A turma

>> segunda-feira, 11 de julho de 2011

Mônica acordou de manhã, sem vontade de levantar da cama. O despertador insistia em tocar, e ela finalmente tomou coragem de se vestir e sair para trabalhar. O roteiro estava devidamente decorado, como estava nos últimos 40 ou 50 anos. Trabalhava no mesmo lugar, exercendo o mesmo papel desde que tinha por volta dos 6 ou 7 anos de idade, e a essa altura da vida não aguentava mais. Já não sabia quem era ela e quem era a personagem, sua vida sugada pela imagem que a mídia fazia, transformando cada dia em um martírio.

Sua juventude, assim como a de seus colegas de elenco, foi tomada por aquela história. Nos primeiros anos tudo parecia mágico, todos pensavem "enquanto nossos amigos estão sem fazer nada estamos aqui trabalhando e economizando para um futuro promissor". Eram tempos diferentes, eram mesmo anos dourados. Francisco e Rosa vieram depois, e foram bem recebidos pelo grupo, assim como Marina (apesar do jeito como ela agia, se achando uma estrela e esnobando as crianças que não estavam na mídia. A verdade é que, depois de tantos anos de profissão, eram todos amigos. A essa altura do campeonato, não podiam mesmo contar com ninguém que não eles mesmos.

Mônica olhou-se no espelho. Apesar da pouca estatura e dos traços infantis, o tempo começava a imprimir suas marcas. Nem a droga nem os esforços da equipe de maquiagem estavam sendo suficientes. O tempo estava vencendo, e isso começava a lhe dar um pouco de desespero. "O que vai ser de mim quando não houver mais jeito?", pensava, enquanto escovava os dentes. Mas ainda havia a droga. Toda a magia decadente poderia durar por mais alguns anos.

A droga, deixem-me falar dela. Foi descoberta em laboratório por volta de 1960, e fazia com que aquelas crianças nunca deixassem de ser isso, crianças. Ao menos fisicamente, e era isso que importava para os produtores. O tempo passava e eles não cresciam. As meninas não desenvolviam seios, continuavam pequenas. Os meninos continuaram com o rosto liso e a voz fina. Nos primeiros anos não se deram conta do mal, mas o tempo (sempre ele) fez com que começassem a se sentir presos. Presos num corpo que não era mais deles, num tempo que não mais existia. Depois veio a proibição "vocês não podem mais aparecer em público, não podem mais sair de casa senão para trabalhar", disse um dia Maurício, com o advogado do lado e mostrando o contrato. Maldito contrato. Suas vidas eram dele, não havia nada que pudesse ser feito. A quebra significava a sargeta e o ostracismo, e mesmo com todo o dinheiro que haviam ganho, nunca seriam capazes de bancar.

Mônica saiu de casa. Capa, óculos, cachecol. Tudo negro, discreto. Não podia ser vista. Chegou ao estúdio, cumprimentou os colegas que a esperavam. Estava atrasada, de novo. A terceira vez naquela semana. Maurício olhou torto, mas nada falou dessa vez. Ele sabia do cansaço, do estresse, estava começando a perceber que aquilo tudo não havia mesmo sido uma boa idéia. "Vamos para a sala de reuniões", ele disse, e todos os adultos em miniatura o seguiram. "Vocês não dão mais lucros como antigamente, terei que lançar uma nova história. Nesta nova fase vocês serão adolescentes. O público cresceu, precisa de coisas novas. Outros estúdios estão fazendo o mesmo". "Isso significa que vamos crescer?", Marina falou, não conseguindo esconder a empolgação. "Não, isso significa que contrataremos novos atores, pessoas bem semelhantes ao que vocês seriam se tivessem crescido. Eles vão assumir essa nova história". "Mas o que vai ser de nós", Mônica não conseguiu segurar a pergunta. "Vocês continuam na mesma, a mesma de sempre. Com menos frequência, com mais reedição de coisas antigas, mas na mesma".

Cebola saiu da sala contendo o choro. Mônica foi atrás. Sentaram-se no corredor. "Eu dei a minha vida por essa história, e o que eu sou agora? Não sou um homem, nunca vou ser. Vou ser sempre essa criatura estranha, presa no corpo de um garoto, obrigado a passar meus dias trocando o r pelo l, falando errado, sendo um paspalho. Eu não aguento mais Mônica, não aguento. Fico pensando em tudo que poderia ter feito, em tudo que nós todos poderíamos ter feito. E tudo isso para agora descobrir que ficaremos em segundo plano? As crianças não são mais as mesmas, e daqui a alguns anos isso tudo vai acabar. E o que nós vamos fazer? Se pararmos de tomar a droga agora, em uma semana seremos trapos humanos, seres subdesenvolvidos e velhos, e em menos de um mês estaremos mortos. Não tem solução, entende? Estamos presos, vamos ser crianças pra sempre". As lágrimas rolaram dos olhos de ambos, sem que houvesse chance para segurar. Maurício passou, fingindo não ver a situação. "Calma Cebola, calma", ela disse, o abraçando com força e chorando junto. "Se existe céu, e eu sei que existe, tem um lugar guardado lá pra nós". E assim se foi mais um dia. Nem tudo são flores no mundo dos personagens de histórias em quadrinhos.

