E aquele longo prédio indecifrável a segundos atrás se sobrepunha a sua visão, de maneira que não tivesse tempo para duvidas. Sara adentrou corajosamente no Edifício Borges. Sem pestanejar e olhar para o simpático senhor que estava atrás do balcão. De fato não era um prédio comercial, e Sara andou pensando que era óbvio que tudo estava preparado. Sua entrada sem barreiras denunciava que o prédio esperava por ela, as paredes e toda aquela limpeza de que ela passara longe durante toda a sua estadia nessa cidade.
Era surreal demais até para a sonhadora Sara que já havia esquecido por completo a Vila dos Porcos e todo aquele chiqueiro a uns 2 km de distancia. O elevador parou no quinto andar, a porta lentamente abriu-se e Sara sem esperar o ciclo completar-se, saltara para fora do elevador, adentrando em um corredor de carpete e luzes amarelas, como o de um hotel. Ela andou olhando os apartamentos, um por um, até achar o 512. Sara pensou por um momento “Ainda dá tempo de desistir e procurar a pessoa certa, para quem foi enviado o bilhete...” mas ao mesmo tempo que pensava e mordia os lábios, Sara colocou a chave na porta e a girou, destravando-a e após girar a maçaneta, fazendo a porta abrir vagarosamente, mostrando pela luz do corredor o inicio de uma grande sala.
Mão direita no interruptor e estava lá, tudo como deveria estar em uma bela sala de estar de um apartamento. Uma bela mesa de mármore e madeira, de forma retangular, com 2 cadeiras nas pontas e 2 de cada lado dos lados maiores, em um total de 6 belas cadeiras. Havia também mais perto de Sara dois sofás de quina, pretos, um de 3 lugares, colado na parede, extremamente confortável, e outro de 2 lugares que ficava a frente da mesa. Do lado oposto dos sofás estava uma televisão na parede, dessas de 40'', tela plana, que só rico poderia ter. O chão era branco, um piso bonito e branco, parecia que tinha sido limpo hoje ou quem sabe ontem. Estava impecável.
Sara ainda estava admirando a sala quando reparou um caixote sobre a mesa, aquela bela mesa de mármore. Um caixote de papelão, pequeno, lacrado com fita, escrito “frágil” em sua lateral e com um papel dobrado em cima, preso por uma fita adesiva vagabunda. E esta foi a segunda vez que Sara hesitou, ela poderia sair dali ainda, fingir que tudo era um engano, mas enganada estava. Sara desdobrou o papel e encontrou outras palavras escritas.
“Novo trabalho para você,
Entregue isso a um velho amigo, o endereço é: Rua dos Loucos, número 18. Não se esqueça, é para o Rodrigo Smith!
Casa nova, vida nova. Aproveite!”
...
- Bom, Victor, agora vem a parte simples – dizia Marina um pouco ofegante – pelomenos para mim.
- Parte simples? Eu vejo a estrada logo ali, mas parece que ela nunca chega! - limpando o suor da testa.
- A parte simples é que seu nome não é mais Victor Brhams. Marcos Borges é seu novo nome. Sua documentação está toda na sua bolsa. - disse Marina de maneira indiferente sempre olhando em direção a estrada.
- Mas como assim? Mudar meu nome? Que história é essa? - Victor estava perplexo. Sua boca aberta e seca, testa franzida e olhos arregalados, tudo isso denunciava seu estado de surpresa e anseio.
- Não é mudar de nome, agora você é outra pessoa. Victor Bhrams morreu no caminho para o hospital, não existe mais! - Seu tom de apático se transformara em agressivo e Victor respondeu com um silencio e um olhar perturbado e amedrontado para Marina.
- É assim então? Eu não existo mais? Sou outra pessoa agora e devo agir como ela?
- Exatamente.
- Tenho escolha?
- Tem, ou você aceita essa sua “nova vida”, ou morre de verdade. - Marina falava essas coisas como se dissesse as horas ou pedisse um hamburguer – Até determinado momento, eu serei sua babá. Não tente fugir de mim, ok?
O que não cabia na cabeça de Victor naquele momento era aquela mulher doce se tornando um monstro ao seu lado, ele ali agora percebeu que ela estava armada, tinha uma pistola bem grande em sua cintura e isso fez Victor tremer.
O caminho até a estrada foi em silencio, enquanto isso Victor, ou Marcos, sentia sua face e todas as partes que estavam expostas ao sol arderem. As pernas começaram a reclamar seus minutos de descanso, os músculos fraquejavam e a língua estava colada no céu da boca, mais seca do que qualquer lembrança sobre sede que Victor tinha. Enfim, quando os dois pensavam em desfalecer, seus pés alcançaram o asfalto rachado da estrada.
Providencialmente havia um carro ali, Marcos, ou Victor, pensou se aquela lata velha realmente funcionaria naquele calor, mas Marina não precisou de muita perícia para tira-lo da inercia. Os dois entraram e partiram em linha reta para o horizonte desabitado, demorou quase a tarde toda para que eles chegassem em uma zona habitada que segundo Marina, era uma área de governo paralelo chamada Dãgslote.
- Pernoitaremos aqui, seu novo patrão tem um bom transito e respeito por essas bandas. - disse Marina parando o carro na frente de um portão de grade apoiado e um muro bem grande.
- Que lugar estranho, espero não ter que passar muito tempo aqui. - disse Victor espantado com todas aquelas ruínas sobreviventes de alguma cidade. Ele de fato nunca havia saído de Lassitah, sua cidade natal, seu inferno pessoal. - Você sabe o que eles fazem por aqui?
- São criminosos, Marcos. - séria e calma, dizendo lentamente palavra por palavra - Eles fazem coisas politicamente erradas e são maus, mas você não está longe de se tornar como um deles. - e terminou a frase com um leve sorriso.
- Eu criminoso? Olha, não tenho coragem nem de matar uma mosca!
- Criminosos covardes são os mais perigosos! - soltou uma grande risada. - Seu amigo o escolheu bem!
Enquanto Marina ria, uma criatura grande se aproximou do carro. “Um troglodita” pensou Victor enquanto via pelo vidro o homem se abaixar para falar com Marina. Aquele ser de seus 2m e alguma coisa de altura, de quase 200kg, carregando correntes, uma arma quase do seu tamanho e toda sorte de metais e tatuagens espalhados pelo corpo. Era de se intimidar, ainda mais ao perceber que ele não era o único, em pouco tempo o carro estava cercado daqueles tipos estranhos e mal encarados. Haviam magros, gordos, baixos e altos, mas nenhum deles parecia ser dotado de simpatia no olhar.
Victor já havia se convencido que aquele pernoite seria o mais estranho da sua vida, mesmo que o da noite anterior, ou dos dias anteriores, fossem bem esquisitos. Ao adentrar em seu suposto aposento, ele se deparou com uma mesa de cirurgia velha e enferrujada e uma almofada, furada e provavelmente cheia de ácaros, sobre ela. Havia apenas uma luz fluorescente sobre um pequeno espelho, que por sua vez era sobre uma pia, que ficava do lado de um vaso sanitário com uma aparência duvidosa. Um vasculhante apenas, um ventilador de teto, daqueles de aço do século passado, que movia-se como uma lesma.
Victor ou Marcos, adormeceu de exaustão sobre a mesa. Seus sonhos infantis dominaram a noite. Victor agora era um famoso jogador de basquete, que tinha super-poderes e muitos amigos, ele também iria se casar com a menina mais bela que conheceu, ela não sabia que ele podia voar.
...
Ela pensou novamente, pensou que talvez não fosse tarde procurar a pessoa certa, mas achou que talvez fosse melhor ir entregar a encomenda e depois procurar saber pra quem era o primeiro bilhete. Talvez também ela estivesse enlouquecendo mesmo e a Rua dos Loucos seria um lugar ideal para se refugiar, quem sabe? Sara tomou as ruas novamente.
Aquele dia quente e úmido, os carros respirando poluição, as obras transpirando poeira e toda a sorte de violência esgueirando-se nos becos em plena luz do dia. De fato nada estava fora do lugar, apenas Sara, praticamente alienígena e perdida, caminhando para seu destino incerto na Rua dos Loucos, logo ali, em algum canto esquizofrênico da cidade.
Ao pegar o ônibus lotado novamente, mais um contratempo, dois carros bateram e fecharam o cruzamento. Sara com pressa, tomou o subterrâneo, o velho Metrô. Sua caminhada árdua até a plataforma não a deixou pensar novamente, as ruas estavam cheias como sempre, e no subterrâneo, a agitação delas chegava a ser sufocante. E então Sara teve a impressão de ver alguém conhecido, um rosto, um andar, mas não pode ter certeza. Ela tentou seguir, mas o Metrô chegou e tanto ela, quanto ele, entraram nele, mas em vagões bem distintos.
Sara quis atravessar os vagões, mas eles não estavam conectados uns aos outros. E então ela ansiosamente esperou até que as portas se abrissem para tentar trocar de vagão. Mas na primeira ela foi empurrada com violência para dentro, e nas outras as coisas ficavam cada vez mais difíceis. Até que em uma delas a maioria saltou.
Sem perder tempo, saltou para o lado de fora e correu na direção do rosto conhecido, mesmo sem saber se ele já havia saltado ou não. Mas por sorte ele saiu ali, mas a multidão era grande, tão grande, que ela o perdeu de vista, mas continuou segundo o fluxo para a saída. E então ela o achou de novo, achou aqueles cabelos loiros que procurava.
Atravessando a multidão, derrubou senhoras, crianças, bancas de comerciantes ilegais, mas sua velocidade acelerada não se continha por esses obstáculos. Chegou a rua e continuou a persegui-lo, ele estava a uns 100m de distancia quando o ônibus parou. Ela gritou:
- Marcos! Marcos, espera!
Ele hesitou, olhou em volta, mas entrou no ônibus deixando Sara para trás.
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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
terça-feira, 16 de junho de 2009
Dias Noturnos - Capítulo 4 (Passos do Destino)
A quinta-feira amanhecia, Sara havia adormecido com aquela carta estranha na mão. Não havia sonhado, mas havia pensado demais durante a noite. Estava em um dilema, seria mesmo aquela carta para ela? Sara não sabe, mas está tão curiosa quanto a isso e quanto o que tem no endereço. O despertador ecoava novamente, e a trazia de volta para a estranha realidade. Havia muito o que pensar enquanto se arrumava para trabalhar, o que a desviara um pouco da tal carta, afinal, será que o dinheiro seria suficiente para sobreviver ali?
Ainda nem havia amanhecido direito, mas o frio úmido e noturno começava a dar lugar ao vapor sufocante diurno. Sara andou pelo corredor, desceu por aquele elevador velho, passou pela portaria do prédio e ganhou as ruas. Era como qualquer outra manhã, ônibus lotado, garoa fina e fétida, náuseas, ansiedade, sonhos e lembranças.
“Ele me disse uma vez, que meu destino seria grandioso e...”
- Eu irei te admirar como eu admiro um herói!
- Você diz coisas engraçadas, sabia? - Sara sorria.
- Ah é? Vai ficar fazendo pouco das minhas previsões? - soltando uma pequena risada – sou bom nisso! Acredite, sou vidente!
- Vidente? - soltou uma longa gargalhada e o encarou risonha – Você está assistindo filmes demais, Macos!
- Não é porque você não acredita que eu não seja. Alem disso eu ainda leio pensamentos! - dizia virando de lado sobre a grama ficando mais perto de Sara. - Eu sei exatamente no que você está pensando agora... - e a encarou esperando sua reação.
Sara não conseguia parar de olhar para a boca de Marcos, mas seus quinze anos não a deixavam perceber o quão obvia ela estava sendo, e talvez, mesmo se soubesse, não faria questão de disfarçar. O que mais Sara queria era que Marcos realmente estivesse lendo seus pensamentos, e ele o fez, não porque ele pudesse ler pensamentos, mas ele sabia bem o que ela queria, se aproximou até que ela fechasse os olhos e disse baixinho:
- Se acredita agora que eu leio mentes, sorria para mim...
