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quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Mulher Atômica - 01 - Não era pra ser

Essa história começa assim, como uma beringela mal cozida. Por mais gostosa que seja, parecerá um chiclete quando você a colocar na boca, evoluirá para uma espécie de borraxa que não dissolve, semelhante a um chiclete, mas que não é doce e por fim, não será tão ruim porque existem outras beringelas bem mais cozidas do que essa no prato e você está com fome. E como essa bendita beringela, nossa nova heroína não é assim tão fácil de tragar.
Dos velhos clichês aparecem os mais absurdos e barrocos heróis, mas não com a Mulher Atômica, ela não gosta de roupas fluorescentes. No momento ela nem sabe o que é, mas jura que não vem do mesmo lugar que as pessoas a sua volta, normalmente é mal compreendida e reciprocamente mal compreende o resto. Alguns dizem que pode ser dislexia, também não tiro essa possibilidade.
Sua infância não passou em branco, mas ela não lembra bem como foi, ou não gosta muito de lembrar, mas pode-se dizer que foi daquelas bem normais, com direito a bullying tanto sofrido quanto provocado na escola e traumas de infância como todos temos. Ela era uma pessoa calma até chegar a adolescencia, quando as pressões da vida começaram a atormentar sua mente. Com 17 anos, se tornou uma espécie de office girl em uma empresa dessas cheias de repartições, no centro.
Uma semana de trabalho e, o emprego, ja estava se tornando insuportável, porque a Margarete da contabilidade, oitavo andar, odiava o João do almoxarifado, terceiro andar, e mandava a pobre entregar seus recados e documentos toda hora, sendo que no terceiro andar o elevador não para, e no quarto e quinto andares, a escada está sempre fechada. A maratona estava tonificando o corpo de nossa querida Mulher Atômica, cujo o nome é quase insignificante, mas bem chamado, Daniella.
Em um belo dia, chamado sexta-feira, cujo tinha sido bem estressante, depois de 6 meses trabalhando naquele lugar, Daniella, que odiava ser chamada de "Daniele" estava a um ponto de explodir! Ela sentia isso. Alguns chamariam de TPM, outros de uma explosão de verdade. Na saída do trabalho Daniella foi abordada por alguns sujeitos que mexeram no seu cabelo, e roubaram sua bolsa. Em um epico momento, tudo que ela conseguiu fazer foi desmaiar.
Três dias depois, no hospital, sem roupa, documentos ou arranhões, ela acorda, calma e feliz, sem ter ideia de que na verdade tinha explodido e matado 10 pessoas, inclusive os ladrões, mas que para os médicos e outras pessoas ela foi um milagre na explosão de um bueiro, sua morte simplesmente não era pra ser ali...

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Começo da Continuação da Vida - Capitulo 1 (A Primeira Confusão)

Estávamos todos na sala, sentados, desnorteados e procurando sentido no que acabara de acontecer. Eu pensei em pedir um cigarro, mas comecei a me perguntar se eu fumava mesmo ou se tudo que eu acreditava que era não passava de uma ilusão de como se fosse sempre assim. Não fazia nem uma hora que o primeiro de nós teve a primeira visão. Coisas de muito tempo atrás, sombrias, alegres e sem nenhum sentido.

Essa é a minha primeira lembrança de depois de que eu comecei a recuperar minha memória. É como acordar do coma, ou como se manter morto por anos e surgir dos mortos e esquecidos em meio a uma avalanche e tentar se livrar dela. Tentar viver novamente.

- Então, essa é a primeira vez que estamos todos reunidos? - eu quebrei o silencio.
- Acredito que não, mas, talvez nessa vida sim. - disse Luciano, irmão mais velho de Marina que ainda chorava no canto inverso ao meu.
- Mas por que isso agora? - Marcos procurava um amparo mental ao que acabara de acontecer.

Aos poucos, nossas perguntas eram respondidas por outras perguntas e, a todo momento, imagens do passado eram vomitadas de nossas mentes, sentimentos e laços reforçados a cada momento. Sem explicação maior, um grupo de jovens que mal se conhecia descobriu ser como uma família a muitos anos.

