Acho que esse é o meu momento, então vou falar de mim. Eu sou um loser. Sim, digo isso sem dramas e sem querer causar comoção em ninguém. É só um fato. Não estudei o necessário, não tenho uma carreira nem sequer razoável, não constituí família. Tive alguns relacionamentos, mas nenhum seguiu adiante.
Eu as amei, cada uma delas a seu tempo, mas não era pra ser. Durante muito tempo eu acreditei que a culpa era delas, me achava um incompreendido, sempre acreditei ser o otário passado pra trás da relação. Mas hoje, depois de tanto tempo eu descobri a verdade. O problema era eu. Não que eu não tenha tido acertos, tentei fazer minha parte, tentei mostrar o quanto as amava ainda que do meu jeito torto, mas não fiz o suficiente. Eu sei disso. Eu sei que elas me amaram, tenho certeza. Tem uma coisa sobre mim que eu descobri depois de muito tempo, e que pode ajudar a explicar a minha falha em manter relacionamentos de longa duração, tanto os amorosos quanto as amizades. Existe algo dentro de mim. Não necessariamente dentro de mim, mas da minha mente. É algo que só agora me dou conta que deve ter tido seu embrião por volta dos meus 15 anos. É algo escuro, frio e confuso. E conforme eu fui crescendo ela foi crescendo junto e foi tomando conta de mim, por isso eu sou escuro, frio e confuso. Eu deveria ter percebido isso há mais tempo. Lembro de uma conversa que eu tive com alguém, que talvez gostasse mesmo de mim e por isso tenha prestado atenção, em que eu disse: "estou triste", e ele respondeu: "você não está triste, você é triste. Intrinsecamente e profundamente triste". E eu disse: "não, não sou". Eu não me lembro quem era essa pessoa. Isso é triste. Eu fiz alguns bons amigos, mas nunca fui bom em mantê-los. Faz parte de se viver num mundo escuro, frio e confuso. Hoje eu tenho 40 anos. 40 anos de uma vida vazia, de uma vida vivida para dentro, no meu próprio mundo escuro, sentindo e sendo frio, totalmente confuso. Uma frase da Virginia Woolf define bem minha falha: "Eu perdi amigos, alguns com a morte, outros por simples incapacidade de atravessar a rua." Apesar de tudo alguns amigos e pessoas próximas perceberam alguns sinais. Nem todos percebem, eu mesmo não percebi. Eu queria muito sair desse ciclo de descer ladeira abaixo mesmo quando as coisas estão bem, mas conforme o tempo passou eu percebi que fui ficando cada vez mais confuso, ao invés de menos. Hoje só posso fazer o que fiz a vida inteira: lamentar e pedir desculpas. Não tenho muito mais a oferecer, já que tive uma vida de um loop de desculpas e lamentações. E é assim que eu encerro esse pequeno retrato de mim mesmo: me desculpando por tudo.
.....
A mãe acabara de ler a nota. Olha mais uma vez para o corpo do filho naquela mesa do IML. A nota fora encontrada na cena da morte, junto ao frasco de veneno. Ela não sabe definir o que sente, sua mente é um turbilhão: ela sente tristeza, dor, culpa, remorso, impotência. Mas não sente raiva. Ela guarda a nota no bolso enquanto os legistas empurram a mesa para dentro do freezer. Ela se dá conta que um pedaço de si mesma se foi. Ela diz baixinho: "eu te amo, filho. Me desculpe". E essa foi a última coisa que disse antes de mergulhar na escuridão.
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Contos. Mostrar todas as postagens
segunda-feira, 28 de março de 2011
domingo, 19 de dezembro de 2010
Demônios
Ele segurava seus joelhos com força sentado ali apoiado na cabeceira da cama. Ele sabe que não pode gritar, pois se acordar seus pais a punição será severa. Ele apóia a cabeça nos joelhos e fecha os olhos com força. Ele segura seu pequeno crucifixo na mão direita e pede aos céus que o proteja. Mas ele tem medo.
Ali no escuro e no silêncio ele se sente sozinho. Ele abre os olhos, ou imagina que os abriu, não saberia dizer, e olha pelo canto do olho. Ele sabe que estão ali, aqueles olhos a fitá-lo com escárnio, zombando do seu medo. Ele tenta se mover o mínimo possível, ele aperta o pequeno crucifixo em sua mão e volta a fechar os olhos. Então ele pode ouvir o barulho embaixo da cama. A sua cama treme de leve e por um instante ele imagina que a cama vai levitar. Ele olha para a janela e pela pequena fresta o vento entra e balança a cortina, que se move sinistramente. Em cada vinda da cortina ele se pergunta se aquilo que vê seria um rosto o observando. Sim, ele quase pode ver aqueles olhos grandes, inexpressivos, espreitando. A porta de seu armário se move lentamente, fazendo soar um leve ranger que parece durar minutos. Tudo parece ganhar vida naquele quarto, e ele quer acreditar que é o vento. Ele tem a impressão que luzes piscam no seu quarto, mas ele não saberia dizer de onde vem. Ele começa a rezar, mas quando ele faz isso parece que tudo se intensifica ali: o farfalhar da cortina, a tremida da cama, as luzes que piscam, o ranger da porta, o rosto na janela. Ele começa a sentir um gelo que cresce incontrolavelmente dentro dele, como se tudo fosse explodir num instante. Ele pode ouvir seu nome ser pronunciado, ele queria que fossem os anjos, mas ele tem a certeza que não pela inflexão da voz. Ele se deixa arrastar pela cama e puxa a coberta até o rosto, mas ele tem certeza que tem um rosto bem acima do dele, e ele não ousa tirar a coberta. O som da cortina começa a confundí-lo, a porta do armário com certeza se abriu, e o rosto da janela com certeza está lá, esperando. Ele fecha os olhos e se encolhe. Ele fica ali, atento a tudo, rezando e apertando o seu cricifixo, torcendo para que a colcha possa ser suficiente para sua proteção. E assim adormece.
