Ela abriu um álbum de fotografias, sentada numa poltrona no canto da sala. A data não era atual. Trinta e cinco anos antes, dizia atrás da foto. Trintecinco. Seus cabelos ainda não eram grisalhos, a pele era ainda viçosa e o sorriso a tornava ainda mais esplendorosa. Esplendor: não havia mesmo palavra melhor para definir. Olhou com tristeza para cada foto, desejando com todas as suas forças que o tempo retornasse e que pudesse novamente sentir a excitação e alegria dos velhos bailes.
Levantou-se, acendeu um cigarro. O câncer no pulmão não a impedia de seguir fumando. Resolveu não se tratar, achou que seria demais perder os cabelos. Já não bastava que estivessem quase cem por cento brancos? Era mesmo necessário abrir mão da última parcela de dignidade que habitava seu corpo? Pode parecer superficial, quiçá fútil, mas era assim que pensava aquela mente, mente que um dia precisava pensar apenas em qual deles escolheria. Mas faziam anos que os rapazes não vinham. Fazia anos que não havia festas, nem vestidos, nem rapazes a bajulando.
A cada ano que passava, o apartamento parecia mais e mais enorme. A distância entre a sala e a cozinha parecia agora uma eternidade. No corredor, parou para olhar as fotografias na parede. Os filhos pequenos brincando na piscina, o marido, os amigos reunidos em outro país. “Foram mesmo anos dourados”, pensou, enquanto continuava seu caminho até a geladeira. Tirou a garrafa de champagne do congelador, abriu, serviu duas taças. Deixou- as em cima da pia e caminhou até o quarto. Estava chegando a hora, precisava se arrumar rapidamente.
Abriu o armário, tirou uma grande caixa dourada. O vestido de baile cheirava a naftalina, mas ela já não sentia. Vestiu. Olhou-se no espelho. Os sapatos de salto fino a fizeram quase cair no chão. Equilibrou-se e seguiu em frente. Os brincos não ornavam as orelhas como em outros tempos, mas quem ligava? As esmeraldas combinavam com a cor do vestido, com a cor de seus olhos, com o brilho que traziam. Maquiou-se com paciência, apesar de saber que deveria ser rápida. Voltou a cozinha, pegou as taças, foi caminhando lentamente de volta para a sala.
Ao chegar perto da porta, uma leve vertigem tomou conta de seu corpo. Seu estômago revirava. Fechou os olhos e fez esforço para não deixar as taças caírem no chão. Deu um paço firme, abriu-os novamente. O jovem mais galante da festa pegou uma das taças, deu-lhe o braço e lhe sorriu. Muitos cumprimentos, muitos apertos de mão, muitos sorrisos. Sua música favorita começou a tocar, e o jovem a tirou pra dançar. Lá pela metade da música, sussurrou em seu ouvido “Case-se comigo”. Sentiu seu coração parar, não sabia se ria ou se chorava. Acenou que sim com a cabeça, no que ele se ajoelhou e colocou um grande diamante no dedo da mão direita. Lágrimas involuntárias brotaram. Um senhor que estava próximo ofereceu um lenço. Todos batiam palmas, dando sorrisos e parabenizando o casal. Ele a segurou pela mão e a conduziu até a varanda. “Sabe que vou te amar pra sempre, não sabe?”. “Sei, eu sei, e eu também. Pra todo o sempre, mesmo distante, mesmo ausente. Eu vou te amar como a mim mesma, não por falta de amor próprio, mas por saber que você merece que eu lhe ame o mesmo tanto que me amo”. “Eu mereço? Não sei. Mas sei que você merece tudo isso e muito mais. Porque do momento em que lhe conheci, a vida inteira fez sentido. Um sentido que não fazia, ou que existia e eu não conseguia alcançar. Você colocou cores no meu mundo”. Ela sente alguma coisa prender sua cintura pra trás. Ele vai ficando longe, cada vez mais longe. As crianças dormem no banco de trás, o caminhão vem na outra direção a toda velocidade. Chove muito, muito, mais do que se pode aguentar na estrada. O caminhão desgoverna, saí da pista, vem pra cima do carro. Ela sente o mundo desabando, e quando abre os olhos novamente, está no corredor do hospital. “Eles...Eles estão bem, não estão? Onde está meu marido? Meus filhos, me tragam meus filhos. Fecha os olhos novamente, e ao abri-los está no quarto. A melhor amiga dorme na cadeira ao lado da cama. “Carmem. Carmem, onde eles estão?”. “Calma Marisa, calma, fica calma”. “Traga eles aqui, preciso falar com Bento. Preciso ver Maria, Marta e Joaquim. Chame meu marido e minhas crianças, por favor Carmem, sinto que não os vejo a dias”. Os olhos de Carmem cheios de lágrimas, Marisa sem entender nada. O médico entra no quarto. Ela fecha os olhos. Ao abri-los, está no velório. Marido e filhos, e somente ela viva. Porque? Daria qualquer coisa para trocar de lugar com eles. Daria mais que a vida, mais que a alma, mais que tudo.