Novamente Sara foi interrompida pela lembrança desagradável de ter que descer na próxima parada. Porém as coisas complicaram, a multidão de pessoas que lotava o ônibus não a deixou sair e ela só conseguiu se ver livre de tudo isso dois pontos depois quando foi cuspida para fora, quase caindo de cara no chão. E novamente a menina sonhadora se via perdida na cidade. Já não bastava o atraso, agora ela estava em algum lugar que nunca havia ido, provavelmente nem mais na Vila dos Porcos era, ela estava com problemas. Fora o salario contado, uma passagem de volta a Vila dos Porcos significava alguma privação mais a diante, porem era a única solução no momento e Sara resolveu atravessar a rua.
Não era comum as pessoas andarem muito pela cidade, principalmente se aventurarem em lugares que não conhecem, mas ali estava Sara no cruzamento, parada na frente da faixa de pedestres junto com uma multidão de outros anônimos esperando o sinal fechar. Ela colocou a mão no bolso e se lembrou de ter colocado a misteriosa carta ali antes de sair de casa e, logo após, em duvida sobre o que deveria fazer, olhou para o topo dos prédios, alguns abandonados, outros sendo reformados e lentamente foi descendo seus olhos até sentir-se empurrada pela multidão e ter a impressão de ter lido por ali em algum lugar algo familiar escrito, algo bem familiar. Sara lutando para permanecer em pé voltou a procurar o que havia lido e encontrou uma placa um pouco enferrujada e quebrada no topo de um poste indicando a rua que estava e achou que estava sonhando, ela acabara de ler “Rua dos Encontros”.
...
Victor terminou de se limpar alguns segundos antes da agua acabar, saiu lentamente do chuveiro e parou em frente a pia, onde havia um pequeno espelho quebrado, notou que suas manchas estavam sumindo rapidamente, seu cabelo não estava muito maior, sua barba não havia crescido e a grande mancha na barriga estava menos notável agora. “O que está acontecendo? O que está acontecendo comigo?”
Aos poucos, Victor foi percebendo cada diferença, como conseguir ler seu nome escrito no macacão cinza sem estar de óculos, mas pouco depois tudo voltou a embaçar e a dor no abdômen começou a se intensificar. Sem pensar duas vezes, Victor vestiu-se e saiu do banheiro apressando seus passos para a escada. Esbaforido, chegou ao andar de baixo daquela cabana velha, e parou surpreso. Havia uma mesa grande de madeira com um copo e um prato de comida em sua extremidade oposta e nada mais alem disso, nem uma toalha, nem sinal de vida por ali, havia apenas uma cozinha americana bem suja e vidros engordurados.
Victor queria hesitar, mas andou até o prato, sentou-se em um banco e pegou o garfo. A comida estava quente e aparentava estar gostosa, e garfada por garfada, ele esvaziou o prato, logo após gole por gole ele esvaziou o copo que supunha estar cheio de suco industrializado de laranja. Ao terminar, Victor começou a tentar lembrar de como foi parar ali, e tentava lembrar que dia poderia ser hoje...
“Eu lembro, Pedro me achou no chão, machucado e sujo. Mas não lembro de mais nada, acho que desmaiei.”
Pedro gritava para Victor continuar com ele enquanto o colocaram no carro, Victor conseguia ouvi-lo e apertava sua mão a cada sinal de desespero de seu amigo...
“Pedro me trouxe até aqui?”
Horas depois Victor acordava no quarto com a mulher careca, ele se lembra bem disso, mas era inútil tentar lembrar-se algo após o comprimido azul.
O estalar das madeiras e o som dos passos de alguem despertaram Victor do pequeno transe, agora ele estava apreensivo do que aconteceria, ele percebeu que havia mais uma porta próxima a mesa, não percebeu antes porque a fome não deixou. Logo a porta começou a abrir-se, e o sol começou a entrar de forma mais direta e com ele, a sombra no chão, que antes de Victor supor quem era, sua voz a dedurava.
- E então? Posso casar?
- Achava que você era apenas um sonho da ultima noite, mas pelo visto. - Victor tentou olha-la diretamente, mas o sol o impedia.
- Bom, pelomenos agora você já não se espanta tanto com o meu corte de cabelo. - passando a mão em sua careca, deu uma pequena risada e terminou de entrar na sala fechando a porta atrás de si.
- Mas agora me responda, quem é você?
- Continua perguntador como a três dias atrás. - balançou a cabeça negativamente e sorriu novamente.
- Três dias? Eu dormi tanto assim? - ele se espantava e ela ria.
- Dormiu menos do que imagina, mas se isso te satisfaz, meu nome é Marina. - Aproximou-se dele e estendeu a mão. - Prazer.
Victor hesitou um pouco mas estendeu a mão para cumprimenta-la, era o mais educado e indicado a fazer. Ela apertou forte e o encarou durante um tempo, talvez dois segundos, talvez dez minutos, mas para ele durou uma eternidade. O olhar dela o dava medo, era penetrante e direto como nunca tinha visto, talvez fosse a primeira pessoa realmente diferente que ele havia conhecido ou pelomenos a primeira delas que conseguiu o chamar atenção e isso o assustava. As pessoas eram vazias para Victor até ali, e talvez realmente fossem vazias, mas sempre existem pessoas que fogem a regra ou que ignorem seguir o mesmo rumo que todas as outras. Victor não sabia, mas o medo que ele sentia era de ter sido vazio por todos esses anos.
Ela o despertou do transe com um sorriso curto e discreto, soltou sua mão, virou-se e foi até a janela engordurada que ficava sobre a pia da pequena cozinha.
- Precisamos ir! Agora que você está bem não faz mais sentido ficar aqui.
- Como assim?
- Não podemos nos dar ao luxo de conversar agora, vamos!
- Mas eu quero saber... - e ele foi interrompido por uma voz não muito doce.
- Tento te explicar no caminho, suas coisas estão dentro dessa mochila. - deixou uma de suas mochilas cair no chão – vamos, pegue-a, não temos muito tempo para chegar na estrada.
Victor e Marina pegaram suas poucas coisas e saíram da cabana. O sol ainda estava quente e fazia arder a pele dos dois, eles passaram a andar sobre a areia logo deixando toda a escavação para trás, o que deixou Victor ainda mais curioso. “Por que andar nesse deserto? Eu provavelmente não cheguei aqui andando, por que tenho que sair daqui assim?”
...
Sara lutava contra aquela multidão na quinta-feira, tentava manter-se encostada na parede até que as pessoas passassem por completo. Era coincidência demais, ela já não queria voltar a Vila dos Porcos, e se houvesse ainda alguma duvida sobre isso, aquela placa era a resposta. Só poderia ser o destino. Realmente sua vida estaria para mudar completamente, Sara sentia isso, seus pelos arrepiavam, sua boca estava seca e a cada passo dado para dentro da Rua dos Encontros era um calafrio a mais.
Suas mãos desceram pela capa de chuva, se enfiaram nos bolsos da calça, e achavam a resposta no bolso direito da frente, a carta estava lá. “Número 128. É isso, não posso esquecer!” E ela andou naquela rua larga, com prédios grandes, passo a passo olhando os números decrescendo, e o ultimo que ela viu antes de mergulhar novamente em suas lembranças era o número 2480.
Ela sorria como uma criança ao ver um sorvete cheio de cobertura, e ele se aproximava mais e mais até encostar lentamente seus lábios nos dela. Suas bocas se buscavam, a mão esquerda de Marcos passeou pelo braço direito de Sara, lentamente foi subindo até os seus cabelos. Ela escorregava a mão sobre o peito de Marcos, estava vivendo um sonho.
A grama, o sol, os pássaros e aquela bela sombra sob a amendoeira, tudo parecia colaborar e celebrar o beijo proibido. Mas havia algo que eles estavam esquecendo, era o dia de despedida de Sara, as férias dos sonhos estavam acabando e seus encontros as escondidas não poderiam mais acontecer. A manhã estava acabando e seus beijos foram interrompidos pelo som de motores. Ela enfim estava voltando para casa.
Sara acordava novamente de seus pensamentos, suas lembranças que motivavam seus sonhos e toda aquela vontade de ser mais do que é. Ela deu mais um passo, atravessou mais uma rua e se deparou com o número 128 estampado na parede de um prédio de classe média. “Edifício Borges” Era demais para Sara, todos os últimos acontecimentos, aquele sobrenome, aquela carta, sua vida infernal, era tudo que ela precisava para acreditar em destino. Sara queria acreditar que agora estava parada diante de seu destino, um prédio enorme e bonito, longe da sua vida comum.
Ainda nem havia amanhecido direito, mas o frio úmido e noturno começava a dar lugar ao vapor sufocante diurno. Sara andou pelo corredor, desceu por aquele elevador velho, passou pela portaria do prédio e ganhou as ruas. Era como qualquer outra manhã, ônibus lotado, garoa fina e fétida, náuseas, ansiedade, sonhos e lembranças.
“Ele me disse uma vez, que meu destino seria grandioso e...”
- Eu irei te admirar como eu admiro um herói!
- Você diz coisas engraçadas, sabia? - Sara sorria.
- Ah é? Vai ficar fazendo pouco das minhas previsões? - soltando uma pequena risada – sou bom nisso! Acredite, sou vidente!
- Vidente? - soltou uma longa gargalhada e o encarou risonha – Você está assistindo filmes demais, Macos!
- Não é porque você não acredita que eu não seja. Alem disso eu ainda leio pensamentos! - dizia virando de lado sobre a grama ficando mais perto de Sara. - Eu sei exatamente no que você está pensando agora... - e a encarou esperando sua reação.
Sara não conseguia parar de olhar para a boca de Marcos, mas seus quinze anos não a deixavam perceber o quão obvia ela estava sendo, e talvez, mesmo se soubesse, não faria questão de disfarçar. O que mais Sara queria era que Marcos realmente estivesse lendo seus pensamentos, e ele o fez, não porque ele pudesse ler pensamentos, mas ele sabia bem o que ela queria, se aproximou até que ela fechasse os olhos e disse baixinho:
- Se acredita agora que eu leio mentes, sorria para mim...
Novamente Sara foi interrompida pela lembrança desagradável de ter que descer na próxima parada. Porém as coisas complicaram, a multidão de pessoas que lotava o ônibus não a deixou sair e ela só conseguiu se ver livre de tudo isso dois pontos depois quando foi cuspida para fora, quase caindo de cara no chão. E novamente a menina sonhadora se via perdida na cidade. Já não bastava o atraso, agora ela estava em algum lugar que nunca havia ido, provavelmente nem mais na Vila dos Porcos era, ela estava com problemas. Fora o salario contado, uma passagem de volta a Vila dos Porcos significava alguma privação mais a diante, porem era a única solução no momento e Sara resolveu atravessar a rua.
Não era comum as pessoas andarem muito pela cidade, principalmente se aventurarem em lugares que não conhecem, mas ali estava Sara no cruzamento, parada na frente da faixa de pedestres junto com uma multidão de outros anônimos esperando o sinal fechar. Ela colocou a mão no bolso e se lembrou de ter colocado a misteriosa carta ali antes de sair de casa e, logo após, em duvida sobre o que deveria fazer, olhou para o topo dos prédios, alguns abandonados, outros sendo reformados e lentamente foi descendo seus olhos até sentir-se empurrada pela multidão e ter a impressão de ter lido por ali em algum lugar algo familiar escrito, algo bem familiar. Sara lutando para permanecer em pé voltou a procurar o que havia lido e encontrou uma placa um pouco enferrujada e quebrada no topo de um poste indicando a rua que estava e achou que estava sonhando, ela acabara de ler “Rua dos Encontros”.
...
Victor terminou de se limpar alguns segundos antes da agua acabar, saiu lentamente do chuveiro e parou em frente a pia, onde havia um pequeno espelho quebrado, notou que suas manchas estavam sumindo rapidamente, seu cabelo não estava muito maior, sua barba não havia crescido e a grande mancha na barriga estava menos notável agora. “O que está acontecendo? O que está acontecendo comigo?”