--------------------------------
- Ei menino, acorde, vamos, você tem que ir pra escola. Vamos rapazinho, como dorme, não sei como consegue!
--------------------------------
- Pronto amor, aqui está seu café, e pra você aqui está seu cereal.
- Viu filhão, você já é um rapazinho, dorme sozinho. Eu não disse que não precisava ter medo?
Ali no escuro e no silêncio ele se sente sozinho. Ele abre os olhos, ou imagina que os abriu, não saberia dizer, e olha pelo canto do olho. Ele sabe que estão ali, aqueles olhos a fitá-lo com escárnio, zombando do seu medo. Ele tenta se mover o mínimo possível, ele aperta o pequeno crucifixo em sua mão e volta a fechar os olhos. Então ele pode ouvir o barulho embaixo da cama. A sua cama treme de leve e por um instante ele imagina que a cama vai levitar. Ele olha para a janela e pela pequena fresta o vento entra e balança a cortina, que se move sinistramente. Em cada vinda da cortina ele se pergunta se aquilo que vê seria um rosto o observando. Sim, ele quase pode ver aqueles olhos grandes, inexpressivos, espreitando. A porta de seu armário se move lentamente, fazendo soar um leve ranger que parece durar minutos. Tudo parece ganhar vida naquele quarto, e ele quer acreditar que é o vento. Ele tem a impressão que luzes piscam no seu quarto, mas ele não saberia dizer de onde vem. Ele começa a rezar, mas quando ele faz isso parece que tudo se intensifica ali: o farfalhar da cortina, a tremida da cama, as luzes que piscam, o ranger da porta, o rosto na janela. Ele começa a sentir um gelo que cresce incontrolavelmente dentro dele, como se tudo fosse explodir num instante. Ele pode ouvir seu nome ser pronunciado, ele queria que fossem os anjos, mas ele tem a certeza que não pela inflexão da voz. Ele se deixa arrastar pela cama e puxa a coberta até o rosto, mas ele tem certeza que tem um rosto bem acima do dele, e ele não ousa tirar a coberta. O som da cortina começa a confundí-lo, a porta do armário com certeza se abriu, e o rosto da janela com certeza está lá, esperando. Ele fecha os olhos e se encolhe. Ele fica ali, atento a tudo, rezando e apertando o seu cricifixo, torcendo para que a colcha possa ser suficiente para sua proteção. E assim adormece.
--------------------------------
- Ei menino, acorde, vamos, você tem que ir pra escola. Vamos rapazinho, como dorme, não sei como consegue!
--------------------------------
- Pronto amor, aqui está seu café, e pra você aqui está seu cereal.
- Viu filhão, você já é um rapazinho, dorme sozinho. Eu não disse que não precisava ter medo?
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Carta aos proximos desafortunados
Rio de Janeiro, Terça-Feira, 28 de Março de 2019.
Espero que tire bom proveito dessa carta, venho dizer como acho que isso tudo começou.
Estampido, fumaça, buzinas, farois, metal retorcido, oleo e fogo. A violencia caminhava como uma noiva nas ruas, aquela noite prometia ser um inferno. Ninguem queria parar, nem deveria, não era momento para heroismo ou misericórdia. Infelizmente que os mortos contassem seus mortos.
Eu não gosto muito da ideia de contar sobre esse dia, mas é o tipo de coisa que não posso deixar passar em branco. Fez uma semana ontem, mas parece ainda que é o mesmo dia. Não poderia deixar esse mundo sem dizer algo util para o que vier após a mim.
Acho que as pessoas enlouqueceram, toda a sanidade foi embora e o mundo entrou em colapso. Por algum milagre ainda existe energia, mas o governo ignorou a possibilidade de "plebeus" sobreviventes. Desde quarta-feira não temos mais meios de comunicação. Consegui juntar alguns conhecidos que não enlouqueceram e fizemos um abrigo. Não sei por quanto tempo ficaremos aqui sem ninguem descobrir.
Ontem presenciei uma cena que não sai da minha cabeça, o exercito executou uma criança no meio da rua que parecia estar descontrolada. Não sabemos se é uma boa ideia tentar nos aproximar deles. Estamos desarmados e com muito medo.
Amanhã partiremos daqui, soube que há um possivel abrigo na região dos lagos. Iremos de carro até la.
OBS: tem comida desidratada pela casa toda e se você tiver sorte, tem comida "fresca" na geladeira. As chaves do outro carro estão na estante.
Espero que tire bom proveito dessa carta, venho dizer como acho que isso tudo começou.
