fotografias nas lápides e imaginando como aquelas pessoas haviam vivido. Sua favorita era uma moça chamada Maria Quitéria, que havia falecido aos 18 anos. Ao lado da foto, as palavras “Um dia, meu amor, estaremos novamente juntos” a faziam pensar em amores impossíveis, brigas de família e desfechos trágicos. Passava as vezes horas encarando os olhos tristonhos de Maria na fotografia, o seu sorriso discreto e a gola trabalhada do vestido que usava. Não tinha interesse de saber a real história, o que lhe agradava era a possibilidade de inventá-la.
Os dias passavam calmos, quando a menina reparou numa lápide que não havia visto antes. Espantou-se, não era um cemitério grande e andava por ele todos os dias. Como era possível não ter reparado naquela lápide de mármore branco, tão reluzente ao sol? Aproximou-se. Ali descansavam os restos de Rafael, um menino de sua idade. A foto antiga estava um pouco embaçada, mas ainda assim conseguiu ver os grandes olhos claros do menino, olhos sorridentes e espertos, pensou. “Aqui repousa Rafael, o grande contador de histórias”. Simpatizou com ele na hora, e na infelicidade de seu coração solitário pensou “puxa vida, ele bem que poderia ser meu amigo. Mas pelo tempo, nem meu avô poderia ter sido”. De repente seu coração saltou e as pernas bambearam. Olhou pra trás, mas não havia nada. Ouviu barulhos de passos, na verdade de alguém correndo, e não conseguia se mexer, tamanho era o seu nervosismo. Ao levantar, ainda olhando para trás, quase caiu no chão: Parado a sua frente estava um menino, mas não podia ser. O menino era Rafael, mais corado, mais colorido, mas ainda assim ele mesmo. Os olhos cinza-claro da fotografia antiga eram azuis, a camiseta era verde-água e os cabelos alourados brilhavam ao sol.
Nem preciso dizer que Marina desmaiou. Ao acordar e não ver ninguém em volta, pensou ter sido tudo um sonho, causado pelo excesso de maria mole que havia comido antes de sair de casa. Mas mais uma vez assustou-se ao ver Rafael ali, parado atrás da lápide onde dormia.
Você é bastante pesada hein. Já pensou em fazer um regime? Minha mãe me falou uma vez que gente que come muito engorda tanto que um dia explode. Você sabia disso? Depois que ela me disse, eu nunca mais comi mais do que 5 pães no café da manhã. Acho que 5 está de bom tamanho, não? Bom, sou um menino bastante atlético, então acho que posso sim. E você? Gosta de pão?
Marina não conseguia respirar, e sua única reação foi dizer “mas você está morto!”, no que Rafael respondeu “Eu sei, mas isso foi há muito tempo atrás. Porque pensar no passado, não é mesmo, se temos o futuro inteiro pela frente?
A menina sentiu que algo muito diferente estava para acontecer. Não sabia bem o que, mas sentia que sua vida nunca mais seria a mesma. Estava feito: Marina havia conhecido um menino morto. Será mesmo que todo mundo estava certo quando lhe dizia que com gente morta não se brinca?
[continua]

2 comentários:
Parece que esta sendo criado um excelente treiler de terror,...inté!
Adoro essa inocencia infantil que você consegue colocar em seus personagens criança.
mas por enquanto to gostando do Rafael, me parece um "happy Phanton"
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