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No inferno pelo céu das outras

>> domingo, 26 de junho de 2011

A profissão dela a definia melhor do que qualquer outra tentativa de descrição. O olhar era apático, quase tristonho, mas não tristonho, e sim, doloroso. Nada que Camila não poderia suportar. A propósito, esse era seu nome naquele momento, Camila. A identidade não fazia muita diferença saber.
Ela ia todo dia ao quartel general de sua equipe exibir seus hematomas, suas feridas e as gravações das humilhações que passava. Alguns diziam que ela não tinha alma, e que nenhuma outra pessoa conseguiria suportar o que ela suporta, principalmente porque ela jamais reagia, nem poderia, isso estava no contrato de trabalho.
Sua voz era meio rouca, devido a todos esses anos vivendo dessa mandeira, alguns dizem que sua voz sempre foi assim, e outros dizem que nunca a ouviram falar, outros ainda disseram que foi um acidente. Dizem que em um desses trabalhos ela quase morreu.
Ela voltou para casa e esperou ele chegar. Ele chegou enquanto ela lavava o chão, ele disse que estava estressado, ela não respondeu. Em alguns minutos, ele perguntou sobre o jantar, ela disse que ja ia esquentar, e a noite começou cedo, quando ela foi acertada pelo cabo de vassoura nas costelas, quase no mesmo lugar do dia anterior.
As violencias variavam entre verbais e sexuais, e ele a ameaçou com uma faca. Quando seu sofrimento chegou ao maximo, ele foi findado. Seu agressor estava preso, seria morto, mas o seu sofrimento, longe de acabar. Há quem diga que ela gosta de sofrer, sim ou não, suas ferias tinham acabado de começar. Sua recuperação seria lenta, mas a proxima missão ja estava marcada para daqui a uns meses, e seria menos um maniaco no mundo.

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O Amargo

>> quinta-feira, 7 de abril de 2011

Ela tentou mostrar, ele nunca enxergou. Tirou o coração de lá de dentro na unha, jogou em cima da mesa e disse “toma, é teu”. Ele pegou e colocou no bolso, sem desgrudar os olhos da TV. Estava afinal jogando vídeo-game, não poderia lhe dar atenção naquele momento. Mas que menina mais desatenta ela era, pra pensar que num momento tão importante quanto a última fase do jogo ele desligaria os olhos da TV só pra olhar pra um coração bobo feito o dela.

Depois do coração foi o estômago, que doía tanto de ansiedade cada vez que ia vê-lo. Porque ela gostava, gostava muito. Então arrancou, também na unha, o estômago, colocou na cama, ao lado dele. Ele enfiou na mochila, embolado com algumas camisetas, sem tirar os olhos do notebook. Mas que menina má ela era, querendo que ele parasse por cinco minutos de falar com os amigos do fórum e desse atenção àquele ato de amor.

Passado algum tempo, foi a vez dos olhos. “Toma meu amor, que eu só olho pra você mesmo”. Mas ele olhava pra redes sociais, pra amigos virtuais, pra sites sobre cinema. Ora, mas é tão óbvio, não? Entretido com coisas tão boas e especiais, colocou os olhos dela no outro bolso, pois no primeiro já morava o coração.

Os ouvidos, ela quase deu os dois. Acabou dando um só, e se esforçava pra ouvir algumas das coisas que ele ouvia. E gostou de algumas, é bem verdade, por isso deu um deles para ele. O outro esperava ansioso que ele fizesse o mesmo, e que trocassem algumas informações, pra variar. Mas não. Ficou a menina sem coração, sem estômago, sem olhos e sem um dos ouvidos. Ele não reparou, estava ocupado demais, havia comprado um vídeo-game novo. Como um simples ouvido poderia competir com algo tão magnífico?

A verdade é que a menina deu tudo que tinha de mais precioso. Tudo que podia entregar, entregou. Mas por mais que fizesse, nada chegava aos pés de tanta tecnologia, tantas notícias a serem lidas, tantos assuntos a conhecer. E ele não sabia dividir o tempo, simplesmente não conseguia.