Estampido, fumaça, buzinas, farois, metal retorcido, oleo e fogo. A violencia caminhava como uma noiva nas ruas, aquela noite prometia ser um inferno. Ninguem queria parar, nem deveria, não era momento para heroismo ou misericórdia. Infelizmente que os mortos contassem seus mortos.
Eu não gosto muito da ideia de contar sobre esse dia, mas é o tipo de coisa que não posso deixar passar em branco. Fez uma semana ontem, mas parece ainda que é o mesmo dia. Não poderia deixar esse mundo sem dizer algo util para o que vier após a mim.
Acho que as pessoas enlouqueceram, toda a sanidade foi embora e o mundo entrou em colapso. Por algum milagre ainda existe energia, mas o governo ignorou a possibilidade de "plebeus" sobreviventes. Desde quarta-feira não temos mais meios de comunicação. Consegui juntar alguns conhecidos que não enlouqueceram e fizemos um abrigo. Não sei por quanto tempo ficaremos aqui sem ninguem descobrir.
Ontem presenciei uma cena que não sai da minha cabeça, o exercito executou uma criança no meio da rua que parecia estar descontrolada. Não sabemos se é uma boa ideia tentar nos aproximar deles. Estamos desarmados e com muito medo.
Amanhã partiremos daqui, soube que há um possivel abrigo na região dos lagos. Iremos de carro até la.
OBS: tem comida desidratada pela casa toda e se você tiver sorte, tem comida "fresca" na geladeira. As chaves do outro carro estão na estante.
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
fim?
- Nada no radar...
- Tenho a sensação de que perdi o contato com eles, eles nem sequer responderam ao ultimo chamado. Não consigo entender.
- Talvez, talvez tudo tenha ido mesmo pelos ares, se tiver acontecido isso, morreremos aqui.
- É, só tínhamos um caminho para voltar para casa, não é?
- Um caminho e só um, único e imutável jeito...
- Acho que pode ser pior..
- O que?
- Pode não haver mais casa. Já pensou nisso?
- Já. Me da arrepios...
- Não demorará muito para o estoque de comida e de oxigénio acabar..
- O que você sugere?
- Não sei, mas não queria simplesmente morrer, não assim, entende?
- Entendo, mas.. nós fomos preparados para isso, para morrer aqui.
- Ninguem está preparado para morrer, ainda mais sozinho.
- É, ninguem, mas... nós não estamos sozinhos. Nós nos temos.
- É, mas no final, quando as coisas acabarem, estaremos sozinhos..
- É.
- Vamos parar de falar e pensar em uma possível solução para sobrevivermos.
- Sim, temos que economizar oxigénio e energia...
- É..
...
- Não acho que esteja certo..
- O que?
- Ficar assim, tudo acabar..
- Como?
- É, acho que, se algo tivesse acontecido la, haveria um sinal de emergência..
- Verdade, teríamos isso nos monitores, no radio, em qualquer coisa.
...
- É, lembrei de uma coisa... Estamos muito distantes, o sinal pode demorar para chegar.
- Hum, vou fazer os cálculos...
- Tipo, acho que devemos emitir um sinal de longa distancia, talvez eles nos achem.
- Hum, 100 dias terraquios, acha que conseguimos sobreviver?
- Talvez.. podemos tentar..
- É.
...
- Acho que gostarei de morrer com você..
- Quase um casamento, não é? hehe
- É, quase...
- Mesmo assim, ainda amarei as estrelas.
- Eu também...
- Tenho a sensação de que perdi o contato com eles, eles nem sequer responderam ao ultimo chamado. Não consigo entender.
- Talvez, talvez tudo tenha ido mesmo pelos ares, se tiver acontecido isso, morreremos aqui.
- É, só tínhamos um caminho para voltar para casa, não é?
- Um caminho e só um, único e imutável jeito...
- Acho que pode ser pior..
- O que?
- Pode não haver mais casa. Já pensou nisso?
- Já. Me da arrepios...
- Não demorará muito para o estoque de comida e de oxigénio acabar..
- O que você sugere?
- Não sei, mas não queria simplesmente morrer, não assim, entende?
- Entendo, mas.. nós fomos preparados para isso, para morrer aqui.
- Ninguem está preparado para morrer, ainda mais sozinho.
- É, ninguem, mas... nós não estamos sozinhos. Nós nos temos.
- É, mas no final, quando as coisas acabarem, estaremos sozinhos..
- É.
- Vamos parar de falar e pensar em uma possível solução para sobrevivermos.
- Sim, temos que economizar oxigénio e energia...
- É..
...
- Não acho que esteja certo..
- O que?
- Ficar assim, tudo acabar..
- Como?
- É, acho que, se algo tivesse acontecido la, haveria um sinal de emergência..
- Verdade, teríamos isso nos monitores, no radio, em qualquer coisa.
...
- É, lembrei de uma coisa... Estamos muito distantes, o sinal pode demorar para chegar.
- Hum, vou fazer os cálculos...
- Tipo, acho que devemos emitir um sinal de longa distancia, talvez eles nos achem.
- Hum, 100 dias terraquios, acha que conseguimos sobreviver?
- Talvez.. podemos tentar..
- É.
...
- Acho que gostarei de morrer com você..
- Quase um casamento, não é? hehe
- É, quase...
