A turma

>> segunda-feira, 11 de julho de 2011

Mônica acordou de manhã, sem vontade de levantar da cama. O despertador insistia em tocar, e ela finalmente tomou coragem de se vestir e sair para trabalhar. O roteiro estava devidamente decorado, como estava nos últimos 40 ou 50 anos. Trabalhava no mesmo lugar, exercendo o mesmo papel desde que tinha por volta dos 6 ou 7 anos de idade, e a essa altura da vida não aguentava mais. Já não sabia quem era ela e quem era a personagem, sua vida sugada pela imagem que a mídia fazia, transformando cada dia em um martírio.

Sua juventude, assim como a de seus colegas de elenco, foi tomada por aquela história. Nos primeiros anos tudo parecia mágico, todos pensavem "enquanto nossos amigos estão sem fazer nada estamos aqui trabalhando e economizando para um futuro promissor". Eram tempos diferentes, eram mesmo anos dourados. Francisco e Rosa vieram depois, e foram bem recebidos pelo grupo, assim como Marina (apesar do jeito como ela agia, se achando uma estrela e esnobando as crianças que não estavam na mídia. A verdade é que, depois de tantos anos de profissão, eram todos amigos. A essa altura do campeonato, não podiam mesmo contar com ninguém que não eles mesmos.

Mônica olhou-se no espelho. Apesar da pouca estatura e dos traços infantis, o tempo começava a imprimir suas marcas. Nem a droga nem os esforços da equipe de maquiagem estavam sendo suficientes. O tempo estava vencendo, e isso começava a lhe dar um pouco de desespero. "O que vai ser de mim quando não houver mais jeito?", pensava, enquanto escovava os dentes. Mas ainda havia a droga. Toda a magia decadente poderia durar por mais alguns anos.

A droga, deixem-me falar dela. Foi descoberta em laboratório por volta de 1960, e fazia com que aquelas crianças nunca deixassem de ser isso, crianças. Ao menos fisicamente, e era isso que importava para os produtores. O tempo passava e eles não cresciam. As meninas não desenvolviam seios, continuavam pequenas. Os meninos continuaram com o rosto liso e a voz fina. Nos primeiros anos não se deram conta do mal, mas o tempo (sempre ele) fez com que começassem a se sentir presos. Presos num corpo que não era mais deles, num tempo que não mais existia. Depois veio a proibição "vocês não podem mais aparecer em público, não podem mais sair de casa senão para trabalhar", disse um dia Maurício, com o advogado do lado e mostrando o contrato. Maldito contrato. Suas vidas eram dele, não havia nada que pudesse ser feito. A quebra significava a sargeta e o ostracismo, e mesmo com todo o dinheiro que haviam ganho, nunca seriam capazes de bancar.

Mônica saiu de casa. Capa, óculos, cachecol. Tudo negro, discreto. Não podia ser vista. Chegou ao estúdio, cumprimentou os colegas que a esperavam. Estava atrasada, de novo. A terceira vez naquela semana. Maurício olhou torto, mas nada falou dessa vez. Ele sabia do cansaço, do estresse, estava começando a perceber que aquilo tudo não havia mesmo sido uma boa idéia. "Vamos para a sala de reuniões", ele disse, e todos os adultos em miniatura o seguiram. "Vocês não dão mais lucros como antigamente, terei que lançar uma nova história. Nesta nova fase vocês serão adolescentes. O público cresceu, precisa de coisas novas. Outros estúdios estão fazendo o mesmo". "Isso significa que vamos crescer?", Marina falou, não conseguindo esconder a empolgação. "Não, isso significa que contrataremos novos atores, pessoas bem semelhantes ao que vocês seriam se tivessem crescido. Eles vão assumir essa nova história". "Mas o que vai ser de nós", Mônica não conseguiu segurar a pergunta. "Vocês continuam na mesma, a mesma de sempre. Com menos frequência, com mais reedição de coisas antigas, mas na mesma".

Cebola saiu da sala contendo o choro. Mônica foi atrás. Sentaram-se no corredor. "Eu dei a minha vida por essa história, e o que eu sou agora? Não sou um homem, nunca vou ser. Vou ser sempre essa criatura estranha, presa no corpo de um garoto, obrigado a passar meus dias trocando o r pelo l, falando errado, sendo um paspalho. Eu não aguento mais Mônica, não aguento. Fico pensando em tudo que poderia ter feito, em tudo que nós todos poderíamos ter feito. E tudo isso para agora descobrir que ficaremos em segundo plano? As crianças não são mais as mesmas, e daqui a alguns anos isso tudo vai acabar. E o que nós vamos fazer? Se pararmos de tomar a droga agora, em uma semana seremos trapos humanos, seres subdesenvolvidos e velhos, e em menos de um mês estaremos mortos. Não tem solução, entende? Estamos presos, vamos ser crianças pra sempre". As lágrimas rolaram dos olhos de ambos, sem que houvesse chance para segurar. Maurício passou, fingindo não ver a situação. "Calma Cebola, calma", ela disse, o abraçando com força e chorando junto. "Se existe céu, e eu sei que existe, tem um lugar guardado lá pra nós". E assim se foi mais um dia. Nem tudo são flores no mundo dos personagens de histórias em quadrinhos.

3 comentários:

MiniRê 11/7/11 20:07  

Genial! HAHAHA

É triste, mas não consegui não imaginar a monica e o cebolinha, com aquelas roupas de sempre, tendo esse papo adulto hahahahahaha

Mas eu sempre fico pensando nisso, sobre pessoas sendo privadas de suas vidas ou com suas vidas arruinadas, por causa de uma obrigação, um trabalho ou algo bizarro assim...

Fern. 11/7/11 21:50  

Surpeendente!

Tainã Almeida 9/1/12 17:11  

Os adultos vivem dizendo que a adolescência é um dos perídos mais
marcantes da vida. Mais o que o adolescente pensa disso? (sinopse do meu blog)
Acessa o meu blog?
"Blog de uma adolescente"

http://blogdeumagarotaadolescente.blogspot.com/

Espero a sua visita, se gostar do meu blog, segue lá, ficarei muito feliz.
Desde já obrigada, tenha uma ótima semana.
Atenciosamente Tainã Almeida.

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