Aos poucos, Victor foi percebendo cada diferença, como conseguir ler seu nome escrito no macacão cinza sem estar de óculos, mas pouco depois tudo voltou a embaçar e a dor no abdômen começou a se intensificar. Sem pensar duas vezes, Victor vestiu-se e saiu do banheiro apressando seus passos para a escada. Esbaforido, chegou ao andar de baixo daquela cabana velha, e parou surpreso. Havia uma mesa grande de madeira com um copo e um prato de comida em sua extremidade oposta e nada mais alem disso, nem uma toalha, nem sinal de vida por ali, havia apenas uma cozinha americana bem suja e vidros engordurados.
Victor queria hesitar, mas andou até o prato, sentou-se em um banco e pegou o garfo. A comida estava quente e aparentava estar gostosa, e garfada por garfada, ele esvaziou o prato, logo após gole por gole ele esvaziou o copo que supunha estar cheio de suco industrializado de laranja. Ao terminar, Victor começou a tentar lembrar de como foi parar ali, e tentava lembrar que dia poderia ser hoje...
“Eu lembro, Pedro me achou no chão, machucado e sujo. Mas não lembro de mais nada, acho que desmaiei.”
Pedro gritava para Victor continuar com ele enquanto o colocaram no carro, Victor conseguia ouvi-lo e apertava sua mão a cada sinal de desespero de seu amigo...
“Pedro me trouxe até aqui?”
Horas depois Victor acordava no quarto com a mulher careca, ele se lembra bem disso, mas era inútil tentar lembrar-se algo após o comprimido azul.
O estalar das madeiras e o som dos passos de alguem despertaram Victor do pequeno transe, agora ele estava apreensivo do que aconteceria, ele percebeu que havia mais uma porta próxima a mesa, não percebeu antes porque a fome não deixou. Logo a porta começou a abrir-se, e o sol começou a entrar de forma mais direta e com ele, a sombra no chão, que antes de Victor supor quem era, sua voz a dedurava.
- E então? Posso casar?
- Achava que você era apenas um sonho da ultima noite, mas pelo visto. - Victor tentou olha-la diretamente, mas o sol o impedia.
- Bom, pelomenos agora você já não se espanta tanto com o meu corte de cabelo. - passando a mão em sua careca, deu uma pequena risada e terminou de entrar na sala fechando a porta atrás de si.
- Mas agora me responda, quem é você?
- Continua perguntador como a três dias atrás. - balançou a cabeça negativamente e sorriu novamente.
- Três dias? Eu dormi tanto assim? - ele se espantava e ela ria.
- Dormiu menos do que imagina, mas se isso te satisfaz, meu nome é Marina. - Aproximou-se dele e estendeu a mão. - Prazer.
Victor hesitou um pouco mas estendeu a mão para cumprimenta-la, era o mais educado e indicado a fazer. Ela apertou forte e o encarou durante um tempo, talvez dois segundos, talvez dez minutos, mas para ele durou uma eternidade. O olhar dela o dava medo, era penetrante e direto como nunca tinha visto, talvez fosse a primeira pessoa realmente diferente que ele havia conhecido ou pelomenos a primeira delas que conseguiu o chamar atenção e isso o assustava. As pessoas eram vazias para Victor até ali, e talvez realmente fossem vazias, mas sempre existem pessoas que fogem a regra ou que ignorem seguir o mesmo rumo que todas as outras. Victor não sabia, mas o medo que ele sentia era de ter sido vazio por todos esses anos.
Ela o despertou do transe com um sorriso curto e discreto, soltou sua mão, virou-se e foi até a janela engordurada que ficava sobre a pia da pequena cozinha.
- Precisamos ir! Agora que você está bem não faz mais sentido ficar aqui.
- Como assim?
- Não podemos nos dar ao luxo de conversar agora, vamos!
- Mas eu quero saber... - e ele foi interrompido por uma voz não muito doce.
- Tento te explicar no caminho, suas coisas estão dentro dessa mochila. - deixou uma de suas mochilas cair no chão – vamos, pegue-a, não temos muito tempo para chegar na estrada.
Victor e Marina pegaram suas poucas coisas e saíram da cabana. O sol ainda estava quente e fazia arder a pele dos dois, eles passaram a andar sobre a areia logo deixando toda a escavação para trás, o que deixou Victor ainda mais curioso. “Por que andar nesse deserto? Eu provavelmente não cheguei aqui andando, por que tenho que sair daqui assim?”
...
Sara lutava contra aquela multidão na quinta-feira, tentava manter-se encostada na parede até que as pessoas passassem por completo. Era coincidência demais, ela já não queria voltar a Vila dos Porcos, e se houvesse ainda alguma duvida sobre isso, aquela placa era a resposta. Só poderia ser o destino. Realmente sua vida estaria para mudar completamente, Sara sentia isso, seus pelos arrepiavam, sua boca estava seca e a cada passo dado para dentro da Rua dos Encontros era um calafrio a mais.
Suas mãos desceram pela capa de chuva, se enfiaram nos bolsos da calça, e achavam a resposta no bolso direito da frente, a carta estava lá. “Número 128. É isso, não posso esquecer!” E ela andou naquela rua larga, com prédios grandes, passo a passo olhando os números decrescendo, e o ultimo que ela viu antes de mergulhar novamente em suas lembranças era o número 2480.
Ela sorria como uma criança ao ver um sorvete cheio de cobertura, e ele se aproximava mais e mais até encostar lentamente seus lábios nos dela. Suas bocas se buscavam, a mão esquerda de Marcos passeou pelo braço direito de Sara, lentamente foi subindo até os seus cabelos. Ela escorregava a mão sobre o peito de Marcos, estava vivendo um sonho.
A grama, o sol, os pássaros e aquela bela sombra sob a amendoeira, tudo parecia colaborar e celebrar o beijo proibido. Mas havia algo que eles estavam esquecendo, era o dia de despedida de Sara, as férias dos sonhos estavam acabando e seus encontros as escondidas não poderiam mais acontecer. A manhã estava acabando e seus beijos foram interrompidos pelo som de motores. Ela enfim estava voltando para casa.
Sara acordava novamente de seus pensamentos, suas lembranças que motivavam seus sonhos e toda aquela vontade de ser mais do que é. Ela deu mais um passo, atravessou mais uma rua e se deparou com o número 128 estampado na parede de um prédio de classe média. “Edifício Borges” Era demais para Sara, todos os últimos acontecimentos, aquele sobrenome, aquela carta, sua vida infernal, era tudo que ela precisava para acreditar em destino. Sara queria acreditar que agora estava parada diante de seu destino, um prédio enorme e bonito, longe da sua vida comum.
domingo, 10 de maio de 2009
Dias Noturnos - Capítulo 3 (A Carta)
“A ultima vez, aquela única vez, primeira e única vez que eu recebi uma carta. Isso faz tanto tempo...” E ela novamente caia em seus sonhos e lembranças. Sara tentava resgatar uma parte boa do seu passado.
- Uma carta para mim? Mãe, deixa eu ler!
- Só pode estar fora de si! - dizia sua mãe rindo – sou sua mãe, devo ler primeiro!
- Mas mãe, as cartas são coisas pessoais, particulares!
- Sem mais nem menos! Afinal no dia que você morar sozinha poderá ler todas as cartas que chegarem em sua casa!
- Mãe, isso não está certo! – Sara cruzava os braços.
- Se continuar reclamando não poderá ler a carta! - depois dessa frase Sara ficou em silencio e se jogou no sofá, seu rosto retratava seu mau humor, enquanto isso sua mãe olhava o remetente.. - Ah! É do seu primo Marcos! - e começou a abrir o envelope quando de repente o bendito celular da Sra. Falcão tocou, e ela esbaforida como sempre deixou a carta cair no chão e atendeu o celular. Sara deduziu que era algo muito importante pela contração dos músculos faciais de sua mãe, mas não conseguia prestar atenção em nada que ela dizia, queria mesmo saber o que estava naquela carta.
Por sorte de Sara sua mãe esqueceu completamente o que estava fazendo e saiu pela porta a fora, provavelmente algum problema nos negócios da família, Sara não quis saber, ao perceber que sua mãe não voltaria tão cedo pegou aquela carta e subiu para seu quarto tão rápida quanto a luz.
- Marcos... ai Marcos! Não poderia ser melhor... - dizia Sara espaçadamente quase sussurrando e apertando a carta contra o peito – ...receber uma carta e ainda mais sua! Gostaria que estivesse aqui. - respirou fundo e decidiu abrir a carta.
“Planícies Bonitas, 17 de Abril de 2048
Querida prima Sara,
Sinto saudades de todo o tempo que passamos juntos aqui na minha fazenda, parece que o tempo passou mais rápido do que deveria quando você estava aqui, mas acredito que seja assim sempre que nos divertimos.
Estou mandando essa carta pois não tenho noticias de você desde que vocês voltaram para casa, quando os seus pais ligaram para cá dizendo que estava tudo bem, mas eu mesmo não consegui falar com você. Receio que talvez algum impedimento maior, pois não acredito que seu coração seja tão gelado assim, sei que seus pais nunca lhe deram um computador, mas não recebi nenhuma carta nem ao menos uma ligação sua. Estou com saudades de você, principalmente da ultima semana que você passou aqui, não fizemos tudo o que queríamos, não é mesmo?
O outro motivo pelo qual escrevo essa carta é porque este ano eu estou saindo de casa, no máximo em Julho estarei começando uma nova vida bem longe daqui, queria comemorar isso junto com o seu aniversário de 16 anos, mas infelizmente não creio que isso será possível.
Minha querida, me desculpa escrever uma carta tão pequena, mas agora tenho pouco tempo e muitas coisas para fazer, principalmente se eu quiser sair daqui em Julho. Aguardo uma resposta sua, e saiba que eu adoro você.
Beijos e abraços!
Marcos Borges”
...
A luz do dia começava a entrar pelas frestas da janela e rapidamente se arrastava até o rosto de Victor, aquela luz quente e amarela que tornava a visão de dentro das pálpebras adormecidas de Victor um borrão vermelho. O incomodo fez com que o corpo adormecido despertasse, este despertou também a mente e, esta por sua vez, despertou a fome.
Sentia-se fraco, ao tentar se virar para o outro lado, sentiu seu ombro doer e o estômago roncar. De fato estava se convencendo que era a hora de levantar. Victor foi abrindo os olhos lentamente e começou a finalmente ver os detalhes do quarto ao seu redor, o piso era de madeira e bem desgastado, a janela parecia ter sido forçada para fora, pois era completamente empenada, as paredes também de madeira e com buracos espalhados sem ordem e sem lógica. Ao terminar de ver os detalhes mais distantes que não havia percebido na noite em que acordou, Victor sentou-se e voltou a olhar para cama que estava forrada de branco, o lençol que o cobria era azul claro e havia um copo cheio de agua no mesmo lugar, em cima daquela mesinha de madeira e cheia de gavetas do lado da cabeceira da cama de ferro.
Ao perceber o copo cheio de agua, sentiu sua boca seca e impulsivamente pegou o copo e virou para dentro de si. Era como beber agua depois de dias em um deserto, ou pelomenos era assim que Victor se sentia, a agua estava fresca e saiu lavando a boca e toda a garganta, ele pôde inclusive sentir a agua batendo no estômago e a sensação de frescor por todo tórax.
Agora Victor percebia que estava completamente nu, sem roupas, sapatos ou documentos e estava também limpo, no geral, não realmente limpo, mas melhor do que se lembrava. Ora, Victor lembrava claramente que estava bem sujo quando Pedro o encontrou, inclusive, sujo e bem machucado. Lentamente ele percebeu as manchas roxas, dores leves e uma mancha roxa enorme na barriga, esta chamava atenção demais, provavelmente havia algo quebrado ali, ou alguma hemorragia enorme, mas não sabia o porque não sentia dores.
Lentamente os desejos e vontades vieram ao corpo de Victor, uma a uma, enquanto ele se levantava da cama, um misto de desejos e necessidades o invadiram. Sua mente borbulhava de pensamentos instintivos, prazeres, vários tipos de desejos e sensações. Era bom e agonizante, por um instante ele sentiu aliviar-se de uma dessas necessidades momentâneas, assim acordando do transe. Algo quente percorreu suas pernas e escorreu para o chão formando uma poça amarelada, Victor acabava de satisfazer um dos seus desejos, acabava de urinar, em si mesmo.