- Mesmo assim, ainda amarei as estrelas.
- Eu também...
quarta-feira, 7 de julho de 2010
O Passarinheiro
Já era senhor e a idade não dava trégua, desde quando era garoto ele sentia-se cansado de ser velho. Vivia enfurnado com seus artefatos e pássaros, seus troféus, em um quarto solitário nos fundos da casa de sua filha.
Fazia tempo que o velho só fazia isso, talvez tenha sido a única coisa que ele tenha gostado de fazer em toda sua vida, mas desde que se aposentou, e parou de trabalhar naquela serralheria, ele passou a desenvolver mais e mais armadilhas e construir mais e mais gaiolas. Era notavel a felicidade dele quando capturava um passarinho novo, mesmo que fosse apenas um pardal.
Ninguém que ele conhecia jamais o compreendeu por ser tão fanático por pássaros. Talvez não entendessem que na verdade ele gostava era da privação da liberdade dos outros. Mas como ele jamais foi corajoso suficiente para aprisionar um ser maior que poucos centimentros, acabou se tornando um ditador de passarinhos.
Imperador Passarinheiro gostava de impor comando, gostava de privações, mas jamais machucou um pássaro.
Um dia ele morreu, demorou um tempo para notarem sua ausência já que sua filha passou uns dias fora em uma viagem de negócios. Os pássaros morreram de fome sem seu líder solitário, lamentaram a morte do governante estranho e deixaram de existir com ele, assim, quase pra sempre.
Fazia tempo que o velho só fazia isso, talvez tenha sido a única coisa que ele tenha gostado de fazer em toda sua vida, mas desde que se aposentou, e parou de trabalhar naquela serralheria, ele passou a desenvolver mais e mais armadilhas e construir mais e mais gaiolas. Era notavel a felicidade dele quando capturava um passarinho novo, mesmo que fosse apenas um pardal.
Ninguém que ele conhecia jamais o compreendeu por ser tão fanático por pássaros. Talvez não entendessem que na verdade ele gostava era da privação da liberdade dos outros. Mas como ele jamais foi corajoso suficiente para aprisionar um ser maior que poucos centimentros, acabou se tornando um ditador de passarinhos.
Imperador Passarinheiro gostava de impor comando, gostava de privações, mas jamais machucou um pássaro.
Um dia ele morreu, demorou um tempo para notarem sua ausência já que sua filha passou uns dias fora em uma viagem de negócios. Os pássaros morreram de fome sem seu líder solitário, lamentaram a morte do governante estranho e deixaram de existir com ele, assim, quase pra sempre.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Pela Merda do Dinheiro
Esse não é bem o tipo de trabalho que gosto de fazer, mas é como sempre digo, nenhum trabalho pode ser tratado com desdém ou como secundário. Meu pai sempre me disse que se eu me propus a fazer algo, devo fazer da melhor maneira possível.
Odeio esse cigarro também, mas não tinha outro naquela loja barata que passei. Aceito essa bela e densa fumaça em meus pulmões como terapia, afinal não é qualquer dia que se faz algo do tipo.
Entro no prédio olhando a foto deles, uma bela família. Digo um nome, mostro uma identificação e vou para o elevador sem que ninguém obstrua minha passagem. Realmente estou horrível com esse uniforme, ele fede a rato morto.
Limpo impecavelmente a janela, enquanto aguardo todos entrarem na sala. Realmente uma família invejável. Um homem exemplar, uma mulher linda, duas filhas doces. Nessa hora eu lembro que odeio prédios altos.
Em alguns segundos esse andar vai pelos ares, na verdade 50 segundos, e eu preciso descer 20 andares de escada. Eu adoro portas de incêndio. É realmente uma pena, não gosto de matar pessoas felizes.
Depois de descer quase 10 andares, o barulho ensurdecedor do sucesso chega aos meus ouvidos. O prédio é evacuado em poucos minutos.
Eu estou longe, bem longe de onde jamais estive. Já não estou mais com aquele uniforme ridículo, mas continuo respirando fundo.
Essa vida de mentiras só pode ser recompensada com muito dinheiro. E é só por isso que vendo minha alma todos os dias, pela merda do dinheiro.
Odeio esse cigarro também, mas não tinha outro naquela loja barata que passei. Aceito essa bela e densa fumaça em meus pulmões como terapia, afinal não é qualquer dia que se faz algo do tipo.
Entro no prédio olhando a foto deles, uma bela família. Digo um nome, mostro uma identificação e vou para o elevador sem que ninguém obstrua minha passagem. Realmente estou horrível com esse uniforme, ele fede a rato morto.
Limpo impecavelmente a janela, enquanto aguardo todos entrarem na sala. Realmente uma família invejável. Um homem exemplar, uma mulher linda, duas filhas doces. Nessa hora eu lembro que odeio prédios altos.
Em alguns segundos esse andar vai pelos ares, na verdade 50 segundos, e eu preciso descer 20 andares de escada. Eu adoro portas de incêndio. É realmente uma pena, não gosto de matar pessoas felizes.
Depois de descer quase 10 andares, o barulho ensurdecedor do sucesso chega aos meus ouvidos. O prédio é evacuado em poucos minutos.
Eu estou longe, bem longe de onde jamais estive. Já não estou mais com aquele uniforme ridículo, mas continuo respirando fundo.