Eis que um dia a menina cansou. Pegou suas partes de volta e foi embora. Entristecida tentou novamente, mas suas partes desgastadas não agüentavam mais, e imploravam por recuperação. Passou-se tempo, não muito, e ele voltou. Voltou com coração, ouvido, estômago e olhos pra dar pra ela. A colocou numa posição injusta, deveras injusta. Jogou sobre a menina responsabilidades que não eram dela, sem lembrar que havia desprezado os mesmos presentes, vindos dela, havia pouco tempo. A menina tentou, tentou e tentou. Mas a verdade que é que já não amava mais, apesar de tentar se convencer. Ela não deu de volta nenhuma daquelas partes, que agora descansavam em vidrinhos de formol em cima da estante. Ele tentou, é bem verdade, mas não percebeu que depois de tanto sofrimento era inútil tentar entregar aquilo tudo, mesmo que algum dia ela tenha desejado muito ter tudo pra si.

Então um dia, cansada de tanto desamor e mágoa, a menina foi embora. Foi embora e não sentiu dor, nem arrependimento, não sofreu e não derramou uma lágrima. O que ele não compreendeu, e talvez nunca compreenda, é que todo o sofrimento que ela poderia ter tido no final foi sofrido ao longo do tempo em que estavam juntos. E ele nunca vai entender que essa menina deu tudo que pôde, até não ter mais nada e não ser capaz de entregar de volta o que havia dado e pego de volta.

Então a menina conheceu alguém. E ele fica lá, amargando, julgando, escrevendo coisas que não deveria e nem poderia, se fosse homem e tivesse caráter e o mínimo de consciência pra pensar em tudo que fez ela sofrer. O problema é que ele não pensa, definitivamente. Se pensasse, lá no início, a tanto tempo, teria dado valor aquela menina, que deu tudo que tinha, sem reservas, e que queria da vida apenas ser feliz e fazê-lo feliz.

Mas ele nunca enxergou, não enxerga e não enxergará. Ele só amarga, amarga e amarga.
Azar o dele. Sozinha ou não, a menina é feliz. Feliz pra sempre.

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Auto-retrato

>> segunda-feira, 28 de março de 2011

Acho que esse é o meu momento, então vou falar de mim. Eu sou um loser. Sim, digo isso sem dramas e sem querer causar comoção em ninguém. É só um fato. Não estudei o necessário, não tenho uma carreira nem sequer razoável, não constituí família. Tive alguns relacionamentos, mas nenhum seguiu adiante.

Eu as amei, cada uma delas a seu tempo, mas não era pra ser. Durante muito tempo eu acreditei que a culpa era delas, me achava um incompreendido, sempre acreditei ser o otário passado pra trás da relação. Mas hoje, depois de tanto tempo eu descobri a verdade. O problema era eu. Não que eu não tenha tido acertos, tentei fazer minha parte, tentei mostrar o quanto as amava ainda que do meu jeito torto, mas não fiz o suficiente. Eu sei disso. Eu sei que elas me amaram, tenho certeza. Tem uma coisa sobre mim que eu descobri depois de muito tempo, e que pode ajudar a explicar a minha falha em manter relacionamentos de longa duração, tanto os amorosos quanto as amizades. Existe algo dentro de mim. Não necessariamente dentro de mim, mas da minha mente. É algo que só agora me dou conta que deve ter tido seu embrião por volta dos meus 15 anos. É algo escuro, frio e confuso. E conforme eu fui crescendo ela foi crescendo junto e foi tomando conta de mim, por isso eu sou escuro, frio e confuso. Eu deveria ter percebido isso há mais tempo. Lembro de uma conversa que eu tive com alguém, que talvez gostasse mesmo de mim e por isso tenha prestado atenção, em que eu disse: "estou triste", e ele respondeu: "você não está triste, você é triste. Intrinsecamente e profundamente triste". E eu disse: "não, não sou". Eu não me lembro quem era essa pessoa. Isso é triste. Eu fiz alguns bons amigos, mas nunca fui bom em mantê-los. Faz parte de se viver num mundo escuro, frio e confuso. Hoje eu tenho 40 anos. 40 anos de uma vida vazia, de uma vida vivida para dentro, no meu próprio mundo escuro, sentindo e sendo frio, totalmente confuso. Uma frase da Virginia Woolf define bem minha falha: "Eu perdi amigos, alguns com a morte, outros por simples incapacidade de atravessar a rua." Apesar de tudo alguns amigos e pessoas próximas perceberam alguns sinais. Nem todos percebem, eu mesmo não percebi. Eu queria muito sair desse ciclo de descer ladeira abaixo mesmo quando as coisas estão bem, mas conforme o tempo passou eu percebi que fui ficando cada vez mais confuso, ao invés de menos. Hoje só posso fazer o que fiz a vida inteira: lamentar e pedir desculpas. Não tenho muito mais a oferecer, já que tive uma vida de um loop de desculpas e lamentações. E é assim que eu encerro esse pequeno retrato de mim mesmo: me desculpando por tudo.
.....
A mãe acabara de ler a nota. Olha mais uma vez para o corpo do filho naquela mesa do IML. A nota fora encontrada na cena da morte, junto ao frasco de veneno. Ela não sabe definir o que sente, sua mente é um turbilhão: ela sente tristeza, dor, culpa, remorso, impotência. Mas não sente raiva. Ela guarda a nota no bolso enquanto os legistas empurram a mesa para dentro do freezer. Ela se dá conta que um pedaço de si mesma se foi. Ela diz baixinho: "eu te amo, filho. Me desculpe". E essa foi a última coisa que disse antes de mergulhar na escuridão.

