Acordar

>> terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Eu com certeza estava sonhando. Ele estava lindo. Nós encaixávamos perfeitamente. Era notável para todos os presentes. Tanto eu, quanto ele e os objetos do banheiro sabíamos que aquilo era inegável.

A música suave se intensificou e nós estávamos cada vez mais apaixonados. Pulsávamos como estrelas, brilhávamos como explosões intergalaticas e nossos corpos pareciam buracos negros sugando uns aos outros. Nossas bocas eram o vácuo do universo tragando a nós mesmos como um aspirador. Meu coração realmente batia.

Mas aí eu acordei, 20 anos depois. Ele havia saído para trabalhar e eu estava gorda.

Read more...

O parto

>> segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Não atrapalhem-me, estou parindo. Estou pondo pra fora esse filho que há tanto carrego no ventre. Aliás, não. Esse eu carrego no pensamento, e não suporto mais o peso. Oh Zeus, entendo agora da dor que me falastes ao parir Atena. Entendo perfeitamente!

Não atrapalhem-me, estou parindo. Estou me livrando dessa criança feia e sem graça, essa criança que não quero e nunca quis. Depois que ela sair eu lhes darei, façam dela o que quiserem. Podem devorar a criança sem dó. Podem proferir as palavras que quiserem sobre ela, já não me importo. A criança quando sai não me pertence mais.

Não atrapalhem-me, peço encarecidamente! Já disse, estou parindo! E saem rios de sangue e lágrimas. As contrações vão se tornando cada vez menos espaçadas, e nesse momento quase desfaleço. Deixem-me aqui no meu canto enquanto grito, enquanto vejo tudo enturvecer e evanesço.

Não atrapalhem-se. Estou parindo? Pari. Saiu. Livrei-me. Jogo agora a criança aos leões. Façam dela o que bem entenderem, já disse.

Read more...

Um novo passo...

>> domingo, 7 de fevereiro de 2010

Nós 3 demos um passo a diante. Discutimos que de alguma forma queremos crescer e sermos mais lidos.

Para isso pensamos que talvez fosse bom usar uma rede de relacionamentos para aproximar novos escritores e pessoas interessadas na nova literatura e nas mentes pensantes e pouco exploradas por aí.

Como percebi que algumas comunidades do orkut, bons textos nem sempre são bem vindos, criamos uma que eles sempre serão bem vindos e bem comentados. Portanto: http://www.orkut.com.br/Main#Community?cmm=98415711

Sejam bem vindos a bordo.

Read more...

Glória


Acordava sem vontade e sem razão, e saía pra trabalhar. A vontade de viver também era ligeiramente escassa, mas quanto a isso ia levando. Sabia que sobrevivia, mas por não saber o que seria afinal viver, preferia não pensar muito nessas coisas. Às vezes achava que viver era ter muito dinheiro e fazer o que quisesse, na hora que quisesse. Às vezes achava que talvez vida fosse o que levava: o emprego mediano, o marido mediano, a família mediana e os almoços de domingo. Só se sentia feliz quando dançava, e era a única atividade da qual não abria mão. Nos sábados a noite era a rainha da gafieira, e não havia no mundo quem lhe tirasse esse título. Não que tenha sido algum dia realmente coroada rainha, mas era assim que ela se sentia: O sapato de salto e bico redondo arrastando-se macio pelo piso de madeira, os vestidos que ela mesma fazia, rodopiando pelo salão. O cabelo preso na lateral por uma flor de pano e os brincos que havia herdado da mãe. Usava na boca um batom carmim, um pouco de rouge nas bochechas e um sorriso de parar o trânsito. Era bonita, afinal. Mas muito mais nos sábados à noite. Era o seu momento de Glória.

Read more...

João - A Morte pt I

>> quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

João não esboçara nenhuma reação à notícia que acabara de receber. Mário ficou perplexo diante da reação de seu primo ao receber a notícia, ou melhor, a ausência dela. - Sua mãe faleceu, disse Mário, mas a reação de João foi como se alguém lhe tivesse dito - hoje vai chover -, quando o clima não faz a menor diferença. João não era dado à filosofia, tudo na vida de João era prático, se sua mãe morreu, que possa ter ido para o céu. Para os vivos a vida continua.

