O estrago

>> sexta-feira, 9 de julho de 2010

Se conheceram numa manhã de natal. Ela perdida na rua, tentando encontrar a casa de um amigo, ele perdido na rua, tentando se encontrar. Encontraram-se. E deixaram pra lá amigos e encontros, e outras coisas mais. Sentaram-se num bar qualquer e pediram uma cerveja. De que importava que não passavam das 10h? Ninguém tem nada a ver com isso afinal.

Beberam uma, duas, três. Ele brincou com o chapéu que ela usava, enquanto ela ria sem controle, jogando um pouco o corpo pra trás, num gesto que era só dela. Lá pelo meio dia resolveram emendar aquele estranho café da manhã com um almoço. Pediram ali mesmo um PF, e deliciaram-se com o banquete de arroz, feijão, farinha e rabada. Estava mesmo uma delícia, diziam um para o outro, enquanto riam e bebiam mais cerveja.

As 3 da tarde já não lembravam mais que dia era, nem o que estavam indo fazer. Ele a levou a um hotel barato, e fizeram amor como nunca haviam antes feito. As 6 dormiam, quando ele acordou. Não lembrava o que tinha feito até ali, nem quem era aquela moça a seu lado. Tinha um problema de perda de memória recente, e cada vez que dormia esquecia-se o que havia acontecido nas horas anteriores. Lembrava vagamente quem era, mas só até uma certa época da vida. O suficiente para um dia ter saído de casa para comprar pão e nunca mais ter voltado. Sem alarde, vestiu-se, deixou um dinheiro na mesinha de cabeceira e saiu. Não sabia pra onde ia, mas como explicar a tão bela moça que não fazia ideia de quem ela era? Não explicou, apenas foi embora. Ao parar no corredor sentiu uma ponta de remorso, e voltou para deixar um bilhete.

“Bela estranha, tão bela, que amo tanto. Tanto que partirei. Até qualquer dia, quem sabe, até nunca mais”. As 21h ela acordou. O papel repousava na mesinha ao lado de uma nota de 50. Leu. Chorou. “Até nunca mais, estranho”, pensou, enquanto se vestia. Estava mesmo acostumada a ser deixada pra trás, e sua vida até ali não havia sido nenhum mar de rosas. Entregava-se a qualquer braço, aninhava-se em qualquer abraço, mas nenhum de seus casos havia sido tão intenso quanto aquelas poucas horas com este desconhecido. Não fazia ideia de qual era seu nome, onde procurar, o que fazer. Resolveu aceitar os fatos e ir embora. Pagou a conta, derramou algumas poucas lágrimas e foi consolada pela moça da recepção. “Homens são assim mesmo”, ela disse, enquanto colocava a mão em seu ombro e lhe dava um sorrisinho que faziam saltar os pés de galinha por baixo da maquiagem carregada.

Nove meses depois, o mal estava feito. Nascia a menina, tão linda, tão parecida com a mãe. Tinha do pai alguma coisa, mas a mãe depois de tanto tempo já não sabia dizer o que. Cresceu bonita, mas tinha um olhar meio triste. Um olhar que denunciava alguma coisa perdida no tempo, no espaço. Um olhar que denunciava uma tragédia, mas ninguém nunca soube explicar. “Coisa de filho de mãe solteira”, dizia a avó, levando a pequena menina as lagrimas, e fazendo a mãe chiar de ódio.

Dezoito anos haviam se passado. A mulher era agora um resto da moça bonita que havia sido. A filha tinha herdado toda a sua beleza, e a cada ano se tornava mais linda. Arrisco até que era ainda mais bonita do que a mãe havia sido, mais vistosa, mais brilhante. Passeava um dia pelas ruas da cidade, quando um homem lhe sorriu. “Você me lembra alguém, mas não sei dizer quem”, ele disse, deixando a moça morta de medo. Alguma coisa a fazia sentir conforto ao olhar aquele desconhecido, e cedeu facilmente aos seus encantos. Não sabia muito bem aonde estava indo, mas foi. Estava consumada a tragédia. Estava feito o estrago. Ninguém nunca saberia, mas e daí? O que os olhos não veem e a mente não sabe, o coração não sente.

2 comentários:

MiniRê 9/7/10 19:13  

Puuuuuuuuuuuutttzzzz!!! Matay & murry!

Cara... adorei!
Não sei porque vejo varias pessoas que poderiam estar nessa mesma situação por muito menos... ou muito mais..

Cara.. linda tragedia!

Luke 9/7/10 19:30  

Bela fábula. Triste, honesta e possível. Medo.

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