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O baile de Marisa

>> domingo, 27 de março de 2011

Ela abriu um álbum de fotografias, sentada numa poltrona no canto da sala. A data não era atual. Trinta e cinco anos antes, dizia atrás da foto. Trintecinco. Seus cabelos ainda não eram grisalhos, a pele era ainda viçosa e o sorriso a tornava ainda mais esplendorosa. Esplendor: não havia mesmo palavra melhor para definir. Olhou com tristeza para cada foto, desejando com todas as suas forças que o tempo retornasse e que pudesse novamente sentir a excitação e alegria dos velhos bailes.

Levantou-se, acendeu um cigarro. O câncer no pulmão não a impedia de seguir fumando. Resolveu não se tratar, achou que seria demais perder os cabelos. Já não bastava que estivessem quase cem por cento brancos? Era mesmo necessário abrir mão da última parcela de dignidade que habitava seu corpo? Pode parecer superficial, quiçá fútil, mas era assim que pensava aquela mente, mente que um dia precisava pensar apenas em qual deles escolheria. Mas faziam anos que os rapazes não vinham. Fazia anos que não havia festas, nem vestidos, nem rapazes a bajulando.

A cada ano que passava, o apartamento parecia mais e mais enorme. A distância entre a sala e a cozinha parecia agora uma eternidade. No corredor, parou para olhar as fotografias na parede. Os filhos pequenos brincando na piscina, o marido, os amigos reunidos em outro país. “Foram mesmo anos dourados”, pensou, enquanto continuava seu caminho até a geladeira. Tirou a garrafa de champagne do congelador, abriu, serviu duas taças. Deixou- as em cima da pia e caminhou até o quarto. Estava chegando a hora, precisava se arrumar rapidamente.

Abriu o armário, tirou uma grande caixa dourada. O vestido de baile cheirava a naftalina, mas ela já não sentia. Vestiu. Olhou-se no espelho. Os sapatos de salto fino a fizeram quase cair no chão. Equilibrou-se e seguiu em frente. Os brincos não ornavam as orelhas como em outros tempos, mas quem ligava? As esmeraldas combinavam com a cor do vestido, com a cor de seus olhos, com o brilho que traziam. Maquiou-se com paciência, apesar de saber que deveria ser rápida. Voltou a cozinha, pegou as taças, foi caminhando lentamente de volta para a sala.

Ao chegar perto da porta, uma leve vertigem tomou conta de seu corpo. Seu estômago revirava. Fechou os olhos e fez esforço para não deixar as taças caírem no chão. Deu um paço firme, abriu-os novamente. O jovem mais galante da festa pegou uma das taças, deu-lhe o braço e lhe sorriu. Muitos cumprimentos, muitos apertos de mão, muitos sorrisos. Sua música favorita começou a tocar, e o jovem a tirou pra dançar. Lá pela metade da música, sussurrou em seu ouvido “Case-se comigo”. Sentiu seu coração parar, não sabia se ria ou se chorava. Acenou que sim com a cabeça, no que ele se ajoelhou e colocou um grande diamante no dedo da mão direita. Lágrimas involuntárias brotaram. Um senhor que estava próximo ofereceu um lenço. Todos batiam palmas, dando sorrisos e parabenizando o casal. Ele a segurou pela mão e a conduziu até a varanda. “Sabe que vou te amar pra sempre, não sabe?”. “Sei, eu sei, e eu também. Pra todo o sempre, mesmo distante, mesmo ausente. Eu vou te amar como a mim mesma, não por falta de amor próprio, mas por saber que você merece que eu lhe ame o mesmo tanto que me amo”. “Eu mereço? Não sei. Mas sei que você merece tudo isso e muito mais. Porque do momento em que lhe conheci, a vida inteira fez sentido. Um sentido que não fazia, ou que existia e eu não conseguia alcançar. Você colocou cores no meu mundo”. Ela sente alguma coisa prender sua cintura pra trás. Ele vai ficando longe, cada vez mais longe. As crianças dormem no banco de trás, o caminhão vem na outra direção a toda velocidade. Chove muito, muito, mais do que se pode aguentar na estrada. O caminhão desgoverna, saí da pista, vem pra cima do carro. Ela sente o mundo desabando, e quando abre os olhos novamente, está no corredor do hospital. “Eles...Eles estão bem, não estão? Onde está meu marido? Meus filhos, me tragam meus filhos. Fecha os olhos novamente, e ao abri-los está no quarto. A melhor amiga dorme na cadeira ao lado da cama. “Carmem. Carmem, onde eles estão?”. “Calma Marisa, calma, fica calma”. “Traga eles aqui, preciso falar com Bento. Preciso ver Maria, Marta e Joaquim. Chame meu marido e minhas crianças, por favor Carmem, sinto que não os vejo a dias”. Os olhos de Carmem cheios de lágrimas, Marisa sem entender nada. O médico entra no quarto. Ela fecha os olhos. Ao abri-los, está no velório. Marido e filhos, e somente ela viva. Porque? Daria qualquer coisa para trocar de lugar com eles. Daria mais que a vida, mais que a alma, mais que tudo.