Novamente percebeu sua fraqueza e escorou nas paredes do pequeno quarto e caminhou de vagar até a porta, nu, molhado e fedorento. Ao chegar a porta, Victor se deparou com um corredor de madeira bem simples, que se estendia primeiramente para sua direita, como olhou, e terminava em um vasculhante, a dois passos dali, cujo deixava alguns raios de sol penetrar e se estender até os pés descalços dele. Ao voltar-se para a esquerda, observou uma porta estreita a menos de um passo na outra parede, estava entreaberta, e o corredor de madeira se estendia para uma escada que descia e depois virava, tornando impossível de se observar mais qualquer coisa alem disto.
Não havia muito barulho alem do estalar da madeira velha e da respiração de Victor que depois de alguns minutos, resolveu andar até o vasculhante. Passo por passo, miúdo e lento, cauteloso e sonolento, estava fraco, tendo se aproximado da janela, se posicionou na ponta dos pés observou algo que nunca imaginaria para aquele momento. Victor se via pela primeira vez em meio a escavações, talvez uma mina. Do alto onde estava, se viam maquinas enormes, escavadeiras, caminhões e pilhas de algum material branco cujo não dava para saber aquela distancia. Ele não se demorou, sentindo-se queimar pelo sol resolveu distanciar-se da pequena janela e ir até a porta estreita que estava entreaberta.
Victor parou em frente a porta e a empurrou lentamente, estava um pouco emperrada e arrastava no chão, mas nada que o próprio peso do braço não pudesse a deslocar. Logo se deparava com um pequeno cômodo cujo era habitado por um vaso sanitário sujo, uma pia pequena com uma pasta rosa parecida com sabonete derretido em sua parte superior a esquerda e um pequeno chuveiro no canto direito, do outro lado do cômodo. Era um banheiro mal feito e improvisado, mas em sua mente borbulhava a idéia de ter água naquele chuveiro esquecido e empoeirado.
Ao escorar a porta novamente, desta vez para fecha-la, percebeu uma toalha e um macacão cinza pendurados atrás dela. Parece que não só Victor queria que ele mesmo tomasse banho. A água demorou a cair e lentamente, junto com o ar que vinha da tubulação, a água que era quente foi esfriando e Victor enfiou-se em baixo dela e a deixou correr por um longo tempo com seus olhos fechados.
...
Sara tinha muitos sonhos, mas ultimamente sua determinação para que eles se realizassem estava ficando escassa. Ela viu nos filmes que as pessoas começavam por baixo e batalhavam muito, mas um dia alguém as notava e as colocavam em lugares de destaque na sociedade. Algo dizia a Sara que aquela carta era um sinal, um sinal de que alguém notara a sua significância.
Depois de tanta hesitação, ela resolveu abaixar-se e pegar aquele envelope curioso e cinza. Não havia nenhuma referencia nele, nem para quem era, nem de quem era, nenhum endereço nem letra, nem numero, apenas um papel cinza, chuviscado, como uma televisão fora do ar. Sara o analisou por mais algum tempo, era intrigante demais.
“O que pode ser isso? Será que é realmente para mim? Não acredito que seja, mas... será que se eu abrir estarei violando a privacidade de uma outra pessoa? Se essa carta for de outra pessoa eu realmente preciso entrega-la, mas e se for para mim mesma? Pode ser um erro não abrir...”
Sara abriu cuidadosamente o envelope, de forma que pudesse o colar novamente se a mensagem não fosse para ela. Sara já tinha visto isso em filmes e não cairia em uma cilada dessas. Retirou de la de dentro com bastante cuidado um papel branco bem dobrado e o abriu lentamente. A cada dobra seu coração palpitava como se estivesse fazendo algo errado, sua respiração ficava ofegante e suas mãos suavam. Por um momento, Sara pensou que não tivesse nada escrito, até desdobrar completamente o papel e encontrar os dizeres:
“Rua dos encontros, número 128, apartamento 512. A chave está no tapete, dentro tem a próxima pista. Desafio-te a não ir.”
- Uma carta para mim? Mãe, deixa eu ler!
- Só pode estar fora de si! - dizia sua mãe rindo – sou sua mãe, devo ler primeiro!
- Mas mãe, as cartas são coisas pessoais, particulares!
- Sem mais nem menos! Afinal no dia que você morar sozinha poderá ler todas as cartas que chegarem em sua casa!
- Mãe, isso não está certo! – Sara cruzava os braços.
- Se continuar reclamando não poderá ler a carta! - depois dessa frase Sara ficou em silencio e se jogou no sofá, seu rosto retratava seu mau humor, enquanto isso sua mãe olhava o remetente.. - Ah! É do seu primo Marcos! - e começou a abrir o envelope quando de repente o bendito celular da Sra. Falcão tocou, e ela esbaforida como sempre deixou a carta cair no chão e atendeu o celular. Sara deduziu que era algo muito importante pela contração dos músculos faciais de sua mãe, mas não conseguia prestar atenção em nada que ela dizia, queria mesmo saber o que estava naquela carta.
Por sorte de Sara sua mãe esqueceu completamente o que estava fazendo e saiu pela porta a fora, provavelmente algum problema nos negócios da família, Sara não quis saber, ao perceber que sua mãe não voltaria tão cedo pegou aquela carta e subiu para seu quarto tão rápida quanto a luz.
- Marcos... ai Marcos! Não poderia ser melhor... - dizia Sara espaçadamente quase sussurrando e apertando a carta contra o peito – ...receber uma carta e ainda mais sua! Gostaria que estivesse aqui. - respirou fundo e decidiu abrir a carta.
“Planícies Bonitas, 17 de Abril de 2048
Querida prima Sara,
Sinto saudades de todo o tempo que passamos juntos aqui na minha fazenda, parece que o tempo passou mais rápido do que deveria quando você estava aqui, mas acredito que seja assim sempre que nos divertimos.
Estou mandando essa carta pois não tenho noticias de você desde que vocês voltaram para casa, quando os seus pais ligaram para cá dizendo que estava tudo bem, mas eu mesmo não consegui falar com você. Receio que talvez algum impedimento maior, pois não acredito que seu coração seja tão gelado assim, sei que seus pais nunca lhe deram um computador, mas não recebi nenhuma carta nem ao menos uma ligação sua. Estou com saudades de você, principalmente da ultima semana que você passou aqui, não fizemos tudo o que queríamos, não é mesmo?
O outro motivo pelo qual escrevo essa carta é porque este ano eu estou saindo de casa, no máximo em Julho estarei começando uma nova vida bem longe daqui, queria comemorar isso junto com o seu aniversário de 16 anos, mas infelizmente não creio que isso será possível.
Minha querida, me desculpa escrever uma carta tão pequena, mas agora tenho pouco tempo e muitas coisas para fazer, principalmente se eu quiser sair daqui em Julho. Aguardo uma resposta sua, e saiba que eu adoro você.
Beijos e abraços!
Marcos Borges”
...
A luz do dia começava a entrar pelas frestas da janela e rapidamente se arrastava até o rosto de Victor, aquela luz quente e amarela que tornava a visão de dentro das pálpebras adormecidas de Victor um borrão vermelho. O incomodo fez com que o corpo adormecido despertasse, este despertou também a mente e, esta por sua vez, despertou a fome.
Sentia-se fraco, ao tentar se virar para o outro lado, sentiu seu ombro doer e o estômago roncar. De fato estava se convencendo que era a hora de levantar. Victor foi abrindo os olhos lentamente e começou a finalmente ver os detalhes do quarto ao seu redor, o piso era de madeira e bem desgastado, a janela parecia ter sido forçada para fora, pois era completamente empenada, as paredes também de madeira e com buracos espalhados sem ordem e sem lógica. Ao terminar de ver os detalhes mais distantes que não havia percebido na noite em que acordou, Victor sentou-se e voltou a olhar para cama que estava forrada de branco, o lençol que o cobria era azul claro e havia um copo cheio de agua no mesmo lugar, em cima daquela mesinha de madeira e cheia de gavetas do lado da cabeceira da cama de ferro.
Ao perceber o copo cheio de agua, sentiu sua boca seca e impulsivamente pegou o copo e virou para dentro de si. Era como beber agua depois de dias em um deserto, ou pelomenos era assim que Victor se sentia, a agua estava fresca e saiu lavando a boca e toda a garganta, ele pôde inclusive sentir a agua batendo no estômago e a sensação de frescor por todo tórax.
Agora Victor percebia que estava completamente nu, sem roupas, sapatos ou documentos e estava também limpo, no geral, não realmente limpo, mas melhor do que se lembrava. Ora, Victor lembrava claramente que estava bem sujo quando Pedro o encontrou, inclusive, sujo e bem machucado. Lentamente ele percebeu as manchas roxas, dores leves e uma mancha roxa enorme na barriga, esta chamava atenção demais, provavelmente havia algo quebrado ali, ou alguma hemorragia enorme, mas não sabia o porque não sentia dores.
Lentamente os desejos e vontades vieram ao corpo de Victor, uma a uma, enquanto ele se levantava da cama, um misto de desejos e necessidades o invadiram. Sua mente borbulhava de pensamentos instintivos, prazeres, vários tipos de desejos e sensações. Era bom e agonizante, por um instante ele sentiu aliviar-se de uma dessas necessidades momentâneas, assim acordando do transe. Algo quente percorreu suas pernas e escorreu para o chão formando uma poça amarelada, Victor acabava de satisfazer um dos seus desejos, acabava de urinar, em si mesmo.
Novamente percebeu sua fraqueza e escorou nas paredes do pequeno quarto e caminhou de vagar até a porta, nu, molhado e fedorento. Ao chegar a porta, Victor se deparou com um corredor de madeira bem simples, que se estendia primeiramente para sua direita, como olhou, e terminava em um vasculhante, a dois passos dali, cujo deixava alguns raios de sol penetrar e se estender até os pés descalços dele. Ao voltar-se para a esquerda, observou uma porta estreita a menos de um passo na outra parede, estava entreaberta, e o corredor de madeira se estendia para uma escada que descia e depois virava, tornando impossível de se observar mais qualquer coisa alem disto.
Não havia muito barulho alem do estalar da madeira velha e da respiração de Victor que depois de alguns minutos, resolveu andar até o vasculhante. Passo por passo, miúdo e lento, cauteloso e sonolento, estava fraco, tendo se aproximado da janela, se posicionou na ponta dos pés observou algo que nunca imaginaria para aquele momento. Victor se via pela primeira vez em meio a escavações, talvez uma mina. Do alto onde estava, se viam maquinas enormes, escavadeiras, caminhões e pilhas de algum material branco cujo não dava para saber aquela distancia. Ele não se demorou, sentindo-se queimar pelo sol resolveu distanciar-se da pequena janela e ir até a porta estreita que estava entreaberta.
Victor parou em frente a porta e a empurrou lentamente, estava um pouco emperrada e arrastava no chão, mas nada que o próprio peso do braço não pudesse a deslocar. Logo se deparava com um pequeno cômodo cujo era habitado por um vaso sanitário sujo, uma pia pequena com uma pasta rosa parecida com sabonete derretido em sua parte superior a esquerda e um pequeno chuveiro no canto direito, do outro lado do cômodo. Era um banheiro mal feito e improvisado, mas em sua mente borbulhava a idéia de ter água naquele chuveiro esquecido e empoeirado.
Ao escorar a porta novamente, desta vez para fecha-la, percebeu uma toalha e um macacão cinza pendurados atrás dela. Parece que não só Victor queria que ele mesmo tomasse banho. A água demorou a cair e lentamente, junto com o ar que vinha da tubulação, a água que era quente foi esfriando e Victor enfiou-se em baixo dela e a deixou correr por um longo tempo com seus olhos fechados.
...
Sara tinha muitos sonhos, mas ultimamente sua determinação para que eles se realizassem estava ficando escassa. Ela viu nos filmes que as pessoas começavam por baixo e batalhavam muito, mas um dia alguém as notava e as colocavam em lugares de destaque na sociedade. Algo dizia a Sara que aquela carta era um sinal, um sinal de que alguém notara a sua significância.
