O Eterno Retorno (ou Porque Loucura é louca)

>> quinta-feira, 1 de julho de 2010

Olhava o teto querendo céu, mas quando tinha céu, só pensava em teto. Saía na rua olhando nervosa pros lados, espreitando, encostando nas paredes. Andava sempre pelo canto, parando de vez em quando para olhar pra trás. Não era perseguida por ninguém, mas as pessoas ao redor sempre tinham a impressão de que estava fugindo.

Tinha um olho de cada cor. As meninas da escola a chamavam carinhosamente de Bowie, e ela achava graça, mesmo sabendo que davam risinhos pelos cantos ao citar seu nome. Aliás, ria de tudo. Ria até de desgraça, como diziam as professoras, que vez em quando ficavam nervosas com tanto bom humor. É que a quantidade de risadas na realidade beiravam o desespero. Era angustiante ouvi-la rir. Os cabelos eram curtos e pintados de vermelho. Por vezes mudava e aparecia com eles verdes. As vezes azuis, cor de rosa, púrpura e num belo dia de verão apareceu com os cabelos pretos. Todos estranharam, mas concordaram que seria melhor se resolvesse continuar assim.

As paredes do quarto eram tão altas, o teto estava sempre tão lá em cima. Pediu pro pai pintar de azul, desenhar umas nuvens, e num canto estrelas. Tinha então um céu particular, e depois de algum tempo resolveu que não precisava mais sair de casa. Nunca gostou mesmo das ruas, nem das pessoas, nem dos prédios e árvores massacradas em canteiros minúsculos. Achava que árvores eram seres revoltos e impulsivos, que precisavam de espaço para que suas raízes crescessem livres. Assim sendo, vê-las cobertas pelo pavimento cinza e áspero a fazia quase chorar de raiva. Porque era raiva o que sentia quanto a isso, e não tristeza. E raiva é coisa com a qual não se brinca.

Um dia tirou 10 em redação. A professora havia gostado muito da história que escrevera sobre um menino que vivia dentro de um porta jóias. Teve vontade de picar o papel em pedacinhos. Como podia? Havia escrito a história mais idiota que sua cabeça conseguiu pensar, queria sair mais cedo e voltar logo pro quarto, e agora era a gênia literária da sala de aula. Nunca mais escreveu uma história. Assim como nunca mais tinha jogado xadrez, nem dançado balé, nem cuspido a distância, nem desenhado. Odiava com todas as suas forças sentir o peso da expectativa alheia sobre si. Preferia muito mais que não tivessem esperança alguma quanto ao seu futuro, mas já que gostavam tanto de ter, escolheu a que lhe parecia menos incômoda: Deixou que todos esperassem que não fosse ser ninguém.

Nas prateleiras moravam livros com os quais tinha infindáveis conversas. Falavam sobre quase qualquer assunto. Ela só não aceitava falar sobre si mesma. Um dia pediu pra mãe levá-los todos embora. Já havia falado demais com eles, mereciam alguém novo pra conversar. Pensou em repor aos poucos, mas a visão das prateleiras vazias lhe era muito agradável. Passava horas olhando a madeira, acompanhando os veios, distraída que só ela. Até que teve uma crise, e com a ajuda de tudo que viu pelo caminho, as destruiu. Ninguém entendeu, mas nesse ponto talvez você entenda o que ela percebeu. Se não, sinto muito por você. Eu entendi desde o princípio.

Um dia acordou e olhou-se no espelho. Seu olho verde estava mais verde, e o azul mais azul. Seu cabelo vermelho estava ainda mais vivo com a luz do sol que entrava pela janela do banheiro. Faziam agora 10 anos que não saía do quarto. A mãe havia suicidado, o pai foi viver com outra mulher. A casa fedia a carne podre e os ratos alojaram-se no colchão da cama que um dia fora dos pais. Olhou-se no espelho. Olhou-se no espelho. Olhou-se no espelho. Estava mais branca do que nunca, as veias pareciam pinturas feitas com delicadeza por debaixo da pele frágil. Olhou-se no espelho. Era tão jovem ainda, menos de 30. Abriu o armário. Pela primeira vez em anos vestiu algo que não a camisola.

As pessoas achavam que estava sendo perseguida, mas não. Perseguia-se. Todos os medos e remorsos e lembranças perseguiam-na. Tinha um olho de cada cor e a chamavam Bowie. Tinha cabelos coloridos e amava árvores e nunca mais dançou balé. As pessoas olhavam assustadas, mas ela não as enxergava. Um dia destruiu prateleiras, entende agora por que? Parou. Olhou pro céu. O céu estava lá. Todo mundo estava lá. Era hora do recreio e eram 10 anos atrás. Era pra sempre esse eterno retorno e isso a deixava louca. Chamava-se Loucura de qualquer forma, então que diferença fazia?

3 comentários:

Luke 1/7/10 20:25  

Que texto. Que conto. Sei que ninguém gosta de comparações, mas me senti lendo um conto do Neal Gaiman.
Belíssimo texto, parabéns.

MiniRê 1/7/10 20:36  

Realmente, Danda!

Você consegiu! Juro que também vi muito Gaiman nisso aí!
Cara, excelente texto! Desde uma menina meio Delirio até um retrato de Desespero.

Engraçado é que falamos sobre isso hoje, né?

Nana 6/7/10 09:25  

Incrível!Me apaixonei por esse conto!
Esse sim é um conto digníssimo de divulgação!
Parabéns Danda.Lindo!

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