Foi então que eu compreendi que eu tinha 20 anos a séculos, e a cada vez que a sociedade mudava, minha realidade mudava e eu acreditava que era Lucia, Mariana, Laura, Roberta, Ana, Maria e muitos outros nomes como Patricia, meu atual nome. Minhas vidas foram sendo desmistificadas como realidades que existiram apenas por um curto tempo, apenas nas vidas ilusórias que eu vivi, do nascimento a morte.

- Algum de vocês se lembra de morrer? - cortei o silencio, mais uma vez.

Todos se entreolharam. Inclusive eu me perguntei novamente, “eu morri? Me lembro de algo como morrer?”. Com caras duvidosas e temerosas, todos negaram com a cabeça.

- Eu acho que nunca morri, né? - disse Marcos receoso – Bom, eu acho que não, porque a morte deve ser algo que você se lembre bem. Eu acho. - novamente todas as cabeças concordaram e o silencio desconfortável pairou novamente naquela sala.

João enfim, resolveu acender o cigarro. Foi o primeiro de nós a levantar e lutar contra aquela sensação desconfortável de impotência diante de nós mesmos. E foi quando eu o notei mais familiar do que antes. Eu por um momento soube que já sabia que ele faria isso, e seus passos a seguir eu poderia prever, afinal eu o conhecia muito bem, ele era meu melhor amigo a séculos, mas nessa vida, ou nessa ilusão de vida, nós só nos encontramos uma vez.

- E então, quem somos afinal? - perguntou João dando o primeiro trago,
- Eu não sei, mas tenho a inclinação de dizer alguma coisa, um nome, mas não consigo lembrar, entende? Como se estivesse na ponta da língua, mas não está. - dizia Roberto, tentando se lembrar do que deveria ter dito.

Enfim me convenci naquele momento que aquele não era um encontro de jovens normais, nem muito menos um encontro normal de jovens excêntricos, que era para ter sido. E olhei novamente para João, senti um aperto no coração por nunca mais te-lo tratado como tal. Nesse momento ele me olhou de volta, parecia que ele acabara de lembrar também. Eu levantei e caminhei até ele, nos abraçamos forte.

- Esperança, minha amiga, como senti sua falta!

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Dias Noturnos - Capítulo 1 (A Primeira Queda)

Eram tempos difíceis, ele frustrado, sem dinheiro e correndo risco de perder o emprego, ela longe da família encarando solidão, angustias e nostalgias. Antes a casa era cheia, agora é só ela e os poucos móveis.

Era assim, o inverno castigava a cidade, aquela chuva fina, por um momento era possível pensar que não havia mais uma viva alma naquela metrópole, mas o pensamento era interrompido pela próxima buzina. Os gatos namorando no telhado, o barulho dos carros passando nas poças d'água, nem parecia aquela rua tão movimentada de horas atrás, aquela rua engarrafada, cheia de pequenos e grandes veículos enfileirados em uma tortura barulhenta, agora passavam bem rápidos e espaçados, podia-se dizer olhando pela janela que durante uns segundos ficava-se diante de um deserto urbano.
Os dois sofriam calados, estavam cansados de procurar, cansados de se iludir, cansados daquele ano que mal havia chegado a metade e talvez fosse melhor nem ter começado. Eram as primeiras horas daquela quarta-feira quando ela se lembrou que deveria dormir e quando ele começou a trabalhar, estavam cansados de pensar, ela tomou um tarja preta e ele um café amargo e sentou no computador e assim terminava aquela noite, que seria mal dormida para ela e perdida para ele.

...