Não compreende porque logo ela ficou viva. Fecha os olhos. Está em casa. O apartamento cresceu naquele dia. O quarto das crianças continua lá, assim como as roupas de Bento no armário. Não tem coragem de tirar, de mexer, de desarrumar. Contenta-se em limpar tudo, deixando impecável cada detalhe. Só não lava as roupas, não seria capaz. O cheiro com o tempo torna-se diferente, passado, enjoativo. Um cheiro embolorado, amarelado, cheiro de tempo. Fecha os olhos. Uma dose de whisky, duas, três. Chora até dormir. Trinta e cinco anos. Trintecinco. O tempo passou, mas a dor nunca foi embora. A cada ano o apartamento ia se tornando maior, grande demais para morar sozinho, pequeno demais para abrigar sua dor. Mas não conseguia se mudar. Como deixar pra trás a memória dos melhores anos da sua vida? Fechou os olhos. Estava novamente na sala, a pele gasta pelo tempo, os cabelos grisalhos e mal presos, o vestido de baile cheirando a naftalina, os sapatos incomodando os calcanhares. Chorou mais uma vez, como fazia a trinta e cinco anos naquela mesma data. Colocou a cabeça entre as mãos, e soluçou até perder a respiração. Alguma coisa tocou seu ombro, levantou a cabeça.

Bento estava ali, parado a sua frente, com a mesma expressão serena que sempre tivera. “Bento? É mesmo você, meu amor?”. “Ah, minha Marisa, porque fez isso com a tua vida?”. “Eu não podia meu querido, deixar vocês quatro para trás. Eu não podia. Mantive tudo aqui, como sempre foi. Talvez no fundo tivesse esperança de que um dia voltassem, não sei”. “Má, não era pra ser assim. Você precisava ter seguido em frente meu amor. Era o que eu precisava pra ficar em paz, eu precisava ver você feliz de novo”. “Eu não seria capaz de ser feliz de outro modo que não contigo, com nossos filhos, eu não podia”. “Se eu lhe desse agora a oportunidade de voltar no tempo e fazer algo diferente, o que seria, me diga minha Marisa, o que seria?”. “Eu teria te dito não naquele baile”. “E porque meu amor? Nossos anos juntos não valeram a pena?”. “Valeram. Valeram a minha vida. Mas eu preferia ver você feliz em outro lugar, com outra pessoa, se tivesse a certeza de que a tua felicidade duraria mais tempo”. “E você acha que eu seria feliz sem você por perto?”. “Éramos jovens Bento, muito jovens. O nosso amor ia sarar, mesmo doendo. Ia sarar e íamos seguir em frente como eu nunca pude. Porque uma vez experimentado um amor desse tamanho, não se consegue mais esquecer. E tudo em diante torna-se comparação, e toda a vida se torna a atividade eterna de tentar compensar, repetir, reviver o amor que foi”. “Meu bem, eu não entendo. Não entendo mesmo, e chego a sentir-me triste ao pensar que você abriria mão de mim. Mas bem, eis o motivo de minha visita tão tardia, e, aliás, me perdoe por isso: Fui enviado para lhe conceder um desejo, algo em sua vida que você queira fazer diferente. Pode escolher qualquer, qualquer coisa para mudar”. “Bento, meu Bento, meu amor, me mande para aquele baile. Me mande para aquele baile, por favor”.