Depois de tanta hesitação, ela resolveu abaixar-se e pegar aquele envelope curioso e cinza. Não havia nenhuma referencia nele, nem para quem era, nem de quem era, nenhum endereço nem letra, nem numero, apenas um papel cinza, chuviscado, como uma televisão fora do ar. Sara o analisou por mais algum tempo, era intrigante demais.
“O que pode ser isso? Será que é realmente para mim? Não acredito que seja, mas... será que se eu abrir estarei violando a privacidade de uma outra pessoa? Se essa carta for de outra pessoa eu realmente preciso entrega-la, mas e se for para mim mesma? Pode ser um erro não abrir...”
Sara abriu cuidadosamente o envelope, de forma que pudesse o colar novamente se a mensagem não fosse para ela. Sara já tinha visto isso em filmes e não cairia em uma cilada dessas. Retirou de la de dentro com bastante cuidado um papel branco bem dobrado e o abriu lentamente. A cada dobra seu coração palpitava como se estivesse fazendo algo errado, sua respiração ficava ofegante e suas mãos suavam. Por um momento, Sara pensou que não tivesse nada escrito, até desdobrar completamente o papel e encontrar os dizeres:
“Rua dos encontros, número 128, apartamento 512. A chave está no tapete, dentro tem a próxima pista. Desafio-te a não ir.”
quinta-feira, 7 de maio de 2009
Dias Noturnos - Capítulo 2 (Ecos)
Realmente não é muito difícil imaginar o que aconteceu dentro daquela espelunca após a confusão. Estava lá o porcão xingando e gritando com os funcionários para limparem toda aquela sujeira, extorquindo os bêbados imundos que “ajudaram” na briga e é claro...
- Eu não quero ver mais a cara desse desgraçado por aqui! E nem acredito que um covarde como aquele moleque apareça aqui novamente depois de uma surra dessas! - era nojento a forma com que ele falava as coisas, cuspia para todos os lados enquanto movia aqueles lábios gordos e mostrava aqueles dentes podres e sujos de carne. Ora, não era atoa que era conhecido como “o Porco” por toda a redondeza, ele realmente parecia um porco, aquela cara grande e gorda, aquelas roupas sujas de comida e suor, uma barriga que chegava antes dele a qualquer lugar que fosse, aquele odor por onde anda, não é preciso descrever muito para se imaginar de quem se tratava.
Aquele rapaz deu mais trabalho que Sara poderia imaginar, teve que se dividir o dia inteiro entre limpar a espelunca e servir os clientes imundos que pisavam ali. Sim, era mais um dia tão ruim quanto qualquer outro.
...
Victor sentiu-se cochilar em meio a toda aquela dor, quando sentiu algo vibrar em seu bolso, tão transtornado que estava, havia esquecido completamente do seu celular. Lentamente levou a mão ao bolso e, lutando contra as dores, conseguiu atende-lo.
- a .. lo.. - disse Victor se esforçando muito, em um sussurro longo naquela tarde de inverno.
- Victor? Onde você está, cara? Você saiu daqui igual um louco...
- Pe..dro?É você?
- Claro, cara? Não esta reconhecendo minha voz? - dizia Pedro nervoso do outro lado da linha – cara, você está bem?
- Não... não sei.. ai!
- Cara, me diz onde você está! Estou indo te encontrar agora!
- Eu não sei.. eu não sei onde estou, mas é algo com “porco”... “não sei o que do porco”.
- Vila dos Porcos?
- Eu não sei... não sei
- Tá certo, fique aí onde está, estou indo te buscar!
Antes mesmo que Victor desligasse o celular, um garoto passou correndo e arrancou este de suas mãos, e la foi ele correndo sem que Victor pudesse pensar em alcança-lo, apenas o seguiu com os olhos até a próxima esquina. Ótimo, agora ele estava sem dinheiro, arrebentado, perdido e agora sem celular, mas ainda havia uma esperança, a de que seu amigo Pedro o achasse ali, mas de tão otimista, Victor tinha quase a certeza de que estava irreconhecível e que mesmo que estivessem o procurando não o achariam, nem mesmo se falassem com ele, deveria estar irreconhecível.
É de se entender o pessimismo de Victor, mas é claro, sua mente não estava das mais saudáveis depois de tudo que havia acontecido e a cada minuto que passava, sentia-se perder as forças e foi lentamente desfalecendo. A ultima coisa que ouviu antes de desmaiar foi:
- Victor? Oh meu Deus! Vamos, me ajudem a leva-lo...
...
Estava tudo escuro, mas lentamente, bem lentamente, começou a ver formas e em não muito tempo depois percebeu que olhava para um teto escuro que não se parecia em nada com um teto de hospital. Virou-se e percebeu que estava em um quarto, uma mesinha próxima a cabeceira da cama em que estava, um copo d'água em cima dela. A claridade que entrava no quarto vinha de uma porta aberta na direção do pé da cama. Tentou se virar e sentiu a barriga doer, os braços, as pernas e também a cabeça, soltou um gemido longo, mas conseguiu se virar e, lutando contra a inércia, sentou-se na cama. Seus olhos ainda se acostumavam com a claridade enquanto ele se acostumava com as dores pelo corpo. Victor levava o copo a sua boca seca quando ouviu passos, segundos depois uma silhueta humana entrando pela porta.
- Olá, dorminhoco! - Uma voz doce demais para um homem – Achei que não acordaria mais hoje, vou ter que acender a luz... - nesse exato momento a luz invadiu os olhos de Victor e os fez arder bastante e em conjunto sua cabeça também doeu, confuso, ele foi abrindo os olhos lentamente. A luz não era nem um pouco forte, mas para que estava dormindo a um certo tempo, acender a luz incomoda.
- Quem é você? - Disse Victor, tentando se acostumar com a claridade e ver quem entrava no quarto.
- Amiga do Pedro e sua amiga também agora. - Victor teve a certeza de que não era um homem, era uma garota de cabeça raspada, não que não fosse comum, mas a principio assusta um pouco.
- Que lugar é esse? Onde está o Pedro? - disse bem confuso, levando a mão a cabeça. Ela deu um leve sorriso:
- Você faz muitas perguntas, precisa descansar um pouco. Vamos, você teve sorte de não ter quebrado nada, tome isso. - ela o mostrou um comprimido azul, pequeno e oval. Relutante, ele pegou e engoliu com o resto da agua.
Ela sorriu e agachou perto dele – Deite e relaxe mais um pouco. - ele o fez sem mais perguntas. Ela se levantou, andou até a porta e apagou a luz. - Boa noite, Victor! - Foi a ultima coisa que ele viu, logo depois ele teve a sensação de que a cama o engoliu e a voz doce dizendo “boa noite, Victor” durou a noite toda na sua cabeça, ecoando, ecoando...
...
Anoiteceu e a cidade ficou ainda mais fria, Sara recebeu seu miserável salário e partiu para casa. Ela estava no ônibus lembrando de sua família e sua infância, nunca pensou em sentir saudade daquilo tudo e mergulhou em um mar de lembranças...
- Onde está a redação que eu pedi, Sara? - Dizia aquela professora de redação com rosto duro e voz seca, olhando para ela podia-se dizer que era do tipo de pessoa que não tinha marido. Ao mesmo tempo, Sara se encolhia na cadeira, afinal tinha apenas 12 anos e aprendera com seus pais que deveria ser submissa.
- Eu.. e.. eu... eu não fiz, professora Carmem. - E encolhia-se ainda mais na cadeira com o caderno quase encobrindo o rosto enquanto toda a classe começava a rir da situação.
- Como ousa ser tão inútil? - E a cada palavra Sara diminuía-se contra a cadeira ao mesmo tempo que mais risadas soavam e bolinhas de papel voavam pelos ares – Por essa causa proíbo qualquer um de vocês que falem com esta menina, para que não se tornem inútil como ela!
Claro, naquela época Sara não entendia que a professora e o resto da turma a perseguiam e, quando comentou com seus pais, eles ainda concordaram com a professora Carmem, que de pedagogia provavelmente não entendia, porém era diretora do colégio.
Essas lembranças doíam um pouco, mesmo que agora tanto faziam continuarem existindo como serem apagadas. Talvez a única boa lembrança de Sara tenha sido as férias de verão de quando tinha 15 anos, mas quando as coisas começavam a vir em sua mente, Sara despertou de seu transe e quase perdeu o ponto.
Sara adentrava pela 30º vez aquele prédio sujo, a noite estava bem escura e as luzes fluorecentes do prédio estavam fracas como sempre. As mariposas voavam próximo aos focos de luz enquanto Sara esperava o elevador velho descer e pensava se com aquela quantia de dinheiro poderia ter um telefone, a saudade dos monstros da sua infância começava a ficar forte, pois os monstros da sua vida adulta eram muito mais feios.
...
Era quase 10h da noite quando Sara abriu a porta de casa e fez ecoar aquele barulho do ranger da madeira pelo corredor, estava muito escuro la dentro e sua mão escorregou pela parede úmida procurando o interruptor. A luz piscou e estabilizou, logo deu para ver sua pia suja, um pequeno guarda-roupa comido por cupins, dois banquinhos de madeira, o chão de taco, o fogão de duas bocas, a geladeira velha, o colchão marcado pelo corpo no meio da “sala” e é claro a entrada do minúsculo banheiro que não tinha porta nem luz.
Sara deu seu primeiro passo para dentro de casa e sentiu algo diferente sob seu pé, ora ela não morava la a tanto tempo para notar pequenas diferenças, portanto era algo realmente diferente, havia chegado uma correspondência. Ali não se pagava luz, nem agua, apenas o aluguel junto com o condomínio que era destinado para todo o resto e a cobrança era feita através de batidas bem mal-humoradas na porta aos domingos de manhã, talvez isso explicasse o choque de Sara ao receber uma carta.
Ela entrou, passou pela carta, fechou a porta e sentou-se em um daqueles banquinhos posicionando-o próximo a correspondência e ficou a observando por um bom tempo, talvez horas, talvez segundos, mas aquilo agora não fazia diferença, o tempo para ela se passava diferente do resto do mundo.
- Eu não quero ver mais a cara desse desgraçado por aqui! E nem acredito que um covarde como aquele moleque apareça aqui novamente depois de uma surra dessas! - era nojento a forma com que ele falava as coisas, cuspia para todos os lados enquanto movia aqueles lábios gordos e mostrava aqueles dentes podres e sujos de carne. Ora, não era atoa que era conhecido como “o Porco” por toda a redondeza, ele realmente parecia um porco, aquela cara grande e gorda, aquelas roupas sujas de comida e suor, uma barriga que chegava antes dele a qualquer lugar que fosse, aquele odor por onde anda, não é preciso descrever muito para se imaginar de quem se tratava.
Aquele rapaz deu mais trabalho que Sara poderia imaginar, teve que se dividir o dia inteiro entre limpar a espelunca e servir os clientes imundos que pisavam ali. Sim, era mais um dia tão ruim quanto qualquer outro.
...
Victor sentiu-se cochilar em meio a toda aquela dor, quando sentiu algo vibrar em seu bolso, tão transtornado que estava, havia esquecido completamente do seu celular. Lentamente levou a mão ao bolso e, lutando contra as dores, conseguiu atende-lo.
- a .. lo.. - disse Victor se esforçando muito, em um sussurro longo naquela tarde de inverno.
- Victor? Onde você está, cara? Você saiu daqui igual um louco...
- Pe..dro?É você?
- Claro, cara? Não esta reconhecendo minha voz? - dizia Pedro nervoso do outro lado da linha – cara, você está bem?
- Não... não sei.. ai!
- Cara, me diz onde você está! Estou indo te encontrar agora!
- Eu não sei.. eu não sei onde estou, mas é algo com “porco”... “não sei o que do porco”.
- Vila dos Porcos?
- Eu não sei... não sei
- Tá certo, fique aí onde está, estou indo te buscar!