- Ah não! - Ela acordou e deu um tapa no despertador, aquele barulho irritante a acordou subitamente e ainda estava ecoando na sua cabeça. Quando ele parou de apitar ela olhou novamente, 5:30h da manhã. A contragosto se levantou, agradeceu mais uma vez por estar viva e abriu a cortina.
O sol novamente não quis aparecer, a manhã estava cinza e cheia de nuvens e ainda bem escura. Ela andou até a cozinha colocou a água no fogo e foi para o banho, ainda sonolenta deixou que a agua morna a acordasse. Estava frio e o vapor de agua quente foi esfriando, esfriando e ela se enrolou na toalha antes que estivesse toda arrepiada, se vestiu rápido e correu para a cozinha para apagar o fogo da água que estava fervendo.
Quando se tem um sonho, não se deve abandona-lo por ser difícil de conquistar, ou por ser absurdo, ou porque você vai morrer tentando. Pelomenos era isso que Sara tentava colocar na sua cabeça todos os dias, e percebia que enquanto fazia isso o café esfriava e ficava insuportável. Quando você mora em um quitinete fedorento, com o encanamento todo estourado, paredes escuras, em um lugar feio e perigoso da cidade, um emprego de merda e um salário pior ainda, fica difícil sonhar com algo melhor. Mas acredite, Sara conseguia fazê-lo, ainda assim sabendo que tudo poderia piorar.
Estava a um mês naquela situação, acordava de madrugada, pegava um ônibus lotado, uma hora e meia de engarrafamento, enfrentava umas louças sujas e fedorentas na Vila dos Porcos e um patrão feio, gordo e ignorante durante o dia inteiro. Sem receber hora extra ou qualquer tipo de outro beneficio alem do pior almoço que já comera na vida. As 20h largava aquela espelunca e voltava para o seu lar, se é que aquele quitinete poderia ser chamado de alguma coisa alem de muquifo.
Nessa altura da sua horrorosa estadia na metrópole, Sara não conseguiria dizer se o que estava vivendo era positivo ou não, a um mês atrás, em sua pequena cidade, muito longe de lá, em sua casa ampla, junto aos seus pais opressores e conservadores e nada compreensivos, ela achava que acabava de comprar sua liberdade, sua independência. Sara só sabia que não havia feito a melhor troca do mundo, mesmo que seus pais fossem chatos, fechados e nada flexíveis, ela percebia agora que estava vivendo em um regime ditatorial completamente diferente dos seus pais, que mesmo todos os adjetivos anteriores não a fariam mal, nada alem de uns tapas, umas broncas e um casamento arranjado. Agora ela realmente poderia pensar em viver pesadelos, e nem sonhar em voltar para casa dos pais, seria inaceitável para eles que sua filha voltasse para casa com a mão na frente e outra atrás, seria como pedir para que eles a expulsassem de casa e definitivamente.
Naquele ônibus lotado, Sara só tinha uma certeza, a escolha que ela fez era definitiva e não importava mais se era melhor ou não, só restava sonhar e agir. O ponto chegou, ela foi empurrada para fora, sentiu aquela fria garoa de Julho tocar seus cabelos e ombros, e como nada é da melhor forma possível a chuva aumentou, ela e uma multidão de pessoas correram para as marquises se abrigar daquela chuva horrorosa e de pingos escuros. Você já deve ter sentido cheiro podre na água, em rios, no mar, mas e na chuva? Sara e uma multidão de pessoas na Vila do Porco estavam no meio de uma chuva tóxica, poluída, fétida e nojenta.
Para a sorte das pessoas pobres e sujas que vagavam pela Vila dos Porcos a chuva passou em poucos e longos minutos. Logo as pessoas voltavam a andar entre a feira, ruas esburacadas, carros velhos, mendigos e cães doentes e cheios de feridas, lixo, bichos nojentos, como baratas e ratos imundos, e por que não? Água da chuva. Ora, ninguém saía mais de casa sem uma bota impermeável e uma boa capa de chuva, ou pelomenos, a melhor que se poderia comprar.
E pela 30ª vez, ela entrava por aquela porta escura, o vento frio e molhado ficara do lado de fora, e Sara era agora envolvida por um bafo quente, seria até confortável se o cheiro que acompanhasse o bafo quente não fosse o de carne estragada e nem a primeira visão que ela tivesse fosse a cara carrancuda, gorda e suja do “porco rei”, seu chefe.
- Está atrasada, vadia! - Era a forma mais carinhosa que ele havia dado “bom dia” desde o primeiro dia de trabalho. É estranho, mas quando esse é o único lugar que aceitam sua mão de obra alem de casas de prostituição, você acaba se acostumando. Pelomenos o porco xingava, mas não batia, era mais uma coisa a se considerar.
E lentamente o dia se passou até a hora do almoço, louça após louça, elogios e cantadas sujas dos melhores clientes daquela espelunca, um dia normal para seus novos padrões de vida.

...