Essa vida de mentiras só pode ser recompensada com muito dinheiro. E é só por isso que vendo minha alma todos os dias, pela merda do dinheiro.
terça-feira, 22 de junho de 2010
Cinza e Prata
Eu sempre achei que cinza combina com prata. Essa cidade com dias nublados e paredes que um dia foram pintadas de branco, já desgastadas e encardidas com o passar do tempo. Eu gosto disso e dessa garoa fina que cai todos os dias e as tempestades horrorosas do verão.
Esse inverno está bom, realmente frio e escuro. Estou com minha roupa preferida, meu sobretudo cinza e o meu chapéu, belo chapéu. Nada como a melhor roupa para uma bela ocasião.
Eu gosto de cinzas, percebi isso quando meu pai acendeu uma fogueira uma vez quando era garoto, eu fiquei vendo o fogo apagar e aqueles galhos ficarem grisalhos pela manhã. Aquela noite foi horrível, mas as cinzas pela manhã me fizeram respirar de novo.
Tem uma moeda no meu bolso, ela é de prata, legitima, uma relíquia nesses tempos escassos. Mas eu gosto disso, gosto dessa decadência. Aqui ninguém realmente consegue ser melhor que ninguém, e eu me sinto bem com isso.
Tem um caminhão passando pela rua, odeio esses novos combustíveis, eles sempre me assustam, mas parece que hoje é o meu dia de sorte. Eu não gosto de fogo, mas gosto de cinzas e de prata.
A calçada é muito estreita, eu empurro algumas pessoas para chegar até ela, ela tem uma expressão tão doce. Eu não sei quem é, não faço ideia de sua história ou origem. Mas em poucos segundos eu a atiro contra a labareda forte jorrada pelo caminhão. Ela berra e queima viva, as pessoas não ajudam, os bombeiros nunca chegam, eles não me vêem. Amanhã lerei sobre as cinzas e pegarei as pratas.
Adeus menina e me desculpe, mas eu realmente gosto de cinza.
Esse inverno está bom, realmente frio e escuro. Estou com minha roupa preferida, meu sobretudo cinza e o meu chapéu, belo chapéu. Nada como a melhor roupa para uma bela ocasião.
Eu gosto de cinzas, percebi isso quando meu pai acendeu uma fogueira uma vez quando era garoto, eu fiquei vendo o fogo apagar e aqueles galhos ficarem grisalhos pela manhã. Aquela noite foi horrível, mas as cinzas pela manhã me fizeram respirar de novo.
Tem uma moeda no meu bolso, ela é de prata, legitima, uma relíquia nesses tempos escassos. Mas eu gosto disso, gosto dessa decadência. Aqui ninguém realmente consegue ser melhor que ninguém, e eu me sinto bem com isso.
Tem um caminhão passando pela rua, odeio esses novos combustíveis, eles sempre me assustam, mas parece que hoje é o meu dia de sorte. Eu não gosto de fogo, mas gosto de cinzas e de prata.
A calçada é muito estreita, eu empurro algumas pessoas para chegar até ela, ela tem uma expressão tão doce. Eu não sei quem é, não faço ideia de sua história ou origem. Mas em poucos segundos eu a atiro contra a labareda forte jorrada pelo caminhão. Ela berra e queima viva, as pessoas não ajudam, os bombeiros nunca chegam, eles não me vêem. Amanhã lerei sobre as cinzas e pegarei as pratas.
Adeus menina e me desculpe, mas eu realmente gosto de cinza.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
A Caixa
Ele tinha aquele sonho de maneira recorrente, e isso o perturbava. Ele não entendia como podia sonhar com aquelas coisas, afinal nada daquilo tinha a ver com ele. Por todos os meios disponíveis de observação e análise ele se enquadrava no quesito sujeito normal, o que o deixava ainda mais perplexo por ter aqueles sonhos tão loucos. E o pior de tudo é que ele não conseguia traçar paralelos entre os sonhos e sua vida, pois todos diziam que os sonhos eram influenciados pela nossa vida e nossos desejos inconscientes, e ele não desejava nada de muito absurdo nem mesmo por detrás da cortina de sua mente. Sendo assim como podia ter aquelas facas nos seus sonhos?
