quinta-feira, 7 de maio de 2009

Dias Noturnos - Capítulo 2 (Ecos)

Realmente não é muito difícil imaginar o que aconteceu dentro daquela espelunca após a confusão. Estava lá o porcão xingando e gritando com os funcionários para limparem toda aquela sujeira, extorquindo os bêbados imundos que “ajudaram” na briga e é claro...
- Eu não quero ver mais a cara desse desgraçado por aqui! E nem acredito que um covarde como aquele moleque apareça aqui novamente depois de uma surra dessas! - era nojento a forma com que ele falava as coisas, cuspia para todos os lados enquanto movia aqueles lábios gordos e mostrava aqueles dentes podres e sujos de carne. Ora, não era atoa que era conhecido como “o Porco” por toda a redondeza, ele realmente parecia um porco, aquela cara grande e gorda, aquelas roupas sujas de comida e suor, uma barriga que chegava antes dele a qualquer lugar que fosse, aquele odor por onde anda, não é preciso descrever muito para se imaginar de quem se tratava.
Aquele rapaz deu mais trabalho que Sara poderia imaginar, teve que se dividir o dia inteiro entre limpar a espelunca e servir os clientes imundos que pisavam ali. Sim, era mais um dia tão ruim quanto qualquer outro.

...

Victor sentiu-se cochilar em meio a toda aquela dor, quando sentiu algo vibrar em seu bolso, tão transtornado que estava, havia esquecido completamente do seu celular. Lentamente levou a mão ao bolso e, lutando contra as dores, conseguiu atende-lo.
- a .. lo.. - disse Victor se esforçando muito, em um sussurro longo naquela tarde de inverno.
- Victor? Onde você está, cara? Você saiu daqui igual um louco...
- Pe..dro?É você?
- Claro, cara? Não esta reconhecendo minha voz? - dizia Pedro nervoso do outro lado da linha – cara, você está bem?
- Não... não sei.. ai!
- Cara, me diz onde você está! Estou indo te encontrar agora!
- Eu não sei.. eu não sei onde estou, mas é algo com “porco”... “não sei o que do porco”.
- Vila dos Porcos?
- Eu não sei... não sei
- Tá certo, fique aí onde está, estou indo te buscar!
Antes mesmo que Victor desligasse o celular, um garoto passou correndo e arrancou este de suas mãos, e la foi ele correndo sem que Victor pudesse pensar em alcança-lo, apenas o seguiu com os olhos até a próxima esquina. Ótimo, agora ele estava sem dinheiro, arrebentado, perdido e agora sem celular, mas ainda havia uma esperança, a de que seu amigo Pedro o achasse ali, mas de tão otimista, Victor tinha quase a certeza de que estava irreconhecível e que mesmo que estivessem o procurando não o achariam, nem mesmo se falassem com ele, deveria estar irreconhecível.
É de se entender o pessimismo de Victor, mas é claro, sua mente não estava das mais saudáveis depois de tudo que havia acontecido e a cada minuto que passava, sentia-se perder as forças e foi lentamente desfalecendo. A ultima coisa que ouviu antes de desmaiar foi:
- Victor? Oh meu Deus! Vamos, me ajudem a leva-lo...

...

Estava tudo escuro, mas lentamente, bem lentamente, começou a ver formas e em não muito tempo depois percebeu que olhava para um teto escuro que não se parecia em nada com um teto de hospital. Virou-se e percebeu que estava em um quarto, uma mesinha próxima a cabeceira da cama em que estava, um copo d'água em cima dela. A claridade que entrava no quarto vinha de uma porta aberta na direção do pé da cama. Tentou se virar e sentiu a barriga doer, os braços, as pernas e também a cabeça, soltou um gemido longo, mas conseguiu se virar e, lutando contra a inércia, sentou-se na cama. Seus olhos ainda se acostumavam com a claridade enquanto ele se acostumava com as dores pelo corpo. Victor levava o copo a sua boca seca quando ouviu passos, segundos depois uma silhueta humana entrando pela porta.
- Olá, dorminhoco! - Uma voz doce demais para um homem – Achei que não acordaria mais hoje, vou ter que acender a luz... - nesse exato momento a luz invadiu os olhos de Victor e os fez arder bastante e em conjunto sua cabeça também doeu, confuso, ele foi abrindo os olhos lentamente. A luz não era nem um pouco forte, mas para que estava dormindo a um certo tempo, acender a luz incomoda.
- Quem é você? - Disse Victor, tentando se acostumar com a claridade e ver quem entrava no quarto.
- Amiga do Pedro e sua amiga também agora. - Victor teve a certeza de que não era um homem, era uma garota de cabeça raspada, não que não fosse comum, mas a principio assusta um pouco.
- Que lugar é esse? Onde está o Pedro? - disse bem confuso, levando a mão a cabeça. Ela deu um leve sorriso:
- Você faz muitas perguntas, precisa descansar um pouco. Vamos, você teve sorte de não ter quebrado nada, tome isso. - ela o mostrou um comprimido azul, pequeno e oval. Relutante, ele pegou e engoliu com o resto da agua.
Ela sorriu e agachou perto dele – Deite e relaxe mais um pouco. - ele o fez sem mais perguntas. Ela se levantou, andou até a porta e apagou a luz. - Boa noite, Victor! - Foi a ultima coisa que ele viu, logo depois ele teve a sensação de que a cama o engoliu e a voz doce dizendo “boa noite, Victor” durou a noite toda na sua cabeça, ecoando, ecoando...