Para pessoas solitárias e que tinham um certo nível social, a internet era uma companhia, e era exatamente onde ele estava naquela madrugada fria, após terminar um maldito relatório. Uma tela cheia de letrinhas e imagens coloridas, pessoas que parecem reais, realidades falsas e todas as regalias de mentes solitárias que gostam de imaginar algo melhor. Mesmo rodeado de toda aquela informação, Victor não sonhava como Sara, toda vez que parava pra pensar se deprimia, então, se refugiava no mundo virtual, perdendo noites e mais noites procurando sonhos alheios, pois não suportava a idéia de que seu sonho era impossível.
E assim, como todas as noites, sem perceber adormecera sobre o teclado. Horas se passaram, mas quando o telefone tocou pareciam apenas poucos segundos, o sono era tão profundo que Victor não se recordava de nenhum sonho, na verdade ele não se lembrava de nenhum sonho, talvez não sonhasse a meses. Próximo ao 5º toque, Victor colocou o estridente telefone no ouvido.
- ... alo... – disse Victor completamente sonolento.
- Victor? Onde você anda com a cabeça?
- Pedro? O que que houve?
- Acorda, cara! Não vou cuidar de você a vida toda, o chefe está louco atrás de você! Vem pra cá agora!
As palavras de Pedro ecoaram em sua cabeça, dez, vinte vezes, parecia um sonho. Talvez esse fosse o desejo de Victor, que quando percebeu que não era um sonho não teve muito tempo para se lamentar. Correu até o carro, sem nem perceber como estava vestido, por sorte ou azar estava com a roupa de ontem e corria desesperado pelos inúmeros atalhos e ruas estreitas até o trabalho bem no centro da cidade. Não no centro majestoso, quase bonito e cinza da cidade, mas próximo a ele, na área norte, onde os prédios não são tão altos nem tão bonitos, onde um dia distante fora o real centro da cidade, mas agora não passava da área mais barata.
Duas quadras antes do prédio, Victor perdeu o controle do carro, rodou e bateu de frente no poste do outro lado da rua, no sentido contrario do que deveria ir naquele cruzamento. Pronto, realmente tudo pode ficar pior. Sem pensar muito, ainda cambaleando, Victor pegou suas coisas e partiu para o maldito prédio. Mesmo mancando e se sentindo sem ar, ele corria. Atravessou a rua, quase foi atropelado duas vezes e chegou ofegante e sujo ao grande Edifício Cina. 10 andares de paredes sujas, elevadores em péssimo estado, pessoas patéticas, câmeras velhas e recepcionistas que sempre perguntavam seu nome mesmo o vendo todos os dias de todas aquelas infernais semanas durante mais de um ano.
Alguma vez você já passou por uma situação como essa? Imagine todas as pessoas a sua volta te olhando com nojo ou pena. Pois bem, é exatamente o que Victor estava passando. Sentia-se feder, suar, cambalear e acima de tudo sentia muita vergonha, se sentia um completo idiota e no seu rosto estava estampado o que iria acontecer em um futuro bem próximo.
Victor avistou Pedro vindo em sua direção no momento em que tropeçava no tapete no cruzamento dos corredores das divisórias. É exatamente isso, Victor descobriu que odiava cruzamentos, sejam eles quais forem. Seu peso derrubou uma divisória inteira, uma mesa e dois computadores. Sem forças para levantar, ele ficou onde estava e logo uma rodinha de engravatados estava de pé diante dele. Minutos depois as vozes se confundiam na sua cabeça e uma mão o ajudou a levantar, era Pedro, talvez seu único amigo em toda sua vida. Mal pode ficar de pé quando o ...
- Victor Brahms, seu estúpido! Eu não quero arriscar todo meu departamento por sua causa mais uma vez, olha o que você fez! Inútil e burro, é isso que você é! Está demitido! D-E-M-I-T-I-D-O! - aquelas palavras continuaram reverberando em sua cabeça, ele estava completamente sem forças para contra-atacar todas aquelas afrontas e nem conseguiria explicar o motivo de todo o estrago. Mas Victor estava certo de que agora, estava vivendo um pesadelo. Enquanto ele cambaleava para a porta do elevador o chefe gordo esbravejava, xingava e agredia o tempo todo, mas Victor não o ouvia mais, estava perdido dentro de si mesmo.
Ele começou a vagar pelas ruas e por seus pensamentos, se sentia realmente inútil, incompetente e covarde. Covarde por aceitar todas as imposições daquele chefe egoísta e megalomaníaco, incompetente por não conseguir executar as coisas como se propunha a fazer e por ultimo, inútil, agora ele sentia que não poderia fazer nada para mudar a sua situação nada confortável. Sem carro, sem emprego e futuramente sem dinheiro. Victor queria sumir, desaparecer, e sem perceber ele estava fazendo isso, cada vez entrava mais fundo no cinza escuro do subúrbio da cidade.
Já passara do meio-dia quando Victor percebeu que a ultima vez que ingeriu alguma coisa foi na madrugada anterior e mesmo assim, uma xícara de café. A fome despertou a mente de Victor daquele pesadelo acordado e ele se viu em um lugar completamente estranho, não sabia como havia chegado ali, mas já que se encontrava lá e com fome, examinou seus bolsos, achou uns trocados que talvez dessem para um lanche e caminhou para uma birosca (ou algo parecido) chamada “Pé de Porco”.