Tudo bem, facas podem significar tantas coisas, pode ser seu desejo de cortar fora algumas coisas da sua vida, como o cigarro. Ele queria mesmo parar de fumar mas não conseguia, por mais que sua esposa e filha pedissem, culpa do estresse, provavelmente. Mas e aquele monte de ossos? Ele nunca cortou nem uma carne para fazer bifes! E nem eram os ossos o pior de tudo, mas tinha aquela espécie de cão com partes de outros animais costurados com linhas grossas e que no lugar de dentes tinha cabeças de garfos. O cão guardava a parte detrás de uma casa totalmente escura com uma espécie de líquido melífluo preto escorrendo de todos os cantos, mas por alguma razão aquilo não pingava nele. No sonho aquele lugar cinza com cheiro de mofo e de sangue velho e com um ar salobro era a casa dele ou pelo menos assim parecia. Tudo era velho na casa e parecia que tinha pegado fogo mas fora apagado antes de se consumir. Ele não conseguia dizer quantos cômodos tinham porque eles se misturavam em ângulos estranhos, em alguns momentos dava mesmo a impressão de terem sido esculpidos na pedra. Ele achava completamente louco sonhar com algo tão maldoso como casa, uma vez que ele gostava mesmo do apartamento onde morava. Ele sentia muito orgulho de tê-lo comprado e tinha muitas recordações maravilhosas dali. Não havia jardim, não que isso o incomodasse, ele nunca quis um jardim, ou um quintal ou um cachorro, ele realmente gostava de apartamentos, eram aconchegantes, seguros e fáceis de limpar. Mas tinha esse sonho, com essa casa que parecia algo saído de um conto de serial killer. E tinha esse quintal com um cachorro feito de pedaços de animais e garfos no lugar dos dentes, seus olhos eram como os de um peixe morto, feios e opacos, você nunca sabia se eles estavam olhando mesmo para você mas sentia como se eles quisessem aprisionar a sua alma. E nesse quintal havia um pequeno portão que dava para um jardim, mas não era um jardim como os que vemos nas casas vizinhas, ele dava várias tipo de flores feias com cheiro nauseante. Ao invés de abelhas havia muitas moscas enormes e verdes cobertas de espinhos, não havia pássaros mas ratos com rabos enormes e olhos de uma maldade ameaçadora, seus dentes pareciam duas lâminas enferrujadas sempre pingando algum líquido viscoso verde ou marrom, e o cheiro que vinha desse jardim era algo simplesmente indescritível. Havia flores que se pareciam com enormes repolhos gigantes apoiados em caules secos e retorcidos, dela vinha um cheiro de ovo podre tão forte que era impossível chegar a 20 metros dela sem vomitar. Haviam folhas que se pareciam com bifes de carne podre, com vermes passeando por ela, e sua cor de sangue coagulado, havia flores que se pareciam com grandes pedaços de membros humanos gangrenosos e com enormes furúnculos, que emanavam um cheiro de peixe estragado e fezes, e várias outras tão feias e com cheiros de enxofre, urina e vômito. Mas aquele jardim era guardado pelo cão-coisa e ele sabia que ninguém poderia entrar lá. Talvez por isso as facas. Mas ele não entendia porque os homens-sapo e as mulheres-coelho. No sonho nunca tinha ninguém conhecido, nem mesmo ninguém inteiramente humano. Havia aqueles homem-sapos, com suas caras verdes e olhos grandes e amarelos, com suas línguas gigantes e sua insaciável fome de moscas. Eles viviam querendo entrar no jardim para se banquetear com as moscas verdes gigantes, mas ele sabia que não poderia deixar, pois as moscas eram as responsáveis por manter aquele jardim florescendo. Droga, florescendo! Essa palavra não se aplicava aquele jardim. E tinha também as mulheres-coelho, com seu pêlo macio e sua cara inocente, mas seus olhos eram como os de tubarões e o som de seu riso parecia com o raspar de faca no mármore. Elas tentavam seduzí-lo, e por todos os cantos daquela casa elas copulavam com os homens-sapo, mas não era excitante. Suas cópulas eram feias, de suas vaginas saia um cheiro de suor velho misturado com desinfetante de eucalipto, eram vermelhas sangue, e delas escorria um líquido amarelado e viscoso. Muitas vezes elas estavam fazendo sexo-anal, com sangue e fezes escorrendo, enquanto os homens-sapo ficavam completamente hipnotizados enfiando seus pênis que pareciam linguiça com verrugas. Eles faziam um gemido horrível, que ora parecia com os galhos de uma árvore raspando na janela em dia de vento, ora com uma menininha sendo violentada por um touro. Mas ele no sonho sempre evitava olhar praquilo, assim como evitava olhar pro jardim assim como evitava olhar pro cão-coisa. Nessas horas ele ia pra um lugar da casa que ele não saberia dizer se era dentro ou fora, ou mesmo se era ali, mas era um lugar escuro, com paredes ocas de vidro, cheias por dentro de um líquido preto e vermelho que ficava se movendo sem se misturar, e com uma pequena iluminação vermelha que vinha dos olhos de rubi incrustrados num rosto humano de uma criança. Essa luz iluminava um pequeno canto desse quarto aonde havia uma caixa, feita de ossos e forrada com tripas, uma cabeça de cobra encimava a tampa. Parecia haver ali alguma coisa muito importante e também muito pessoal, mas toda vez que ele abria a caixa ele acordava. Ele acreditava que esse sonho era recorrente porque ele nunca conseguia abrir a caixa, e ele simplesmente não sabia como fazer. Mas toda vez que ele acordava suando de madrugada, ele olhava em volta do quarto de seu apartamento, olhava sua mulher dormindo, ia até o quarto de sua filha para certificar que ela está ali e vai até a geladeira e pega um copo de água enquanto acende um cigarro. Ele sabe que sua vida é boa, e que ele não tem desejo de matar ninguém com facas nem de copular com mulheres-coelho, e que talvez seja isso o que o seu sonho queira dizer, que mesmo com esse mundo feio do lado fora, ele conseguiu viver feliz ali, dentro da caixa, pra sempre.
