O Amargo

>> quinta-feira, 7 de abril de 2011

Ela tentou mostrar, ele nunca enxergou. Tirou o coração de lá de dentro na unha, jogou em cima da mesa e disse “toma, é teu”. Ele pegou e colocou no bolso, sem desgrudar os olhos da TV. Estava afinal jogando vídeo-game, não poderia lhe dar atenção naquele momento. Mas que menina mais desatenta ela era, pra pensar que num momento tão importante quanto a última fase do jogo ele desligaria os olhos da TV só pra olhar pra um coração bobo feito o dela.

Depois do coração foi o estômago, que doía tanto de ansiedade cada vez que ia vê-lo. Porque ela gostava, gostava muito. Então arrancou, também na unha, o estômago, colocou na cama, ao lado dele. Ele enfiou na mochila, embolado com algumas camisetas, sem tirar os olhos do notebook. Mas que menina má ela era, querendo que ele parasse por cinco minutos de falar com os amigos do fórum e desse atenção àquele ato de amor.

Passado algum tempo, foi a vez dos olhos. “Toma meu amor, que eu só olho pra você mesmo”. Mas ele olhava pra redes sociais, pra amigos virtuais, pra sites sobre cinema. Ora, mas é tão óbvio, não? Entretido com coisas tão boas e especiais, colocou os olhos dela no outro bolso, pois no primeiro já morava o coração.

Os ouvidos, ela quase deu os dois. Acabou dando um só, e se esforçava pra ouvir algumas das coisas que ele ouvia. E gostou de algumas, é bem verdade, por isso deu um deles para ele. O outro esperava ansioso que ele fizesse o mesmo, e que trocassem algumas informações, pra variar. Mas não. Ficou a menina sem coração, sem estômago, sem olhos e sem um dos ouvidos. Ele não reparou, estava ocupado demais, havia comprado um vídeo-game novo. Como um simples ouvido poderia competir com algo tão magnífico?

A verdade é que a menina deu tudo que tinha de mais precioso. Tudo que podia entregar, entregou. Mas por mais que fizesse, nada chegava aos pés de tanta tecnologia, tantas notícias a serem lidas, tantos assuntos a conhecer. E ele não sabia dividir o tempo, simplesmente não conseguia.

Eis que um dia a menina cansou. Pegou suas partes de volta e foi embora. Entristecida tentou novamente, mas suas partes desgastadas não agüentavam mais, e imploravam por recuperação. Passou-se tempo, não muito, e ele voltou. Voltou com coração, ouvido, estômago e olhos pra dar pra ela. A colocou numa posição injusta, deveras injusta. Jogou sobre a menina responsabilidades que não eram dela, sem lembrar que havia desprezado os mesmos presentes, vindos dela, havia pouco tempo. A menina tentou, tentou e tentou. Mas a verdade que é que já não amava mais, apesar de tentar se convencer. Ela não deu de volta nenhuma daquelas partes, que agora descansavam em vidrinhos de formol em cima da estante. Ele tentou, é bem verdade, mas não percebeu que depois de tanto sofrimento era inútil tentar entregar aquilo tudo, mesmo que algum dia ela tenha desejado muito ter tudo pra si.

Então um dia, cansada de tanto desamor e mágoa, a menina foi embora. Foi embora e não sentiu dor, nem arrependimento, não sofreu e não derramou uma lágrima. O que ele não compreendeu, e talvez nunca compreenda, é que todo o sofrimento que ela poderia ter tido no final foi sofrido ao longo do tempo em que estavam juntos. E ele nunca vai entender que essa menina deu tudo que pôde, até não ter mais nada e não ser capaz de entregar de volta o que havia dado e pego de volta.

Então a menina conheceu alguém. E ele fica lá, amargando, julgando, escrevendo coisas que não deveria e nem poderia, se fosse homem e tivesse caráter e o mínimo de consciência pra pensar em tudo que fez ela sofrer. O problema é que ele não pensa, definitivamente. Se pensasse, lá no início, a tanto tempo, teria dado valor aquela menina, que deu tudo que tinha, sem reservas, e que queria da vida apenas ser feliz e fazê-lo feliz.

Mas ele nunca enxergou, não enxerga e não enxergará. Ele só amarga, amarga e amarga.
Azar o dele. Sozinha ou não, a menina é feliz. Feliz pra sempre.

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