Antes mesmo que Victor desligasse o celular, um garoto passou correndo e arrancou este de suas mãos, e la foi ele correndo sem que Victor pudesse pensar em alcança-lo, apenas o seguiu com os olhos até a próxima esquina. Ótimo, agora ele estava sem dinheiro, arrebentado, perdido e agora sem celular, mas ainda havia uma esperança, a de que seu amigo Pedro o achasse ali, mas de tão otimista, Victor tinha quase a certeza de que estava irreconhecível e que mesmo que estivessem o procurando não o achariam, nem mesmo se falassem com ele, deveria estar irreconhecível.
É de se entender o pessimismo de Victor, mas é claro, sua mente não estava das mais saudáveis depois de tudo que havia acontecido e a cada minuto que passava, sentia-se perder as forças e foi lentamente desfalecendo. A ultima coisa que ouviu antes de desmaiar foi:
- Victor? Oh meu Deus! Vamos, me ajudem a leva-lo...
...
Estava tudo escuro, mas lentamente, bem lentamente, começou a ver formas e em não muito tempo depois percebeu que olhava para um teto escuro que não se parecia em nada com um teto de hospital. Virou-se e percebeu que estava em um quarto, uma mesinha próxima a cabeceira da cama em que estava, um copo d'água em cima dela. A claridade que entrava no quarto vinha de uma porta aberta na direção do pé da cama. Tentou se virar e sentiu a barriga doer, os braços, as pernas e também a cabeça, soltou um gemido longo, mas conseguiu se virar e, lutando contra a inércia, sentou-se na cama. Seus olhos ainda se acostumavam com a claridade enquanto ele se acostumava com as dores pelo corpo. Victor levava o copo a sua boca seca quando ouviu passos, segundos depois uma silhueta humana entrando pela porta.
- Olá, dorminhoco! - Uma voz doce demais para um homem – Achei que não acordaria mais hoje, vou ter que acender a luz... - nesse exato momento a luz invadiu os olhos de Victor e os fez arder bastante e em conjunto sua cabeça também doeu, confuso, ele foi abrindo os olhos lentamente. A luz não era nem um pouco forte, mas para que estava dormindo a um certo tempo, acender a luz incomoda.
- Quem é você? - Disse Victor, tentando se acostumar com a claridade e ver quem entrava no quarto.
- Amiga do Pedro e sua amiga também agora. - Victor teve a certeza de que não era um homem, era uma garota de cabeça raspada, não que não fosse comum, mas a principio assusta um pouco.
- Que lugar é esse? Onde está o Pedro? - disse bem confuso, levando a mão a cabeça. Ela deu um leve sorriso:
- Você faz muitas perguntas, precisa descansar um pouco. Vamos, você teve sorte de não ter quebrado nada, tome isso. - ela o mostrou um comprimido azul, pequeno e oval. Relutante, ele pegou e engoliu com o resto da agua.
Ela sorriu e agachou perto dele – Deite e relaxe mais um pouco. - ele o fez sem mais perguntas. Ela se levantou, andou até a porta e apagou a luz. - Boa noite, Victor! - Foi a ultima coisa que ele viu, logo depois ele teve a sensação de que a cama o engoliu e a voz doce dizendo “boa noite, Victor” durou a noite toda na sua cabeça, ecoando, ecoando...
...
Anoiteceu e a cidade ficou ainda mais fria, Sara recebeu seu miserável salário e partiu para casa. Ela estava no ônibus lembrando de sua família e sua infância, nunca pensou em sentir saudade daquilo tudo e mergulhou em um mar de lembranças...
- Onde está a redação que eu pedi, Sara? - Dizia aquela professora de redação com rosto duro e voz seca, olhando para ela podia-se dizer que era do tipo de pessoa que não tinha marido. Ao mesmo tempo, Sara se encolhia na cadeira, afinal tinha apenas 12 anos e aprendera com seus pais que deveria ser submissa.
- Eu.. e.. eu... eu não fiz, professora Carmem. - E encolhia-se ainda mais na cadeira com o caderno quase encobrindo o rosto enquanto toda a classe começava a rir da situação.
- Como ousa ser tão inútil? - E a cada palavra Sara diminuía-se contra a cadeira ao mesmo tempo que mais risadas soavam e bolinhas de papel voavam pelos ares – Por essa causa proíbo qualquer um de vocês que falem com esta menina, para que não se tornem inútil como ela!
Claro, naquela época Sara não entendia que a professora e o resto da turma a perseguiam e, quando comentou com seus pais, eles ainda concordaram com a professora Carmem, que de pedagogia provavelmente não entendia, porém era diretora do colégio.
Essas lembranças doíam um pouco, mesmo que agora tanto faziam continuarem existindo como serem apagadas. Talvez a única boa lembrança de Sara tenha sido as férias de verão de quando tinha 15 anos, mas quando as coisas começavam a vir em sua mente, Sara despertou de seu transe e quase perdeu o ponto.
Sara adentrava pela 30º vez aquele prédio sujo, a noite estava bem escura e as luzes fluorecentes do prédio estavam fracas como sempre. As mariposas voavam próximo aos focos de luz enquanto Sara esperava o elevador velho descer e pensava se com aquela quantia de dinheiro poderia ter um telefone, a saudade dos monstros da sua infância começava a ficar forte, pois os monstros da sua vida adulta eram muito mais feios.
...
Era quase 10h da noite quando Sara abriu a porta de casa e fez ecoar aquele barulho do ranger da madeira pelo corredor, estava muito escuro la dentro e sua mão escorregou pela parede úmida procurando o interruptor. A luz piscou e estabilizou, logo deu para ver sua pia suja, um pequeno guarda-roupa comido por cupins, dois banquinhos de madeira, o chão de taco, o fogão de duas bocas, a geladeira velha, o colchão marcado pelo corpo no meio da “sala” e é claro a entrada do minúsculo banheiro que não tinha porta nem luz.
Sara deu seu primeiro passo para dentro de casa e sentiu algo diferente sob seu pé, ora ela não morava la a tanto tempo para notar pequenas diferenças, portanto era algo realmente diferente, havia chegado uma correspondência. Ali não se pagava luz, nem agua, apenas o aluguel junto com o condomínio que era destinado para todo o resto e a cobrança era feita através de batidas bem mal-humoradas na porta aos domingos de manhã, talvez isso explicasse o choque de Sara ao receber uma carta.
Ela entrou, passou pela carta, fechou a porta e sentou-se em um daqueles banquinhos posicionando-o próximo a correspondência e ficou a observando por um bom tempo, talvez horas, talvez segundos, mas aquilo agora não fazia diferença, o tempo para ela se passava diferente do resto do mundo.
segunda-feira, 4 de maio de 2009
Dias Noturnos - Capítulo 1 (A Primeira Queda)
Eram tempos difíceis, ele frustrado, sem dinheiro e correndo risco de perder o emprego, ela longe da família encarando solidão, angustias e nostalgias. Antes a casa era cheia, agora é só ela e os poucos móveis.
Era assim, o inverno castigava a cidade, aquela chuva fina, por um momento era possível pensar que não havia mais uma viva alma naquela metrópole, mas o pensamento era interrompido pela próxima buzina. Os gatos namorando no telhado, o barulho dos carros passando nas poças d'água, nem parecia aquela rua tão movimentada de horas atrás, aquela rua engarrafada, cheia de pequenos e grandes veículos enfileirados em uma tortura barulhenta, agora passavam bem rápidos e espaçados, podia-se dizer olhando pela janela que durante uns segundos ficava-se diante de um deserto urbano.
Os dois sofriam calados, estavam cansados de procurar, cansados de se iludir, cansados daquele ano que mal havia chegado a metade e talvez fosse melhor nem ter começado. Eram as primeiras horas daquela quarta-feira quando ela se lembrou que deveria dormir e quando ele começou a trabalhar, estavam cansados de pensar, ela tomou um tarja preta e ele um café amargo e sentou no computador e assim terminava aquela noite, que seria mal dormida para ela e perdida para ele.
...
- Ah não! - Ela acordou e deu um tapa no despertador, aquele barulho irritante a acordou subitamente e ainda estava ecoando na sua cabeça. Quando ele parou de apitar ela olhou novamente, 5:30h da manhã. A contragosto se levantou, agradeceu mais uma vez por estar viva e abriu a cortina.
O sol novamente não quis aparecer, a manhã estava cinza e cheia de nuvens e ainda bem escura. Ela andou até a cozinha colocou a água no fogo e foi para o banho, ainda sonolenta deixou que a agua morna a acordasse. Estava frio e o vapor de agua quente foi esfriando, esfriando e ela se enrolou na toalha antes que estivesse toda arrepiada, se vestiu rápido e correu para a cozinha para apagar o fogo da água que estava fervendo.
Quando se tem um sonho, não se deve abandona-lo por ser difícil de conquistar, ou por ser absurdo, ou porque você vai morrer tentando. Pelomenos era isso que Sara tentava colocar na sua cabeça todos os dias, e percebia que enquanto fazia isso o café esfriava e ficava insuportável. Quando você mora em um quitinete fedorento, com o encanamento todo estourado, paredes escuras, em um lugar feio e perigoso da cidade, um emprego de merda e um salário pior ainda, fica difícil sonhar com algo melhor. Mas acredite, Sara conseguia fazê-lo, ainda assim sabendo que tudo poderia piorar.
Estava a um mês naquela situação, acordava de madrugada, pegava um ônibus lotado, uma hora e meia de engarrafamento, enfrentava umas louças sujas e fedorentas na Vila dos Porcos e um patrão feio, gordo e ignorante durante o dia inteiro. Sem receber hora extra ou qualquer tipo de outro beneficio alem do pior almoço que já comera na vida. As 20h largava aquela espelunca e voltava para o seu lar, se é que aquele quitinete poderia ser chamado de alguma coisa alem de muquifo.
Nessa altura da sua horrorosa estadia na metrópole, Sara não conseguiria dizer se o que estava vivendo era positivo ou não, a um mês atrás, em sua pequena cidade, muito longe de lá, em sua casa ampla, junto aos seus pais opressores e conservadores e nada compreensivos, ela achava que acabava de comprar sua liberdade, sua independência. Sara só sabia que não havia feito a melhor troca do mundo, mesmo que seus pais fossem chatos, fechados e nada flexíveis, ela percebia agora que estava vivendo em um regime ditatorial completamente diferente dos seus pais, que mesmo todos os adjetivos anteriores não a fariam mal, nada alem de uns tapas, umas broncas e um casamento arranjado. Agora ela realmente poderia pensar em viver pesadelos, e nem sonhar em voltar para casa dos pais, seria inaceitável para eles que sua filha voltasse para casa com a mão na frente e outra atrás, seria como pedir para que eles a expulsassem de casa e definitivamente.
Naquele ônibus lotado, Sara só tinha uma certeza, a escolha que ela fez era definitiva e não importava mais se era melhor ou não, só restava sonhar e agir. O ponto chegou, ela foi empurrada para fora, sentiu aquela fria garoa de Julho tocar seus cabelos e ombros, e como nada é da melhor forma possível a chuva aumentou, ela e uma multidão de pessoas correram para as marquises se abrigar daquela chuva horrorosa e de pingos escuros. Você já deve ter sentido cheiro podre na água, em rios, no mar, mas e na chuva? Sara e uma multidão de pessoas na Vila do Porco estavam no meio de uma chuva tóxica, poluída, fétida e nojenta.
Para a sorte das pessoas pobres e sujas que vagavam pela Vila dos Porcos a chuva passou em poucos e longos minutos. Logo as pessoas voltavam a andar entre a feira, ruas esburacadas, carros velhos, mendigos e cães doentes e cheios de feridas, lixo, bichos nojentos, como baratas e ratos imundos, e por que não? Água da chuva. Ora, ninguém saía mais de casa sem uma bota impermeável e uma boa capa de chuva, ou pelomenos, a melhor que se poderia comprar.
E pela 30ª vez, ela entrava por aquela porta escura, o vento frio e molhado ficara do lado de fora, e Sara era agora envolvida por um bafo quente, seria até confortável se o cheiro que acompanhasse o bafo quente não fosse o de carne estragada e nem a primeira visão que ela tivesse fosse a cara carrancuda, gorda e suja do “porco rei”, seu chefe.
