domingo, 10 de maio de 2009

Dias Noturnos - Capítulo 3 (A Carta)

“A ultima vez, aquela única vez, primeira e única vez que eu recebi uma carta. Isso faz tanto tempo...” E ela novamente caia em seus sonhos e lembranças. Sara tentava resgatar uma parte boa do seu passado.

- Uma carta para mim? Mãe, deixa eu ler!
- Só pode estar fora de si! - dizia sua mãe rindo – sou sua mãe, devo ler primeiro!
- Mas mãe, as cartas são coisas pessoais, particulares!
- Sem mais nem menos! Afinal no dia que você morar sozinha poderá ler todas as cartas que chegarem em sua casa!
- Mãe, isso não está certo! – Sara cruzava os braços.
- Se continuar reclamando não poderá ler a carta! - depois dessa frase Sara ficou em silencio e se jogou no sofá, seu rosto retratava seu mau humor, enquanto isso sua mãe olhava o remetente.. - Ah! É do seu primo Marcos! - e começou a abrir o envelope quando de repente o bendito celular da Sra. Falcão tocou, e ela esbaforida como sempre deixou a carta cair no chão e atendeu o celular. Sara deduziu que era algo muito importante pela contração dos músculos faciais de sua mãe, mas não conseguia prestar atenção em nada que ela dizia, queria mesmo saber o que estava naquela carta.
Por sorte de Sara sua mãe esqueceu completamente o que estava fazendo e saiu pela porta a fora, provavelmente algum problema nos negócios da família, Sara não quis saber, ao perceber que sua mãe não voltaria tão cedo pegou aquela carta e subiu para seu quarto tão rápida quanto a luz.
- Marcos... ai Marcos! Não poderia ser melhor... - dizia Sara espaçadamente quase sussurrando e apertando a carta contra o peito – ...receber uma carta e ainda mais sua! Gostaria que estivesse aqui. - respirou fundo e decidiu abrir a carta.

“Planícies Bonitas, 17 de Abril de 2048

Querida prima Sara,

Sinto saudades de todo o tempo que passamos juntos aqui na minha fazenda, parece que o tempo passou mais rápido do que deveria quando você estava aqui, mas acredito que seja assim sempre que nos divertimos.
Estou mandando essa carta pois não tenho noticias de você desde que vocês voltaram para casa, quando os seus pais ligaram para cá dizendo que estava tudo bem, mas eu mesmo não consegui falar com você. Receio que talvez algum impedimento maior, pois não acredito que seu coração seja tão gelado assim, sei que seus pais nunca lhe deram um computador, mas não recebi nenhuma carta nem ao menos uma ligação sua. Estou com saudades de você, principalmente da ultima semana que você passou aqui, não fizemos tudo o que queríamos, não é mesmo?
O outro motivo pelo qual escrevo essa carta é porque este ano eu estou saindo de casa, no máximo em Julho estarei começando uma nova vida bem longe daqui, queria comemorar isso junto com o seu aniversário de 16 anos, mas infelizmente não creio que isso será possível.
Minha querida, me desculpa escrever uma carta tão pequena, mas agora tenho pouco tempo e muitas coisas para fazer, principalmente se eu quiser sair daqui em Julho. Aguardo uma resposta sua, e saiba que eu adoro você.

Beijos e abraços!

Marcos Borges”


...