As esmeraldas refletiam a luz amarelada que vinha do grande lustre. Dançava sua música favorita, quando o rapaz mais galante da festa sussurrou em seu ouvido “Case-se comigo”. “Não posso, me perdoe, mas não posso” ela respondeu, e saiu correndo da festa. Chorou por dias, noites e mais dias e mais noites. Um dia acordou e não lembrava mais de desejo, nem de motivo pra dizer não no baile, nem de nada. Foi procurar Bento, e descobriu que este estava noivo de Carmem, sua melhor amiga de infância. Chorou por mais dias e noites. Escreveu um livro, ganhou prêmios, nunca se casou, não teve filhos, conheceu o mundo, foi e voltou diversas vezes, morando por anos fora do país. Estava um dia no aeroporto, quando avistou ao longe um senhor, e achou ter visto algo de familiar em seu olhar. Cortou pessoas e correu o mais rápido que pôde, chegando até ele e tendo certeza: Era mesmo Bento, aquele menino meio bobo que ela havia dispensado num baile há tantos anos atrás. A exatamente trinta e cinco anos atrás. Trintecinco. “Bento?”. Os olhos do senhor se encheram de luz. “Marisa, é você mesma?”. Ela sorriu. Ele sorriu. “Onde está Carmem?” ela perguntou. “Carmem? Nossa, a Carminha! Não sei onde ela está, fazem muitos anos que não a vejo! Preciso lhe contar que fingi um noivado com Carmem apenas para lhe provocar ciúmes, veja você. Pouco tempo depois fui morar fora do país, e nunca mais tive notícias dela!”. “Achava que estavam casados, com filhos e tudo mais”. “Não, não com Carmem. Fui casado por uns poucos anos, a muitos anos atrás. Tive três filhos, depois me separei. Minha ex esposa é uma grande amiga, espanhola, meus filhos moram lá, acabei de voltar de uma visita”. “Três filhos? E como se chamam?”. “Maria, Marta e Joaquim. Você se casou? Teve filhos?”. Uma sensação estranha tomou conta de Marisa ao ouvir os nomes. “Não, nem me casei, nem tive filhos”. “Vou confessar que já sabia. Li todos os seus livros, acompanho tua carreira estes anos todos”. As bochechas de Marisa coraram, ela se sentiu novamente a menina tímida e sem jeito dos tempos de escola. “Quer tomar um café? Estou mesmo muito feliz em vê-lo novamente!”. “Claro que sim. Tenho esperado esse café a anos”.

Se dirigiram a cafeteria. Conversaram por toda a tarde, e no dia seguinte, e na semana seguinte e pelo resto da vida. Marisa e Bento se reconheceram, se amaram e foram felizes para sempre.

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Estou assistindo séries de TV demais

>> segunda-feira, 14 de março de 2011

- Mas nem vai ser difícil assim como você diz. Em uma semana você já vai ter me esquecido, já vai estar beijando outra, apaixonado, como se nada tivesse acontecido.

- Você sabe que não é assim que a vida funciona. Sabe que eu vou te amar pra sempre, eu já te disse isso uma porção de vezes, por que você nunca acredita em mim?

- Eu acredito em você, mas quando eu te conheci era exatamente essa situação. E tinha o que, uma semana ou duas que você tinha terminado tudo com ela?

- É, tinha uma semana. Mas é diferente. Eu passei 2 meses com ela só, daí você apareceu e eu não aguentei. Cê sabe que terminei com ela pra ficar contigo.

- Eu não sei de nada, você nunca me disse isso.
- Quando eu te vi chegando com teu vestido de florezinhas azuis, eu não consegui nem mais olhar pra cara dela. Cê tava tão linda naquele dia. Tinha alguma coisa diferente nos teus olhos, era um brilho que eu não vejo mais faz tempo. Eles não estavam azuis assim como hoje, acinzentados. Eram esverdeados e eu sonhei com eles por dias.

- Espera – Ela disse, abrindo o casaco – É desse vestido que você tá falando?

- Esse, esse mesmo. Você fica linda com esse vestido. As florezinhas combinam com a cor dos teus olhos. Cê sabe né, sabe o quanto é linda.

- Linda? Eu não sou linda, não passo nem perto de linda. Você sabe disso, já me viu de todas as formas, por todos os ângulos. Não tem lindeza nenhuma. Sou só uma garota esquisita que um dia saiu com o cara mais gato da festa. E que acaba de descobrir que ele na verdade terminou com a namorada por causa dela. E esse vestido aqui era da minha vó. Nenhuma menina fica linda usando o vestido da avó – Disse isso e riu, aquele sorriso tímido que ele conhecia tão bem.

- Sua vó devia ser muito gata – Ele sabia bem que ela odiava essa gíria. Mas nos últimos dois anos provoca-la era o que fazia de mais divertido. Olhar aqueles olhos inflamarem, ver ela gesticulando com mais vigor, todos esses detalhes eram parte desse amor.