- Está atrasada, vadia! - Era a forma mais carinhosa que ele havia dado “bom dia” desde o primeiro dia de trabalho. É estranho, mas quando esse é o único lugar que aceitam sua mão de obra alem de casas de prostituição, você acaba se acostumando. Pelomenos o porco xingava, mas não batia, era mais uma coisa a se considerar.
E lentamente o dia se passou até a hora do almoço, louça após louça, elogios e cantadas sujas dos melhores clientes daquela espelunca, um dia normal para seus novos padrões de vida.
...
Para pessoas solitárias e que tinham um certo nível social, a internet era uma companhia, e era exatamente onde ele estava naquela madrugada fria, após terminar um maldito relatório. Uma tela cheia de letrinhas e imagens coloridas, pessoas que parecem reais, realidades falsas e todas as regalias de mentes solitárias que gostam de imaginar algo melhor. Mesmo rodeado de toda aquela informação, Victor não sonhava como Sara, toda vez que parava pra pensar se deprimia, então, se refugiava no mundo virtual, perdendo noites e mais noites procurando sonhos alheios, pois não suportava a idéia de que seu sonho era impossível.
E assim, como todas as noites, sem perceber adormecera sobre o teclado. Horas se passaram, mas quando o telefone tocou pareciam apenas poucos segundos, o sono era tão profundo que Victor não se recordava de nenhum sonho, na verdade ele não se lembrava de nenhum sonho, talvez não sonhasse a meses. Próximo ao 5º toque, Victor colocou o estridente telefone no ouvido.
- ... alo... – disse Victor completamente sonolento.
- Victor? Onde você anda com a cabeça?
- Pedro? O que que houve?
- Acorda, cara! Não vou cuidar de você a vida toda, o chefe está louco atrás de você! Vem pra cá agora!
As palavras de Pedro ecoaram em sua cabeça, dez, vinte vezes, parecia um sonho. Talvez esse fosse o desejo de Victor, que quando percebeu que não era um sonho não teve muito tempo para se lamentar. Correu até o carro, sem nem perceber como estava vestido, por sorte ou azar estava com a roupa de ontem e corria desesperado pelos inúmeros atalhos e ruas estreitas até o trabalho bem no centro da cidade. Não no centro majestoso, quase bonito e cinza da cidade, mas próximo a ele, na área norte, onde os prédios não são tão altos nem tão bonitos, onde um dia distante fora o real centro da cidade, mas agora não passava da área mais barata.
Duas quadras antes do prédio, Victor perdeu o controle do carro, rodou e bateu de frente no poste do outro lado da rua, no sentido contrario do que deveria ir naquele cruzamento. Pronto, realmente tudo pode ficar pior. Sem pensar muito, ainda cambaleando, Victor pegou suas coisas e partiu para o maldito prédio. Mesmo mancando e se sentindo sem ar, ele corria. Atravessou a rua, quase foi atropelado duas vezes e chegou ofegante e sujo ao grande Edifício Cina. 10 andares de paredes sujas, elevadores em péssimo estado, pessoas patéticas, câmeras velhas e recepcionistas que sempre perguntavam seu nome mesmo o vendo todos os dias de todas aquelas infernais semanas durante mais de um ano.
Alguma vez você já passou por uma situação como essa? Imagine todas as pessoas a sua volta te olhando com nojo ou pena. Pois bem, é exatamente o que Victor estava passando. Sentia-se feder, suar, cambalear e acima de tudo sentia muita vergonha, se sentia um completo idiota e no seu rosto estava estampado o que iria acontecer em um futuro bem próximo.
Victor avistou Pedro vindo em sua direção no momento em que tropeçava no tapete no cruzamento dos corredores das divisórias. É exatamente isso, Victor descobriu que odiava cruzamentos, sejam eles quais forem. Seu peso derrubou uma divisória inteira, uma mesa e dois computadores. Sem forças para levantar, ele ficou onde estava e logo uma rodinha de engravatados estava de pé diante dele. Minutos depois as vozes se confundiam na sua cabeça e uma mão o ajudou a levantar, era Pedro, talvez seu único amigo em toda sua vida. Mal pode ficar de pé quando o ...
- Victor Brahms, seu estúpido! Eu não quero arriscar todo meu departamento por sua causa mais uma vez, olha o que você fez! Inútil e burro, é isso que você é! Está demitido! D-E-M-I-T-I-D-O! - aquelas palavras continuaram reverberando em sua cabeça, ele estava completamente sem forças para contra-atacar todas aquelas afrontas e nem conseguiria explicar o motivo de todo o estrago. Mas Victor estava certo de que agora, estava vivendo um pesadelo. Enquanto ele cambaleava para a porta do elevador o chefe gordo esbravejava, xingava e agredia o tempo todo, mas Victor não o ouvia mais, estava perdido dentro de si mesmo.
Ele começou a vagar pelas ruas e por seus pensamentos, se sentia realmente inútil, incompetente e covarde. Covarde por aceitar todas as imposições daquele chefe egoísta e megalomaníaco, incompetente por não conseguir executar as coisas como se propunha a fazer e por ultimo, inútil, agora ele sentia que não poderia fazer nada para mudar a sua situação nada confortável. Sem carro, sem emprego e futuramente sem dinheiro. Victor queria sumir, desaparecer, e sem perceber ele estava fazendo isso, cada vez entrava mais fundo no cinza escuro do subúrbio da cidade.
Já passara do meio-dia quando Victor percebeu que a ultima vez que ingeriu alguma coisa foi na madrugada anterior e mesmo assim, uma xícara de café. A fome despertou a mente de Victor daquele pesadelo acordado e ele se viu em um lugar completamente estranho, não sabia como havia chegado ali, mas já que se encontrava lá e com fome, examinou seus bolsos, achou uns trocados que talvez dessem para um lanche e caminhou para uma birosca (ou algo parecido) chamada “Pé de Porco”.
...
Sara estava terminando seu almoço, aquela papa rançosa e marrom-escura que ela tinha que comer todo dia se não quisesse passar fome. Nos primeiros dias a cada colherada ela quase vomitava, agora era como se não sentisse mais gosto, acostumou-se aquele amargo, rançoso e fedorento mingau. Mas isso não era privilegio dela, todos ali comiam a mesma coisa. O João, garçom que ajudava Sara, a cozinheira Beth e até mesmo alguns clientes.
Ao se levantar do balcão, Sara viu um homem cambaleando entrar pela porta, todo sujo da agua da chuva, olheiras enormes, cabelo desgrenhado e um olhar distante. Cabelos pretos, olhos escuros, roupa social (ou pelomenos um dia foi uma roupa social), dava para ver que a blusa tinha sido azul e a calça preta, trazia um óculos quebrado na face e uma expressão cansada, apesar de um rosto tão novo. Este foi cambaleando até o balcão, sentou-se em um daqueles bancos, debruçou sobre o balcão e tentou dizer algo.
- ... ca.. por favor... - sentia-se tremer, bateu no balcão e disse alto – UM CAFÉ!!! - e logo após jogou uns trocados embolados no balcão e disse mais – E algo comestível! Com isso! - qualquer um poderia perceber que se tratava de um rapaz consternado. Logo Sara veio ao seu auxilio.
Quando Victor se deparou com aquela moça de cabelos mal-tratados, roupas também sujas e olhos tristes com uma xícara de café em suas mãos ele desatou a chorar e escondeu seu rosto em seus braços.
Sara sem saber muito o que fazer, deixou o café do moço sobre o balcão, próximo a ele e foi pegar um pão para o homem, que mesmo agressivo e estranho, ela poderia dizer que seria o melhor cliente que entrara ali nos últimos 30 dias. Ao se aproximar com o lanche:
- Está tudo bem com você? - ela pensava em tocar o seu braço quando o rapaz levantou enxugando as lágrimas.
- Não, mas obrigado – ele não a encarava e estava extremamente sério, se antes seu sonho era impossível, agora ele havia o abandonado completamente, seu novo sonho era conseguir sobreviver naquela selva, seria muito pior que uma ovelha dentro de uma matilha. Victor nunca havia sequer brincado na rua quando era criança, cresceu dentro de um apartamento jogando video-games, vendo filmes e telejornais que diziam o suficiente para ele nunca encarar as ruas. Mas ali estava ele, sem alternativas, perdido, sem dinheiro e sem saber o caminho de casa.
Enquanto Victor estava perdido em seus pensamentos, Sara estava perdida em suas louças dentro da cozinha imunda do Pé de Porco, quando Beth chegou.
- Você viu o rapaz estranho sentado no balcão?
- Vi sim, Beth. E por mais estranho que pareça foi o cliente que melhor me tratou desde que eu entrei aqui.
Elas não trocaram muitas palavras quando ouviram uma gritaria e barulho de copos, cadeiras e pratos quebrando. Não foi difícil saber o que havia acontecido, o Porco destratou o rapaz chorão e eles começaram uma briga que logo todos os bêbados imundos aderiram, em poucos segundos Victor estava com a cara toda estourada, manchas roxas por todo corpo e do lado de fora do Pé de Porco, naquele chão imundo e com aquela fina garoa gelada tocando-lhe a face ensangüentada.
Antes mesmo de imaginar como seria aquela vida de cão, Victor já estava experimentando dela. Talvez tenha sido melhor assim, pelomenos ele agora estava remoendo os socos e os pontapés em vez da sua nova e mais ainda amarga vida pelas ruas daquela grande metrópole.
Era assim, o inverno castigava a cidade, aquela chuva fina, por um momento era possível pensar que não havia mais uma viva alma naquela metrópole, mas o pensamento era interrompido pela próxima buzina. Os gatos namorando no telhado, o barulho dos carros passando nas poças d'água, nem parecia aquela rua tão movimentada de horas atrás, aquela rua engarrafada, cheia de pequenos e grandes veículos enfileirados em uma tortura barulhenta, agora passavam bem rápidos e espaçados, podia-se dizer olhando pela janela que durante uns segundos ficava-se diante de um deserto urbano.
Os dois sofriam calados, estavam cansados de procurar, cansados de se iludir, cansados daquele ano que mal havia chegado a metade e talvez fosse melhor nem ter começado. Eram as primeiras horas daquela quarta-feira quando ela se lembrou que deveria dormir e quando ele começou a trabalhar, estavam cansados de pensar, ela tomou um tarja preta e ele um café amargo e sentou no computador e assim terminava aquela noite, que seria mal dormida para ela e perdida para ele.
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- Ah não! - Ela acordou e deu um tapa no despertador, aquele barulho irritante a acordou subitamente e ainda estava ecoando na sua cabeça. Quando ele parou de apitar ela olhou novamente, 5:30h da manhã. A contragosto se levantou, agradeceu mais uma vez por estar viva e abriu a cortina.
O sol novamente não quis aparecer, a manhã estava cinza e cheia de nuvens e ainda bem escura. Ela andou até a cozinha colocou a água no fogo e foi para o banho, ainda sonolenta deixou que a agua morna a acordasse. Estava frio e o vapor de agua quente foi esfriando, esfriando e ela se enrolou na toalha antes que estivesse toda arrepiada, se vestiu rápido e correu para a cozinha para apagar o fogo da água que estava fervendo.
Quando se tem um sonho, não se deve abandona-lo por ser difícil de conquistar, ou por ser absurdo, ou porque você vai morrer tentando. Pelomenos era isso que Sara tentava colocar na sua cabeça todos os dias, e percebia que enquanto fazia isso o café esfriava e ficava insuportável. Quando você mora em um quitinete fedorento, com o encanamento todo estourado, paredes escuras, em um lugar feio e perigoso da cidade, um emprego de merda e um salário pior ainda, fica difícil sonhar com algo melhor. Mas acredite, Sara conseguia fazê-lo, ainda assim sabendo que tudo poderia piorar.