João aperta a mão de Mário, olha para o primo como a dizer que entendeu a mensagem, pega o papel do hospital que Mário trouxe para ele e fecha a porta, afinal ele precisa passar no escritório e depois começar a preparar toda a papelada. - Ao diabo com essa coisa de morte! Diz para si mesmo. João sabe que não tem o que lamentar nem o que sentir falta, afinal a mãe dele não foi melhor nem pior que qualquer outra mãe, e isso também não fazia mais diferença. - João, coma logo essa comida enquanto está quente! Era a lembrança que ele tinha da mãe nesse momento, enquanto pegava sua mochila e se dirigia para a rua. Nada de excesso de zelo, super proteção ou coisa do gênero, a única preocupação de sua mãe era que ele não esperasse a comida esfriar para comer, pois seria um desperdício de todo o seu trabalho de cozinhar. Prático assim. João só pensa no café forte que o espera no escritório, a única coisa que ainda faz com que o seu trabalho não valha menos que um rato morto em decomposição depois da chuva. Era exatamente assim que ele imaginava o escritório: uma coisa morta enquanto ele e os outros se contorciam como vermes á procura do seu naco de carne podre. Ele não tinha nenhuma ideologia ou filosofia partidária, o fato dele não gostar do sistema vigente não significava que ele acreditasse em um sistema melhor. - São as pessoas - ele costumava dizer - que estragam tudo. João queria lembrar mais da sua mãe, ele chega mesmo a sentir um início de culpa, pela distância que ele tomou dela, mas João sabia que tinha feito o que era certo. Ele cuidou dela, se não com carinho pelo menos com responsabilidade, até onde era possível cuidar de alguém, e quando a doença tomou conta ele fez a coisa mais coerente a se fazer, entregando a mãe aos cuidados médicos. - Me deixe morrer em casa, me conceda ao menos esse último ato de dignidade, não me deixe morrer numa cama de hospital enquanto estranhos invadem minha intimidade, me metem numa fralda e me deixam morrer toda cagada e sendo observada por eles com o mesmo zelo dos urubus! Mamãe nunca tornava as coisas mais fáceis.
Depois de uma viagem de trem e uma de metrô – de cascadura até a central e da central até o largo da carioca – João pára em frente ao prédio de número 50. Ele olha para o topo do prédio, até o 17º andar, e depois se dirige até a entrada. Cumprimenta secamente o porteiro e o segurança, sem levantar a cabeça. Quando entra no elevador João pensa se está parecendo triste o suficiente, triste como quem acaba de perder a mãe, e fica realmente preocupado, afinal ele terá de falar com o Chefe. Ter de falar com o chefe sempre o deixava nervoso. Para ele os chefes não eram pessoas com quem pessoas como ele deveria falar. Chefes existem para dar ordens, pagar os salários, tentar não falir as empresas e serem desagradáveis como só os chefes podem ser. Chegando ao escritório ele tenta parecer abatido, ele quer evitar as pessoas para que as coisas sejam mais fáceis, não que ele realmente precise, afinal a essa hora provavelmente todos já sabem do acontecido, mas João teme que as pessoas possam perceber que ele está bem. Na verdade a única coisa que o atormenta é o desconforto de ter de comparecer ao velório e ter que aguardar pacientemente o cumprimento dos parentes. João se dirige até a máquina de café e se recompensa com uma dose tripla, e então vai até a sala do chefe e bate na porta.
- Entre.
- Chefe, é minha mãe, ela faleceu. João olha para baixo e tenta parecer o mais triste possível. O chefe o encara, então João tira um papel do bolso e o entrega ao chefe. – Aqui está a notificação do hospital. Ainda não pude pegar o atestado de óbito.
- Meus pêsames João. Quando será o enterro?
- Hoje à tarde, no jardim da saudade.
- Bom, João, vá e tire seus dias de folga. Despeça-se de sua mãe.
- Obrigado, diz João de maneira tímida e se vira em direção à porta.
- Ei, João, foi melhor assim. Ninguém merece sofrer em cima de uma cama de hospital, esperando a morte. João acena com a cabeça, seus lábios apertados, em sincera aprovação. João pensa que talvez tenha se enganado a respeito do chefe, mas como eles são sempre imprevisíveis ele prefere não pensar nisso. É claro que mãe é algo que todos respeitam, até mesmo os chefes.
Depois de falar com o pessoal da funerária e assinar todos os documentos João se prepara para ir ao cemitério velar o corpo e esperar os parentes. Ele sabe que a mãe não mantinha muitos contatos com estranhos, apenas uma ou duas amigas da igreja e os poucos parentes que ainda estavam vivos, como uma prima e a irmã dela, mãe de Mário. João não tem nenhum motivo para não gostar de nenhum deles, mas também não vê motivos para gostar. Ele nunca se deu bem com a tia, já que essa sempre desdenhou dele. – É por isso que o Mário vai ser alguém e você não! Era que o que a tia costumava dizer. Não que Mário tenha realmente se tornado alguém, pelo contrário, por ser um mulherengo tinha três filhos, cada um com uma mulher diferente, e todo o seu salário era para pagar pensão. Ainda assim ele detestava a maneira como a tia o olhava, como se ele fosse um alienígena, um bicho ou um aleijão. Ele sempre detestou a dinâmica de relacionamento entre familiares, alguns se viam, poucos se falavam, nenhum se ajudava, e para ele essa equação resumia tudo, ele realmente não via motivos para que fosse diferente disso. - É a natureza das coisas. Ele dizia. Chegando ao cemitério tudo o que João consegue pensar é que ele queria que estivesse chovendo ou nevando, pois o calor que fazia na cidade estava insuportável. Ele pensava que as convenções eram insuportáveis por isso, por abrirem mão da praticidade em nome das aparências. - Dane-se que é o enterro da minha mãe, eu não estaria mais ou menos triste se estivesse de bermuda! Ao invés disso, ele tinha que se contentar com o terno preto e com a gravata cinza.Ele vai direto para a cantina e compra 2 garrafinhas de água. Ele observa aquelas pessoas e percebe pela primeira vez que ele realmente não queria estar ali. Antes que ele pudesse pensar em mais alguma coisa ele vê chegar sua tia e algumas amigas da igreja. - Bom, agora não tem jeito, se tem que ser assim, que assim seja.