- Gata? Você acabou de juntar avó e gata na mesma frase? É sério isso?

- Eu tava brincando, adoro te ver irritada.

- Sei bem disso. Percebi nas últimas semanas o quanto você adora.

- Laila, eu já disse pra você que não tem nada a ver, eu não fiz o que você acha que eu fiz. Eu te juro em nome de tudo que você quiser que eu jure.

- Você diz que não, mas eu não consigo confiar. Eu soube por fontes seguras de tudo que aconteceu.

- Fontes seguras? Você tá comigo a dois anos, alguém aparece e faz uma fofoca, daí você chama de fonte segura? Parece que você me conhece há dois dias!

- Fontes seguras sim. E não foi fofoca. Juro que não, eu não confiaria em ninguém se não fosse seguro.

- Aposto que foi a Mariana. Desde que essa menina entrou na tua vida você está completamente diferente. Coloco a mão no fogo se não foi ela quem te disse.

- Pois então se prepara pra ter umas queimaduras bem brabas, porque a Mari não teve nada, absolutamente nada a ver com isso. Foi o Lucas que me contou.
Lucas era o melhor amigo de Eduardo desde a infância. Não sabia de nada, e mesmo se soubesse, não contaria.

- Mas o Lucas é apaixonado por você, ele não conta como fonte segura.

- O Lucas é apaixonado por mim? Desde quando?

- Desde sempre uai. O Marcelo e o Vitor também, todos apaixonados por você.

- Meu Deus Eduardo, você tá viajando. É ácido isso?

- Eu não tô viajando coisa nenhuma, não é possível que você não saiba o efeito que tem sobre eles.

- O efeito de fazer eles rirem quando babo cachorro quente na camiseta? Ou de fazer eles rirem mais ainda quando dou risada cheia de salsa no dente? Eu não sei mesmo de onde você tira essas idéias. Acho que você me vê de um jeito infinitamente melhor do que eu realmente sou. Um jeito que te faz pensar essas coisas, não é possível.

- É você que não se enxerga como todo mundo te enxerga. Nem tua beleza, nem teu talento. Se lembra daquele concurso de redação? Você não queria participar, achava que não ia ganhar nada, eu insisti até onde pude, todo mundo insistiu.

- E eu ganhei o primeiro lugar. E a gente bebeu o dinheiro todo em cerveja. Aquilo foi legal demais. Mas eu só ganhei porque as outras eram péssimas mesmo.

- Você ganhou porque a tua era a melhor. É nisso que você precisa focar. Sério, eu não sei mais como fazer pra te convencer do teu potencial.

- Tem que me convencer de nada não. No momento você só tem que levantar daqui e ir embora, antes que eu perca a coragem e deixe isso tudo pra trás.

- Você me amaria a ponto de deixar tudo pra trás?

- Cê sabe que sim. Eu te amei no momento que te vi.

- Agora sou eu que digo que você nunca me disse isso.

- Claro que sim! Te disse naquele dia em Paquetá, lembra? Você tava de camisa listrada, com aquele seu chapéu, e eu te disse que te amei assim que te vi, mas não dei bola porque você tava com ela do lado.

- Eu não me lembro disso, não lembro mesmo. Que droga de memória.

- Cê não lembra porque tava de ressaca naquele dia. Eu te pedi pra não beber no dia anterior, mas você foi lá e tomou todas.

- Me perdoa por isso? E por toda e qualquer outra coisa que eu possa ter feito?

- Te perdoar agora não faria diferença. Se a gente continuasse junto, você faria tudo de novo. Quem bate esquece, quem apanha não.

- Que papinho mais ridículo esse. Isso é coisa de adolescente, e você sabe.

- Eu tenho 17 anos, e sendo assim, tenho também todo o direito do mundo de ter quantos papinhos de adolescente eu quiser.

- Deus, as vezes eu esqueço que você é tão nova. Sempre tão madura, tão consciente, eu olho pra você e esqueço mesmo da tua idade.

- Sei disso. Todo mundo esquece. E me massacra como se eu devesse ser adulta pra suportar.

- Adulta você é, cê sabe que é.

- Não, eu não sou. Eu quero poder errar, fazer besteira e não me preocupar. Quero pai e mãe pra passarem a mão na cabeça, e quero uma cama quente me esperando em casa. Só que eu não tenho, e isso também pesa. Você tem 25 anos e tem tudo isso. Deve ser por isso que não cresce.

- Não cresço? Como assim eu não cresço? Desculpa se eu tenho uma vida boa.

- É, você tem.

- Me diz, o que foi que o Lucas te contou?

- Ele me disse que viu você entrando e saindo de lá.

- Eu deixei ela viva, juro. Eu não seria capaz de acabar com a vida da tua irmã.

- Com a morte da minha irmã, né?