Estava a um mês naquela situação, acordava de madrugada, pegava um ônibus lotado, uma hora e meia de engarrafamento, enfrentava umas louças sujas e fedorentas na Vila dos Porcos e um patrão feio, gordo e ignorante durante o dia inteiro. Sem receber hora extra ou qualquer tipo de outro beneficio alem do pior almoço que já comera na vida. As 20h largava aquela espelunca e voltava para o seu lar, se é que aquele quitinete poderia ser chamado de alguma coisa alem de muquifo.
Nessa altura da sua horrorosa estadia na metrópole, Sara não conseguiria dizer se o que estava vivendo era positivo ou não, a um mês atrás, em sua pequena cidade, muito longe de lá, em sua casa ampla, junto aos seus pais opressores e conservadores e nada compreensivos, ela achava que acabava de comprar sua liberdade, sua independência. Sara só sabia que não havia feito a melhor troca do mundo, mesmo que seus pais fossem chatos, fechados e nada flexíveis, ela percebia agora que estava vivendo em um regime ditatorial completamente diferente dos seus pais, que mesmo todos os adjetivos anteriores não a fariam mal, nada alem de uns tapas, umas broncas e um casamento arranjado. Agora ela realmente poderia pensar em viver pesadelos, e nem sonhar em voltar para casa dos pais, seria inaceitável para eles que sua filha voltasse para casa com a mão na frente e outra atrás, seria como pedir para que eles a expulsassem de casa e definitivamente.
Naquele ônibus lotado, Sara só tinha uma certeza, a escolha que ela fez era definitiva e não importava mais se era melhor ou não, só restava sonhar e agir. O ponto chegou, ela foi empurrada para fora, sentiu aquela fria garoa de Julho tocar seus cabelos e ombros, e como nada é da melhor forma possível a chuva aumentou, ela e uma multidão de pessoas correram para as marquises se abrigar daquela chuva horrorosa e de pingos escuros. Você já deve ter sentido cheiro podre na água, em rios, no mar, mas e na chuva? Sara e uma multidão de pessoas na Vila do Porco estavam no meio de uma chuva tóxica, poluída, fétida e nojenta.
Para a sorte das pessoas pobres e sujas que vagavam pela Vila dos Porcos a chuva passou em poucos e longos minutos. Logo as pessoas voltavam a andar entre a feira, ruas esburacadas, carros velhos, mendigos e cães doentes e cheios de feridas, lixo, bichos nojentos, como baratas e ratos imundos, e por que não? Água da chuva. Ora, ninguém saía mais de casa sem uma bota impermeável e uma boa capa de chuva, ou pelomenos, a melhor que se poderia comprar.
E pela 30ª vez, ela entrava por aquela porta escura, o vento frio e molhado ficara do lado de fora, e Sara era agora envolvida por um bafo quente, seria até confortável se o cheiro que acompanhasse o bafo quente não fosse o de carne estragada e nem a primeira visão que ela tivesse fosse a cara carrancuda, gorda e suja do “porco rei”, seu chefe.
- Está atrasada, vadia! - Era a forma mais carinhosa que ele havia dado “bom dia” desde o primeiro dia de trabalho. É estranho, mas quando esse é o único lugar que aceitam sua mão de obra alem de casas de prostituição, você acaba se acostumando. Pelomenos o porco xingava, mas não batia, era mais uma coisa a se considerar.
E lentamente o dia se passou até a hora do almoço, louça após louça, elogios e cantadas sujas dos melhores clientes daquela espelunca, um dia normal para seus novos padrões de vida.
...
Para pessoas solitárias e que tinham um certo nível social, a internet era uma companhia, e era exatamente onde ele estava naquela madrugada fria, após terminar um maldito relatório. Uma tela cheia de letrinhas e imagens coloridas, pessoas que parecem reais, realidades falsas e todas as regalias de mentes solitárias que gostam de imaginar algo melhor. Mesmo rodeado de toda aquela informação, Victor não sonhava como Sara, toda vez que parava pra pensar se deprimia, então, se refugiava no mundo virtual, perdendo noites e mais noites procurando sonhos alheios, pois não suportava a idéia de que seu sonho era impossível.
E assim, como todas as noites, sem perceber adormecera sobre o teclado. Horas se passaram, mas quando o telefone tocou pareciam apenas poucos segundos, o sono era tão profundo que Victor não se recordava de nenhum sonho, na verdade ele não se lembrava de nenhum sonho, talvez não sonhasse a meses. Próximo ao 5º toque, Victor colocou o estridente telefone no ouvido.
- ... alo... – disse Victor completamente sonolento.
- Victor? Onde você anda com a cabeça?
- Pedro? O que que houve?
- Acorda, cara! Não vou cuidar de você a vida toda, o chefe está louco atrás de você! Vem pra cá agora!
As palavras de Pedro ecoaram em sua cabeça, dez, vinte vezes, parecia um sonho. Talvez esse fosse o desejo de Victor, que quando percebeu que não era um sonho não teve muito tempo para se lamentar. Correu até o carro, sem nem perceber como estava vestido, por sorte ou azar estava com a roupa de ontem e corria desesperado pelos inúmeros atalhos e ruas estreitas até o trabalho bem no centro da cidade. Não no centro majestoso, quase bonito e cinza da cidade, mas próximo a ele, na área norte, onde os prédios não são tão altos nem tão bonitos, onde um dia distante fora o real centro da cidade, mas agora não passava da área mais barata.
Duas quadras antes do prédio, Victor perdeu o controle do carro, rodou e bateu de frente no poste do outro lado da rua, no sentido contrario do que deveria ir naquele cruzamento. Pronto, realmente tudo pode ficar pior. Sem pensar muito, ainda cambaleando, Victor pegou suas coisas e partiu para o maldito prédio. Mesmo mancando e se sentindo sem ar, ele corria. Atravessou a rua, quase foi atropelado duas vezes e chegou ofegante e sujo ao grande Edifício Cina. 10 andares de paredes sujas, elevadores em péssimo estado, pessoas patéticas, câmeras velhas e recepcionistas que sempre perguntavam seu nome mesmo o vendo todos os dias de todas aquelas infernais semanas durante mais de um ano.
Alguma vez você já passou por uma situação como essa? Imagine todas as pessoas a sua volta te olhando com nojo ou pena. Pois bem, é exatamente o que Victor estava passando. Sentia-se feder, suar, cambalear e acima de tudo sentia muita vergonha, se sentia um completo idiota e no seu rosto estava estampado o que iria acontecer em um futuro bem próximo.
Victor avistou Pedro vindo em sua direção no momento em que tropeçava no tapete no cruzamento dos corredores das divisórias. É exatamente isso, Victor descobriu que odiava cruzamentos, sejam eles quais forem. Seu peso derrubou uma divisória inteira, uma mesa e dois computadores. Sem forças para levantar, ele ficou onde estava e logo uma rodinha de engravatados estava de pé diante dele. Minutos depois as vozes se confundiam na sua cabeça e uma mão o ajudou a levantar, era Pedro, talvez seu único amigo em toda sua vida. Mal pode ficar de pé quando o ...
- Victor Brahms, seu estúpido! Eu não quero arriscar todo meu departamento por sua causa mais uma vez, olha o que você fez! Inútil e burro, é isso que você é! Está demitido! D-E-M-I-T-I-D-O! - aquelas palavras continuaram reverberando em sua cabeça, ele estava completamente sem forças para contra-atacar todas aquelas afrontas e nem conseguiria explicar o motivo de todo o estrago. Mas Victor estava certo de que agora, estava vivendo um pesadelo. Enquanto ele cambaleava para a porta do elevador o chefe gordo esbravejava, xingava e agredia o tempo todo, mas Victor não o ouvia mais, estava perdido dentro de si mesmo.
Ele começou a vagar pelas ruas e por seus pensamentos, se sentia realmente inútil, incompetente e covarde. Covarde por aceitar todas as imposições daquele chefe egoísta e megalomaníaco, incompetente por não conseguir executar as coisas como se propunha a fazer e por ultimo, inútil, agora ele sentia que não poderia fazer nada para mudar a sua situação nada confortável. Sem carro, sem emprego e futuramente sem dinheiro. Victor queria sumir, desaparecer, e sem perceber ele estava fazendo isso, cada vez entrava mais fundo no cinza escuro do subúrbio da cidade.
Já passara do meio-dia quando Victor percebeu que a ultima vez que ingeriu alguma coisa foi na madrugada anterior e mesmo assim, uma xícara de café. A fome despertou a mente de Victor daquele pesadelo acordado e ele se viu em um lugar completamente estranho, não sabia como havia chegado ali, mas já que se encontrava lá e com fome, examinou seus bolsos, achou uns trocados que talvez dessem para um lanche e caminhou para uma birosca (ou algo parecido) chamada “Pé de Porco”.
...
Sara estava terminando seu almoço, aquela papa rançosa e marrom-escura que ela tinha que comer todo dia se não quisesse passar fome. Nos primeiros dias a cada colherada ela quase vomitava, agora era como se não sentisse mais gosto, acostumou-se aquele amargo, rançoso e fedorento mingau. Mas isso não era privilegio dela, todos ali comiam a mesma coisa. O João, garçom que ajudava Sara, a cozinheira Beth e até mesmo alguns clientes.
Ao se levantar do balcão, Sara viu um homem cambaleando entrar pela porta, todo sujo da agua da chuva, olheiras enormes, cabelo desgrenhado e um olhar distante. Cabelos pretos, olhos escuros, roupa social (ou pelomenos um dia foi uma roupa social), dava para ver que a blusa tinha sido azul e a calça preta, trazia um óculos quebrado na face e uma expressão cansada, apesar de um rosto tão novo. Este foi cambaleando até o balcão, sentou-se em um daqueles bancos, debruçou sobre o balcão e tentou dizer algo.
- ... ca.. por favor... - sentia-se tremer, bateu no balcão e disse alto – UM CAFÉ!!! - e logo após jogou uns trocados embolados no balcão e disse mais – E algo comestível! Com isso! - qualquer um poderia perceber que se tratava de um rapaz consternado. Logo Sara veio ao seu auxilio.
Quando Victor se deparou com aquela moça de cabelos mal-tratados, roupas também sujas e olhos tristes com uma xícara de café em suas mãos ele desatou a chorar e escondeu seu rosto em seus braços.
Sara sem saber muito o que fazer, deixou o café do moço sobre o balcão, próximo a ele e foi pegar um pão para o homem, que mesmo agressivo e estranho, ela poderia dizer que seria o melhor cliente que entrara ali nos últimos 30 dias. Ao se aproximar com o lanche:
- Está tudo bem com você? - ela pensava em tocar o seu braço quando o rapaz levantou enxugando as lágrimas.
- Não, mas obrigado – ele não a encarava e estava extremamente sério, se antes seu sonho era impossível, agora ele havia o abandonado completamente, seu novo sonho era conseguir sobreviver naquela selva, seria muito pior que uma ovelha dentro de uma matilha. Victor nunca havia sequer brincado na rua quando era criança, cresceu dentro de um apartamento jogando video-games, vendo filmes e telejornais que diziam o suficiente para ele nunca encarar as ruas. Mas ali estava ele, sem alternativas, perdido, sem dinheiro e sem saber o caminho de casa.
Enquanto Victor estava perdido em seus pensamentos, Sara estava perdida em suas louças dentro da cozinha imunda do Pé de Porco, quando Beth chegou.
- Você viu o rapaz estranho sentado no balcão?
- Vi sim, Beth. E por mais estranho que pareça foi o cliente que melhor me tratou desde que eu entrei aqui.
Elas não trocaram muitas palavras quando ouviram uma gritaria e barulho de copos, cadeiras e pratos quebrando. Não foi difícil saber o que havia acontecido, o Porco destratou o rapaz chorão e eles começaram uma briga que logo todos os bêbados imundos aderiram, em poucos segundos Victor estava com a cara toda estourada, manchas roxas por todo corpo e do lado de fora do Pé de Porco, naquele chão imundo e com aquela fina garoa gelada tocando-lhe a face ensangüentada.
Antes mesmo de imaginar como seria aquela vida de cão, Victor já estava experimentando dela. Talvez tenha sido melhor assim, pelomenos ele agora estava remoendo os socos e os pontapés em vez da sua nova e mais ainda amarga vida pelas ruas daquela grande metrópole.
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