Read more...

De onde vem a melancolia.

Não era dia de nascer, não era hora. Da cama do hospital ela via o mar pela janela, e uma onda de melancolia tomava conta. A barriga pesava muito praquela jovenzinha que até outro dia sustentava apenas a si mesma, e com o esforço de professora primária pagava a pensão e a comida.

A visão do mar lhe trazia enjoo. Ficava nauseada em pensar no quanto foi tola, acreditando nas palavras doces daquele que agora havia sumido. Casado. Como pôde ela, sempre tão esperta, cair na conversa de que abandonaria a família? Apenas mais uma das conquistas fáceis de um vigarista qualquer. E agora estava sozinha. Afagava os longos cabelos negros, quando sentiu que já era a hora.


Sofreu. E a cada grito lembrava mais e mais de sua história. Queria uma mão amiga, queria sumir, queria não sentir dor. Pensava em ir pro interior criar o filho, viver uma vida mais pacata, se afastar da mágoa da cidade grande. O Rio de Janeiro naquele ano de 1935 não era mais o mesmo pra ela. Era outro e era melancólico e vazio.

Nasceu. Era menino e era enorme, lindo. Os olhos azuis e graúdos, azuis e graúdos demais pra um recém nascido. A pele alva e um rosto de sonho faziam quem olhasse pensar que já tinha meses de idade. Olhou o filho, pegou-o, ouviu seu choro, quis chorar. Chorou. Ainda trêmula de dor, despertou de repente do transe quando viu o pai da criança entrar pela porta do quarto, e a enfermeira arrancar o bebê de suas mãos. Ela tentou impedir, com suas últimas forças.

Gritou. Mais e mais, e levantou, mesmo sem poder. O sangue escorria pelas pernas, e de repente tudo girou. Era o fim. Ele levava a criança embora, e ela só tinha forças pra manter os olhos semi-cerrados e ver os dois indo embora. Ouvia ao longe os berros do bebê, e não podia fazer nada.

Acordou. Não sabia quanto tempo havia passado. Podiam ser horas, dias. O sol brilhava alaranjado lá fora. Era fim de tarde. Fim. Quantos finais ela ainda veria, antes do seu próprio? A enfermeira apareceu, olhou com olhos de pena, e murmurou algo sobre lamentar muito a morte do bebê. Lágrimas rolaram dos seus olhos, e insistiu ter visto levarem ele embora na noite anterior. A enfermeira argumentou, e terminou dizendo que era melhor descansar, que logo se sentiria bem de novo.

A menina contida ali havia ido embora, e o que sobrou era apenas a sombra de uma vida. Saiu do hospital dias depois. As luzes e cores da cidade agora eram apenas nuances de cinza, e as crianças brincando eram somente vultos a aumentar sua tristeza. Sentou-se no banco da praça, e olhou ao redor. O chafariz, os casais, os pombos, tudo a fazia pensar no quanto se sentia infeliz e vazia.

Os anos passaram. Muitos, muitos anos. Era ela ali, eu sei, sentada no mesmo banco de praça, vestida em farrapos. Era ela embaixo da ponte, no paço, na praça. Era ela a pomba branca, as meninas, as moças, os rapazes. Era ela a desilusão e a tristeza, é ela a melancolia. Eu sei que é, e sempre a vejo vagar. Vejo os mesmos olhos tristonhos, olhos de mágoa e de sonho todo dia de manhã. Assim que levanto e me olho no espelho.

Read more...

Como ja era de se esperar...

>> quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Deem as boas vindas para o mais novo membro, escritor e sonhador do blog: Arthur.

Seu nome ja vem de boas histórias e pelo que eu ja li, ele não fica para tras de grandes reis.

Portanto, Bem vindo!
Se sinta em casa, cara!

Read more...

  © Blogger templates Inspiration by Ourblogtemplates.com 2008

Back to TOP