quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

João - A Morte pt I

João não esboçara nenhuma reação à notícia que acabara de receber. Mário ficou perplexo diante da reação de seu primo ao receber a notícia, ou melhor, a ausência dela. - Sua mãe faleceu, disse Mário, mas a reação de João foi como se alguém lhe tivesse dito - hoje vai chover -, quando o clima não faz a menor diferença. João não era dado à filosofia, tudo na vida de João era prático, se sua mãe morreu, que possa ter ido para o céu. Para os vivos a vida continua.

João aperta a mão de Mário, olha para o primo como a dizer que entendeu a mensagem, pega o papel do hospital que Mário trouxe para ele e fecha a porta, afinal ele precisa passar no escritório e depois começar a preparar toda a papelada. - Ao diabo com essa coisa de morte! Diz para si mesmo. João sabe que não tem o que lamentar nem o que sentir falta, afinal a mãe dele não foi melhor nem pior que qualquer outra mãe, e isso também não fazia mais diferença. - João, coma logo essa comida enquanto está quente! Era a lembrança que ele tinha da mãe nesse momento, enquanto pegava sua mochila e se dirigia para a rua. Nada de excesso de zelo, super proteção ou coisa do gênero, a única preocupação de sua mãe era que ele não esperasse a comida esfriar para comer, pois seria um desperdício de todo o seu trabalho de cozinhar. Prático assim. João só pensa no café forte que o espera no escritório, a única coisa que ainda faz com que o seu trabalho não valha menos que um rato morto em decomposição depois da chuva. Era exatamente assim que ele imaginava o escritório: uma coisa morta enquanto ele e os outros se contorciam como vermes á procura do seu naco de carne podre. Ele não tinha nenhuma ideologia ou filosofia partidária, o fato dele não gostar do sistema vigente não significava que ele acreditasse em um sistema melhor. - São as pessoas - ele costumava dizer - que estragam tudo. João queria lembrar mais da sua mãe, ele chega mesmo a sentir um início de culpa, pela distância que ele tomou dela, mas João sabia que tinha feito o que era certo. Ele cuidou dela, se não com carinho pelo menos com responsabilidade, até onde era possível cuidar de alguém, e quando a doença tomou conta ele fez a coisa mais coerente a se fazer, entregando a mãe aos cuidados médicos. - Me deixe morrer em casa, me conceda ao menos esse último ato de dignidade, não me deixe morrer numa cama de hospital enquanto estranhos invadem minha intimidade, me metem numa fralda e me deixam morrer toda cagada e sendo observada por eles com o mesmo zelo dos urubus! Mamãe nunca tornava as coisas mais fáceis.
Depois de uma viagem de trem e uma de metrô – de cascadura até a central e da central até o largo da carioca – João pára em frente ao prédio de número 50. Ele olha para o topo do prédio, até o 17º andar, e depois se dirige até a entrada. Cumprimenta secamente o porteiro e o segurança, sem levantar a cabeça. Quando entra no elevador João pensa se está parecendo triste o suficiente, triste como quem acaba de perder a mãe, e fica realmente preocupado, afinal ele terá de falar com o Chefe. Ter de falar com o chefe sempre o deixava nervoso. Para ele os chefes não eram pessoas com quem pessoas como ele deveria falar. Chefes existem para dar ordens, pagar os salários, tentar não falir as empresas e serem desagradáveis como só os chefes podem ser. Chegando ao escritório ele tenta parecer abatido, ele quer evitar as pessoas para que as coisas sejam mais fáceis, não que ele realmente precise, afinal a essa hora provavelmente todos já sabem do acontecido, mas João teme que as pessoas possam perceber que ele está bem. Na verdade a única coisa que o atormenta é o desconforto de ter de comparecer ao velório e ter que aguardar pacientemente o cumprimento dos parentes. João se dirige até a máquina de café e se recompensa com uma dose tripla, e então vai até a sala do chefe e bate na porta.
- Entre.
- Chefe, é minha mãe, ela faleceu. João olha para baixo e tenta parecer o mais triste possível. O chefe o encara, então João tira um papel do bolso e o entrega ao chefe. – Aqui está a notificação do hospital. Ainda não pude pegar o atestado de óbito.
- Meus pêsames João. Quando será o enterro?
- Hoje à tarde, no jardim da saudade.
- Bom, João, vá e tire seus dias de folga. Despeça-se de sua mãe.
- Obrigado, diz João de maneira tímida e se vira em direção à porta.
- Ei, João, foi melhor assim. Ninguém merece sofrer em cima de uma cama de hospital, esperando a morte. João acena com a cabeça, seus lábios apertados, em sincera aprovação. João pensa que talvez tenha se enganado a respeito do chefe, mas como eles são sempre imprevisíveis ele prefere não pensar nisso. É claro que mãe é algo que todos respeitam, até mesmo os chefes.
Depois de falar com o pessoal da funerária e assinar todos os documentos João se prepara para ir ao cemitério velar o corpo e esperar os parentes. Ele sabe que a mãe não mantinha muitos contatos com estranhos, apenas uma ou duas amigas da igreja e os poucos parentes que ainda estavam vivos, como uma prima e a irmã dela, mãe de Mário. João não tem nenhum motivo para não gostar de nenhum deles, mas também não vê motivos para gostar. Ele nunca se deu bem com a tia, já que essa sempre desdenhou dele. – É por isso que o Mário vai ser alguém e você não! Era que o que a tia costumava dizer. Não que Mário tenha realmente se tornado alguém, pelo contrário, por ser um mulherengo tinha três filhos, cada um com uma mulher diferente, e todo o seu salário era para pagar pensão. Ainda assim ele detestava a maneira como a tia o olhava, como se ele fosse um alienígena, um bicho ou um aleijão. Ele sempre detestou a dinâmica de relacionamento entre familiares, alguns se viam, poucos se falavam, nenhum se ajudava, e para ele essa equação resumia tudo, ele realmente não via motivos para que fosse diferente disso. - É a natureza das coisas. Ele dizia. Chegando ao cemitério tudo o que João consegue pensar é que ele queria que estivesse chovendo ou nevando, pois o calor que fazia na cidade estava insuportável. Ele pensava que as convenções eram insuportáveis por isso, por abrirem mão da praticidade em nome das aparências. - Dane-se que é o enterro da minha mãe, eu não estaria mais ou menos triste se estivesse de bermuda! Ao invés disso, ele tinha que se contentar com o terno preto e com a gravata cinza.Ele vai direto para a cantina e compra 2 garrafinhas de água. Ele observa aquelas pessoas e percebe pela primeira vez que ele realmente não queria estar ali. Antes que ele pudesse pensar em mais alguma coisa ele vê chegar sua tia e algumas amigas da igreja. - Bom, agora não tem jeito, se tem que ser assim, que assim seja.

Um comentário:

Renata Salles disse...

Belo post de introdução, cara!

eu fiquei pensando sobre se realmente é melhor sentir demais ou se é melhor assim, ser completamente pratico e sem protocolos e formalidades.

E fiquei com o certo medo do João.