...

Anoiteceu e a cidade ficou ainda mais fria, Sara recebeu seu miserável salário e partiu para casa. Ela estava no ônibus lembrando de sua família e sua infância, nunca pensou em sentir saudade daquilo tudo e mergulhou em um mar de lembranças...

- Onde está a redação que eu pedi, Sara? - Dizia aquela professora de redação com rosto duro e voz seca, olhando para ela podia-se dizer que era do tipo de pessoa que não tinha marido. Ao mesmo tempo, Sara se encolhia na cadeira, afinal tinha apenas 12 anos e aprendera com seus pais que deveria ser submissa.
- Eu.. e.. eu... eu não fiz, professora Carmem. - E encolhia-se ainda mais na cadeira com o caderno quase encobrindo o rosto enquanto toda a classe começava a rir da situação.
- Como ousa ser tão inútil? - E a cada palavra Sara diminuía-se contra a cadeira ao mesmo tempo que mais risadas soavam e bolinhas de papel voavam pelos ares – Por essa causa proíbo qualquer um de vocês que falem com esta menina, para que não se tornem inútil como ela!
Claro, naquela época Sara não entendia que a professora e o resto da turma a perseguiam e, quando comentou com seus pais, eles ainda concordaram com a professora Carmem, que de pedagogia provavelmente não entendia, porém era diretora do colégio.


Essas lembranças doíam um pouco, mesmo que agora tanto faziam continuarem existindo como serem apagadas. Talvez a única boa lembrança de Sara tenha sido as férias de verão de quando tinha 15 anos, mas quando as coisas começavam a vir em sua mente, Sara despertou de seu transe e quase perdeu o ponto.
Sara adentrava pela 30º vez aquele prédio sujo, a noite estava bem escura e as luzes fluorecentes do prédio estavam fracas como sempre. As mariposas voavam próximo aos focos de luz enquanto Sara esperava o elevador velho descer e pensava se com aquela quantia de dinheiro poderia ter um telefone, a saudade dos monstros da sua infância começava a ficar forte, pois os monstros da sua vida adulta eram muito mais feios.

...


Era quase 10h da noite quando Sara abriu a porta de casa e fez ecoar aquele barulho do ranger da madeira pelo corredor, estava muito escuro la dentro e sua mão escorregou pela parede úmida procurando o interruptor. A luz piscou e estabilizou, logo deu para ver sua pia suja, um pequeno guarda-roupa comido por cupins, dois banquinhos de madeira, o chão de taco, o fogão de duas bocas, a geladeira velha, o colchão marcado pelo corpo no meio da “sala” e é claro a entrada do minúsculo banheiro que não tinha porta nem luz.
Sara deu seu primeiro passo para dentro de casa e sentiu algo diferente sob seu pé, ora ela não morava la a tanto tempo para notar pequenas diferenças, portanto era algo realmente diferente, havia chegado uma correspondência. Ali não se pagava luz, nem agua, apenas o aluguel junto com o condomínio que era destinado para todo o resto e a cobrança era feita através de batidas bem mal-humoradas na porta aos domingos de manhã, talvez isso explicasse o choque de Sara ao receber uma carta.
Ela entrou, passou pela carta, fechou a porta e sentou-se em um daqueles banquinhos posicionando-o próximo a correspondência e ficou a observando por um bom tempo, talvez horas, talvez segundos, mas aquilo agora não fazia diferença, o tempo para ela se passava diferente do resto do mundo.

Um comentário:

Dandara Bayer disse...

carái, a história parou na melhor parte! Você sabe mesmo deixar as pessoas curiosas...hahahaha...Começo a pensar que se você postar um capítulo por semana, minha curiosidade vai explodir a minha cabeça O_O'

rola me contar no msn de quem era e o que dizia a carta?! hahahahaha brincadeira =P

Bjo Rê,
continue postaaaandoooo @_@