- Você entendeu, eu não seria capaz. Sei que em algum lugar dentro daquilo existe ainda a menina que ela era. Sei que você se preocupa, e sei que ela não mata ninguém há anos. Que motivos eu teria pra acabar com ela? Se o Lucas me viu, eu não duvido nada que tenha sido ele o responsável, e que agora esteja tentando separar nós dois, usando isso como motivo.

- Cê tá tão desesperado que tá culpando teu amigo de infância.

- Lógico que eu tô desesperado, como poderia não estar? Eu não tô acusando ele, estou levantando a possibilidade. Você sabe que temos sempre que pensar em todas elas. É o que a gente faz.

- Se eu acreditar em você, como vou saber que está sendo sincero?

- Eu quero passar a eternidade com você. Quero passar todos, todos os meus dias. Eu quero que a gente envelheça junto.

- Eu não vou envelhecer, e nem você, se passar a eternidade comigo.

- Você entendeu o que eu quis dizer.

- Não, eu não entendo. O que te leva a acreditar ter um amor tão forte por mim?

- Eu simplesmente tenho. Como eu te disse, desde que te vi. Eu só preciso que você acredite em mim. Eu não acabei com a sua irmã.

- Eu acredito em você. Desde o início. Eu não consegui acreditar em uma palavra do que o Lucas disse. Eu só precisava ter certeza.

- Então você acredita? Acredita que quero passar a eternidade contigo?

- Claro que eu acredito. Nunca deixei de acreditar.

- Eu te amo mais que tudo. Muito, mesmo, mais do que eu poderia aguentar.

Eduardo e Laila se abraçaram apaixonadamente. Antes que Laila pudesse reagir, ele sacou uma faca de dentro do casaco e arrancou sua cabeça fora. Banhado em sangue, tirou o telefone do bolso, ligou.

- Lucas? Sou eu, Eduardo. Acabei com ela já, agora só falta a avó. Claro que a velha vai acreditar também que foi você. Termino com ela ainda hoje. Ok então, de noite a gente se vê, abraço!

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Mulher Atômica - 01 - Não era pra ser

>> quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Essa história começa assim, como uma beringela mal cozida. Por mais gostosa que seja, parecerá um chiclete quando você a colocar na boca, evoluirá para uma espécie de borraxa que não dissolve, semelhante a um chiclete, mas que não é doce e por fim, não será tão ruim porque existem outras beringelas bem mais cozidas do que essa no prato e você está com fome. E como essa bendita beringela, nossa nova heroína não é assim tão fácil de tragar.
Dos velhos clichês aparecem os mais absurdos e barrocos heróis, mas não com a Mulher Atômica, ela não gosta de roupas fluorescentes. No momento ela nem sabe o que é, mas jura que não vem do mesmo lugar que as pessoas a sua volta, normalmente é mal compreendida e reciprocamente mal compreende o resto. Alguns dizem que pode ser dislexia, também não tiro essa possibilidade.
Sua infância não passou em branco, mas ela não lembra bem como foi, ou não gosta muito de lembrar, mas pode-se dizer que foi daquelas bem normais, com direito a bullying tanto sofrido quanto provocado na escola e traumas de infância como todos temos. Ela era uma pessoa calma até chegar a adolescencia, quando as pressões da vida começaram a atormentar sua mente. Com 17 anos, se tornou uma espécie de office girl em uma empresa dessas cheias de repartições, no centro.
Uma semana de trabalho e, o emprego, ja estava se tornando insuportável, porque a Margarete da contabilidade, oitavo andar, odiava o João do almoxarifado, terceiro andar, e mandava a pobre entregar seus recados e documentos toda hora, sendo que no terceiro andar o elevador não para, e no quarto e quinto andares, a escada está sempre fechada. A maratona estava tonificando o corpo de nossa querida Mulher Atômica, cujo o nome é quase insignificante, mas bem chamado, Daniella.
Em um belo dia, chamado sexta-feira, cujo tinha sido bem estressante, depois de 6 meses trabalhando naquele lugar, Daniella, que odiava ser chamada de "Daniele" estava a um ponto de explodir! Ela sentia isso. Alguns chamariam de TPM, outros de uma explosão de verdade. Na saída do trabalho Daniella foi abordada por alguns sujeitos que mexeram no seu cabelo, e roubaram sua bolsa. Em um epico momento, tudo que ela conseguiu fazer foi desmaiar.
Três dias depois, no hospital, sem roupa, documentos ou arranhões, ela acorda, calma e feliz, sem ter ideia de que na verdade tinha explodido e matado 10 pessoas, inclusive os ladrões, mas que para os médicos e outras pessoas ela foi um milagre na explosão de um bueiro, sua morte simplesmente não era pra ser ali...

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