Não compreende porque logo ela ficou viva. Fecha os olhos. Está em casa. O apartamento cresceu naquele dia. O quarto das crianças continua lá, assim como as roupas de Bento no armário. Não tem coragem de tirar, de mexer, de desarrumar. Contenta-se em limpar tudo, deixando impecável cada detalhe. Só não lava as roupas, não seria capaz. O cheiro com o tempo torna-se diferente, passado, enjoativo. Um cheiro embolorado, amarelado, cheiro de tempo. Fecha os olhos. Uma dose de whisky, duas, três. Chora até dormir. Trinta e cinco anos. Trintecinco. O tempo passou, mas a dor nunca foi embora. A cada ano o apartamento ia se tornando maior, grande demais para morar sozinho, pequeno demais para abrigar sua dor. Mas não conseguia se mudar. Como deixar pra trás a memória dos melhores anos da sua vida? Fechou os olhos. Estava novamente na sala, a pele gasta pelo tempo, os cabelos grisalhos e mal presos, o vestido de baile cheirando a naftalina, os sapatos incomodando os calcanhares. Chorou mais uma vez, como fazia a trinta e cinco anos naquela mesma data. Colocou a cabeça entre as mãos, e soluçou até perder a respiração. Alguma coisa tocou seu ombro, levantou a cabeça.
Bento estava ali, parado a sua frente, com a mesma expressão serena que sempre tivera. “Bento? É mesmo você, meu amor?”. “Ah, minha Marisa, porque fez isso com a tua vida?”. “Eu não podia meu querido, deixar vocês quatro para trás. Eu não podia. Mantive tudo aqui, como sempre foi. Talvez no fundo tivesse esperança de que um dia voltassem, não sei”. “Má, não era pra ser assim. Você precisava ter seguido em frente meu amor. Era o que eu precisava pra ficar em paz, eu precisava ver você feliz de novo”. “Eu não seria capaz de ser feliz de outro modo que não contigo, com nossos filhos, eu não podia”. “Se eu lhe desse agora a oportunidade de voltar no tempo e fazer algo diferente, o que seria, me diga minha Marisa, o que seria?”. “Eu teria te dito não naquele baile”. “E porque meu amor? Nossos anos juntos não valeram a pena?”. “Valeram. Valeram a minha vida. Mas eu preferia ver você feliz em outro lugar, com outra pessoa, se tivesse a certeza de que a tua felicidade duraria mais tempo”. “E você acha que eu seria feliz sem você por perto?”. “Éramos jovens Bento, muito jovens. O nosso amor ia sarar, mesmo doendo. Ia sarar e íamos seguir em frente como eu nunca pude. Porque uma vez experimentado um amor desse tamanho, não se consegue mais esquecer. E tudo em diante torna-se comparação, e toda a vida se torna a atividade eterna de tentar compensar, repetir, reviver o amor que foi”. “Meu bem, eu não entendo. Não entendo mesmo, e chego a sentir-me triste ao pensar que você abriria mão de mim. Mas bem, eis o motivo de minha visita tão tardia, e, aliás, me perdoe por isso: Fui enviado para lhe conceder um desejo, algo em sua vida que você queira fazer diferente. Pode escolher qualquer, qualquer coisa para mudar”. “Bento, meu Bento, meu amor, me mande para aquele baile. Me mande para aquele baile, por favor”.
As esmeraldas refletiam a luz amarelada que vinha do grande lustre. Dançava sua música favorita, quando o rapaz mais galante da festa sussurrou em seu ouvido “Case-se comigo”. “Não posso, me perdoe, mas não posso” ela respondeu, e saiu correndo da festa. Chorou por dias, noites e mais dias e mais noites. Um dia acordou e não lembrava mais de desejo, nem de motivo pra dizer não no baile, nem de nada. Foi procurar Bento, e descobriu que este estava noivo de Carmem, sua melhor amiga de infância. Chorou por mais dias e noites. Escreveu um livro, ganhou prêmios, nunca se casou, não teve filhos, conheceu o mundo, foi e voltou diversas vezes, morando por anos fora do país. Estava um dia no aeroporto, quando avistou ao longe um senhor, e achou ter visto algo de familiar em seu olhar. Cortou pessoas e correu o mais rápido que pôde, chegando até ele e tendo certeza: Era mesmo Bento, aquele menino meio bobo que ela havia dispensado num baile há tantos anos atrás. A exatamente trinta e cinco anos atrás. Trintecinco. “Bento?”. Os olhos do senhor se encheram de luz. “Marisa, é você mesma?”. Ela sorriu. Ele sorriu. “Onde está Carmem?” ela perguntou. “Carmem? Nossa, a Carminha! Não sei onde ela está, fazem muitos anos que não a vejo! Preciso lhe contar que fingi um noivado com Carmem apenas para lhe provocar ciúmes, veja você. Pouco tempo depois fui morar fora do país, e nunca mais tive notícias dela!”. “Achava que estavam casados, com filhos e tudo mais”. “Não, não com Carmem. Fui casado por uns poucos anos, a muitos anos atrás. Tive três filhos, depois me separei. Minha ex esposa é uma grande amiga, espanhola, meus filhos moram lá, acabei de voltar de uma visita”. “Três filhos? E como se chamam?”. “Maria, Marta e Joaquim. Você se casou? Teve filhos?”. Uma sensação estranha tomou conta de Marisa ao ouvir os nomes. “Não, nem me casei, nem tive filhos”. “Vou confessar que já sabia. Li todos os seus livros, acompanho tua carreira estes anos todos”. As bochechas de Marisa coraram, ela se sentiu novamente a menina tímida e sem jeito dos tempos de escola. “Quer tomar um café? Estou mesmo muito feliz em vê-lo novamente!”. “Claro que sim. Tenho esperado esse café a anos”.
Se dirigiram a cafeteria. Conversaram por toda a tarde, e no dia seguinte, e na semana seguinte e pelo resto da vida. Marisa e Bento se reconheceram, se amaram e foram felizes para sempre.
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