...

Sara estava terminando seu almoço, aquela papa rançosa e marrom-escura que ela tinha que comer todo dia se não quisesse passar fome. Nos primeiros dias a cada colherada ela quase vomitava, agora era como se não sentisse mais gosto, acostumou-se aquele amargo, rançoso e fedorento mingau. Mas isso não era privilegio dela, todos ali comiam a mesma coisa. O João, garçom que ajudava Sara, a cozinheira Beth e até mesmo alguns clientes.
Ao se levantar do balcão, Sara viu um homem cambaleando entrar pela porta, todo sujo da agua da chuva, olheiras enormes, cabelo desgrenhado e um olhar distante. Cabelos pretos, olhos escuros, roupa social (ou pelomenos um dia foi uma roupa social), dava para ver que a blusa tinha sido azul e a calça preta, trazia um óculos quebrado na face e uma expressão cansada, apesar de um rosto tão novo. Este foi cambaleando até o balcão, sentou-se em um daqueles bancos, debruçou sobre o balcão e tentou dizer algo.
- ... ca.. por favor... - sentia-se tremer, bateu no balcão e disse alto – UM CAFÉ!!! - e logo após jogou uns trocados embolados no balcão e disse mais – E algo comestível! Com isso! - qualquer um poderia perceber que se tratava de um rapaz consternado. Logo Sara veio ao seu auxilio.
Quando Victor se deparou com aquela moça de cabelos mal-tratados, roupas também sujas e olhos tristes com uma xícara de café em suas mãos ele desatou a chorar e escondeu seu rosto em seus braços.
Sara sem saber muito o que fazer, deixou o café do moço sobre o balcão, próximo a ele e foi pegar um pão para o homem, que mesmo agressivo e estranho, ela poderia dizer que seria o melhor cliente que entrara ali nos últimos 30 dias. Ao se aproximar com o lanche:
- Está tudo bem com você? - ela pensava em tocar o seu braço quando o rapaz levantou enxugando as lágrimas.
- Não, mas obrigado – ele não a encarava e estava extremamente sério, se antes seu sonho era impossível, agora ele havia o abandonado completamente, seu novo sonho era conseguir sobreviver naquela selva, seria muito pior que uma ovelha dentro de uma matilha. Victor nunca havia sequer brincado na rua quando era criança, cresceu dentro de um apartamento jogando video-games, vendo filmes e telejornais que diziam o suficiente para ele nunca encarar as ruas. Mas ali estava ele, sem alternativas, perdido, sem dinheiro e sem saber o caminho de casa.
Enquanto Victor estava perdido em seus pensamentos, Sara estava perdida em suas louças dentro da cozinha imunda do Pé de Porco, quando Beth chegou.
- Você viu o rapaz estranho sentado no balcão?
- Vi sim, Beth. E por mais estranho que pareça foi o cliente que melhor me tratou desde que eu entrei aqui.
Elas não trocaram muitas palavras quando ouviram uma gritaria e barulho de copos, cadeiras e pratos quebrando. Não foi difícil saber o que havia acontecido, o Porco destratou o rapaz chorão e eles começaram uma briga que logo todos os bêbados imundos aderiram, em poucos segundos Victor estava com a cara toda estourada, manchas roxas por todo corpo e do lado de fora do Pé de Porco, naquele chão imundo e com aquela fina garoa gelada tocando-lhe a face ensangüentada.
Antes mesmo de imaginar como seria aquela vida de cão, Victor já estava experimentando dela. Talvez tenha sido melhor assim, pelomenos ele agora estava remoendo os socos e os pontapés em vez da sua nova e mais ainda amarga vida pelas ruas daquela grande metrópole.