A luz do dia começava a entrar pelas frestas da janela e rapidamente se arrastava até o rosto de Victor, aquela luz quente e amarela que tornava a visão de dentro das pálpebras adormecidas de Victor um borrão vermelho. O incomodo fez com que o corpo adormecido despertasse, este despertou também a mente e, esta por sua vez, despertou a fome.
Sentia-se fraco, ao tentar se virar para o outro lado, sentiu seu ombro doer e o estômago roncar. De fato estava se convencendo que era a hora de levantar. Victor foi abrindo os olhos lentamente e começou a finalmente ver os detalhes do quarto ao seu redor, o piso era de madeira e bem desgastado, a janela parecia ter sido forçada para fora, pois era completamente empenada, as paredes também de madeira e com buracos espalhados sem ordem e sem lógica. Ao terminar de ver os detalhes mais distantes que não havia percebido na noite em que acordou, Victor sentou-se e voltou a olhar para cama que estava forrada de branco, o lençol que o cobria era azul claro e havia um copo cheio de agua no mesmo lugar, em cima daquela mesinha de madeira e cheia de gavetas do lado da cabeceira da cama de ferro.
Ao perceber o copo cheio de agua, sentiu sua boca seca e impulsivamente pegou o copo e virou para dentro de si. Era como beber agua depois de dias em um deserto, ou pelomenos era assim que Victor se sentia, a agua estava fresca e saiu lavando a boca e toda a garganta, ele pôde inclusive sentir a agua batendo no estômago e a sensação de frescor por todo tórax.
Agora Victor percebia que estava completamente nu, sem roupas, sapatos ou documentos e estava também limpo, no geral, não realmente limpo, mas melhor do que se lembrava. Ora, Victor lembrava claramente que estava bem sujo quando Pedro o encontrou, inclusive, sujo e bem machucado. Lentamente ele percebeu as manchas roxas, dores leves e uma mancha roxa enorme na barriga, esta chamava atenção demais, provavelmente havia algo quebrado ali, ou alguma hemorragia enorme, mas não sabia o porque não sentia dores.
Lentamente os desejos e vontades vieram ao corpo de Victor, uma a uma, enquanto ele se levantava da cama, um misto de desejos e necessidades o invadiram. Sua mente borbulhava de pensamentos instintivos, prazeres, vários tipos de desejos e sensações. Era bom e agonizante, por um instante ele sentiu aliviar-se de uma dessas necessidades momentâneas, assim acordando do transe. Algo quente percorreu suas pernas e escorreu para o chão formando uma poça amarelada, Victor acabava de satisfazer um dos seus desejos, acabava de urinar, em si mesmo.
Novamente percebeu sua fraqueza e escorou nas paredes do pequeno quarto e caminhou de vagar até a porta, nu, molhado e fedorento. Ao chegar a porta, Victor se deparou com um corredor de madeira bem simples, que se estendia primeiramente para sua direita, como olhou, e terminava em um vasculhante, a dois passos dali, cujo deixava alguns raios de sol penetrar e se estender até os pés descalços dele. Ao voltar-se para a esquerda, observou uma porta estreita a menos de um passo na outra parede, estava entreaberta, e o corredor de madeira se estendia para uma escada que descia e depois virava, tornando impossível de se observar mais qualquer coisa alem disto.
Não havia muito barulho alem do estalar da madeira velha e da respiração de Victor que depois de alguns minutos, resolveu andar até o vasculhante. Passo por passo, miúdo e lento, cauteloso e sonolento, estava fraco, tendo se aproximado da janela, se posicionou na ponta dos pés observou algo que nunca imaginaria para aquele momento. Victor se via pela primeira vez em meio a escavações, talvez uma mina. Do alto onde estava, se viam maquinas enormes, escavadeiras, caminhões e pilhas de algum material branco cujo não dava para saber aquela distancia. Ele não se demorou, sentindo-se queimar pelo sol resolveu distanciar-se da pequena janela e ir até a porta estreita que estava entreaberta.
Victor parou em frente a porta e a empurrou lentamente, estava um pouco emperrada e arrastava no chão, mas nada que o próprio peso do braço não pudesse a deslocar. Logo se deparava com um pequeno cômodo cujo era habitado por um vaso sanitário sujo, uma pia pequena com uma pasta rosa parecida com sabonete derretido em sua parte superior a esquerda e um pequeno chuveiro no canto direito, do outro lado do cômodo. Era um banheiro mal feito e improvisado, mas em sua mente borbulhava a idéia de ter água naquele chuveiro esquecido e empoeirado.
Ao escorar a porta novamente, desta vez para fecha-la, percebeu uma toalha e um macacão cinza pendurados atrás dela. Parece que não só Victor queria que ele mesmo tomasse banho. A água demorou a cair e lentamente, junto com o ar que vinha da tubulação, a água que era quente foi esfriando e Victor enfiou-se em baixo dela e a deixou correr por um longo tempo com seus olhos fechados.

...

Sara tinha muitos sonhos, mas ultimamente sua determinação para que eles se realizassem estava ficando escassa. Ela viu nos filmes que as pessoas começavam por baixo e batalhavam muito, mas um dia alguém as notava e as colocavam em lugares de destaque na sociedade. Algo dizia a Sara que aquela carta era um sinal, um sinal de que alguém notara a sua significância.
Depois de tanta hesitação, ela resolveu abaixar-se e pegar aquele envelope curioso e cinza. Não havia nenhuma referencia nele, nem para quem era, nem de quem era, nenhum endereço nem letra, nem numero, apenas um papel cinza, chuviscado, como uma televisão fora do ar. Sara o analisou por mais algum tempo, era intrigante demais.
“O que pode ser isso? Será que é realmente para mim? Não acredito que seja, mas... será que se eu abrir estarei violando a privacidade de uma outra pessoa? Se essa carta for de outra pessoa eu realmente preciso entrega-la, mas e se for para mim mesma? Pode ser um erro não abrir...”
Sara abriu cuidadosamente o envelope, de forma que pudesse o colar novamente se a mensagem não fosse para ela. Sara já tinha visto isso em filmes e não cairia em uma cilada dessas. Retirou de la de dentro com bastante cuidado um papel branco bem dobrado e o abriu lentamente. A cada dobra seu coração palpitava como se estivesse fazendo algo errado, sua respiração ficava ofegante e suas mãos suavam. Por um momento, Sara pensou que não tivesse nada escrito, até desdobrar completamente o papel e encontrar os dizeres:

“Rua dos encontros, número 128, apartamento 512. A chave está no tapete, dentro tem a próxima pista. Desafio-te a não ir.”

3 comentários:

Dandara Bayer disse...

hohoho, formidável! e eu como sempre no aguardo pra mais =P

tipo sorte do orkut, "aguarde para próximos momentos emocionantes" ou algo assim..ahahahah

bjoos =**

Dandara Bayer disse...

lembrei, é "para breves momentos"..ahahaaha

Marcela Reinhardt disse...

olha, acho que vou ter que continuar visitando o blog para ler a continuação da historia!