Tudo bem, facas podem significar tantas coisas, pode ser seu desejo de cortar fora algumas coisas da sua vida, como o cigarro. Ele queria mesmo parar de fumar mas não conseguia, por mais que sua esposa e filha pedissem, culpa do estresse, provavelmente. Mas e aquele monte de ossos? Ele nunca cortou nem uma carne para fazer bifes! E nem eram os ossos o pior de tudo, mas tinha aquela espécie de cão com partes de outros animais costurados com linhas grossas e que no lugar de dentes tinha cabeças de garfos. O cão guardava a parte detrás de uma casa totalmente escura com uma espécie de líquido melífluo preto escorrendo de todos os cantos, mas por alguma razão aquilo não pingava nele. No sonho aquele lugar cinza com cheiro de mofo e de sangue velho e com um ar salobro era a casa dele ou pelo menos assim parecia. Tudo era velho na casa e parecia que tinha pegado fogo mas fora apagado antes de se consumir. Ele não conseguia dizer quantos cômodos tinham porque eles se misturavam em ângulos estranhos, em alguns momentos dava mesmo a impressão de terem sido esculpidos na pedra. Ele achava completamente louco sonhar com algo tão maldoso como casa, uma vez que ele gostava mesmo do apartamento onde morava. Ele sentia muito orgulho de tê-lo comprado e tinha muitas recordações maravilhosas dali. Não havia jardim, não que isso o incomodasse, ele nunca quis um jardim, ou um quintal ou um cachorro, ele realmente gostava de apartamentos, eram aconchegantes, seguros e fáceis de limpar. Mas tinha esse sonho, com essa casa que parecia algo saído de um conto de serial killer. E tinha esse quintal com um cachorro feito de pedaços de animais e garfos no lugar dos dentes, seus olhos eram como os de um peixe morto, feios e opacos, você nunca sabia se eles estavam olhando mesmo para você mas sentia como se eles quisessem aprisionar a sua alma. E nesse quintal havia um pequeno portão que dava para um jardim, mas não era um jardim como os que vemos nas casas vizinhas, ele dava várias tipo de flores feias com cheiro nauseante. Ao invés de abelhas havia muitas moscas enormes e verdes cobertas de espinhos, não havia pássaros mas ratos com rabos enormes e olhos de uma maldade ameaçadora, seus dentes pareciam duas lâminas enferrujadas sempre pingando algum líquido viscoso verde ou marrom, e o cheiro que vinha desse jardim era algo simplesmente indescritível. Havia flores que se pareciam com enormes repolhos gigantes apoiados em caules secos e retorcidos, dela vinha um cheiro de ovo podre tão forte que era impossível chegar a 20 metros dela sem vomitar. Haviam folhas que se pareciam com bifes de carne podre, com vermes passeando por ela, e sua cor de sangue coagulado, havia flores que se pareciam com grandes pedaços de membros humanos gangrenosos e com enormes furúnculos, que emanavam um cheiro de peixe estragado e fezes, e várias outras tão feias e com cheiros de enxofre, urina e vômito. Mas aquele jardim era guardado pelo cão-coisa e ele sabia que ninguém poderia entrar lá. Talvez por isso as facas. Mas ele não entendia porque os homens-sapo e as mulheres-coelho. No sonho nunca tinha ninguém conhecido, nem mesmo ninguém inteiramente humano. Havia aqueles homem-sapos, com suas caras verdes e olhos grandes e amarelos, com suas línguas gigantes e sua insaciável fome de moscas. Eles viviam querendo entrar no jardim para se banquetear com as moscas verdes gigantes, mas ele sabia que não poderia deixar, pois as moscas eram as responsáveis por manter aquele jardim florescendo. Droga, florescendo! Essa palavra não se aplicava aquele jardim. E tinha também as mulheres-coelho, com seu pêlo macio e sua cara inocente, mas seus olhos eram como os de tubarões e o som de seu riso parecia com o raspar de faca no mármore. Elas tentavam seduzí-lo, e por todos os cantos daquela casa elas copulavam com os homens-sapo, mas não era excitante. Suas cópulas eram feias, de suas vaginas saia um cheiro de suor velho misturado com desinfetante de eucalipto, eram vermelhas sangue, e delas escorria um líquido amarelado e viscoso. Muitas vezes elas estavam fazendo sexo-anal, com sangue e fezes escorrendo, enquanto os homens-sapo ficavam completamente hipnotizados enfiando seus pênis que pareciam linguiça com verrugas. Eles faziam um gemido horrível, que ora parecia com os galhos de uma árvore raspando na janela em dia de vento, ora com uma menininha sendo violentada por um touro. Mas ele no sonho sempre evitava olhar praquilo, assim como evitava olhar pro jardim assim como evitava olhar pro cão-coisa. Nessas horas ele ia pra um lugar da casa que ele não saberia dizer se era dentro ou fora, ou mesmo se era ali, mas era um lugar escuro, com paredes ocas de vidro, cheias por dentro de um líquido preto e vermelho que ficava se movendo sem se misturar, e com uma pequena iluminação vermelha que vinha dos olhos de rubi incrustrados num rosto humano de uma criança. Essa luz iluminava um pequeno canto desse quarto aonde havia uma caixa, feita de ossos e forrada com tripas, uma cabeça de cobra encimava a tampa. Parecia haver ali alguma coisa muito importante e também muito pessoal, mas toda vez que ele abria a caixa ele acordava. Ele acreditava que esse sonho era recorrente porque ele nunca conseguia abrir a caixa, e ele simplesmente não sabia como fazer. Mas toda vez que ele acordava suando de madrugada, ele olhava em volta do quarto de seu apartamento, olhava sua mulher dormindo, ia até o quarto de sua filha para certificar que ela está ali e vai até a geladeira e pega um copo de água enquanto acende um cigarro. Ele sabe que sua vida é boa, e que ele não tem desejo de matar ninguém com facas nem de copular com mulheres-coelho, e que talvez seja isso o que o seu sonho queira dizer, que mesmo com esse mundo feio do lado fora, ele conseguiu viver feliz ali, dentro da caixa, pra sempre.
terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Acordar
Eu com certeza estava sonhando. Ele estava lindo. Nós encaixávamos perfeitamente. Era notável para todos os presentes. Tanto eu, quanto ele e os objetos do banheiro sabíamos que aquilo era inegável.
A música suave se intensificou e nós estávamos cada vez mais apaixonados. Pulsávamos como estrelas, brilhávamos como explosões intergalaticas e nossos corpos pareciam buracos negros sugando uns aos outros. Nossas bocas eram o vácuo do universo tragando a nós mesmos como um aspirador. Meu coração realmente batia.
Mas aí eu acordei, 20 anos depois. Ele havia saído para trabalhar e eu estava gorda.
A música suave se intensificou e nós estávamos cada vez mais apaixonados. Pulsávamos como estrelas, brilhávamos como explosões intergalaticas e nossos corpos pareciam buracos negros sugando uns aos outros. Nossas bocas eram o vácuo do universo tragando a nós mesmos como um aspirador. Meu coração realmente batia.
Mas aí eu acordei, 20 anos depois. Ele havia saído para trabalhar e eu estava gorda.
segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
A Viúva Negra
A bela viúva negra passeava por sua teia. Tecendo suas bordas, ela bailava ao som dos predadores noturnos que estavam acordando para mais um anoitecer sangrento, feito para o caçador. Mas desta vez a bela viúva negra que tecia seus fios, não os tecia por maldade, não os tecia pelo cheiro da morte, não os tecia por luxuria. Ela apenas tecia-os porque deveria, ela não tinha mais vontade, mas continuava a tecer.
Suas lembranças vieram naquela noite com sabor de nostalgia e arrependimento. O amor e o calor de seus amantes, belos e cegos por sua beleza, a doce traição, o desespero de cada vitima, seus olhares, o veneno e toda a sua natureza destruidora. Ela lamentava sua solidão.
Seu corpo estava frio, suas palavras não eram ouvidas, seus pensamentos não tinham muito valor. E então ela saiu de sua teia, e caminhou ao encontro dos predadores e da lua naquela noite clara. Ela viu outros solitários. A velha e astuta raposa que outrora exibia seus pelos dourados hoje estava senil e só, o lobo que outrora foi Alfa hoje se cobre com sarnas, porém a coruja sempre só não se surpreendia. Ao parar sob sua arvore a coruja lhe disse que agora ela sabia seu futuro e depois voou para se encontrar com outra amiga solitária, a bela aranha resolveu andar. Andando pela floresta a viúva quis chorar.
Foi quando um macaco disse para fugir, ele havia visto um caçador. A viúva sem hesitar, seguiu o rastro, até encontrar uma fogueira e um jovem solitário. Ele limpava uma espingarda. A bela aranha esgueirou-se por trás das arvores e observou, como uma velha predadora, aquele belo rapaz.
Seus dentes se serraram, seus pelos arrepiaram, se coração bateu. Daquela distancia, como muitos anteriormente, ela se apaixonou. E sem ação ela esperou seus olhares se cruzarem. O rapaz levantou-se com um susto ao observar dois olhos brilharem na escuridão da floresta e a recepcionou apontando sua espingarda. A viúva não falou nada, apenas deu um passo para mais perto da luz. O jovem ao se deparar com a bela mulher, abaixou a arma mas com medo hesitou em levanta-la novamente.
Lentamente eles se acostumaram com a presença um do outro, trocando olhares e sinais. Ela chegava mais perto a cada respiração, até que seus corpos se tocaram. Os apaixonados rolaram sob as arvores como se fossem mil noites, seus corpos insaciáveis atravessaram as horas como furacões, até que ela destilou seu veneno.
Havia chegado a hora, a hora que diria seu futuro. A viúva hesitou novamente e com seus penetrantes olhos negros encarou os suaves olhos azuis do rapaz, seu salvador. E com a boca cheia do mais letal veneno, cujo ela fez especialmente para aquela noite, ela beijou sua testa e deitou em seu colo e engoliu todo o veneno. E eles adormeceram, ela acolhida no calor do peito dele, e ele com a mão entrelaçada nos cabelos dela.
O rapaz mal entendeu quando acordou pela manhã, deitado e nu, sob a copa de uma grande arvore, com uma aranha morta sobre seu peito.
Suas lembranças vieram naquela noite com sabor de nostalgia e arrependimento. O amor e o calor de seus amantes, belos e cegos por sua beleza, a doce traição, o desespero de cada vitima, seus olhares, o veneno e toda a sua natureza destruidora. Ela lamentava sua solidão.
Seu corpo estava frio, suas palavras não eram ouvidas, seus pensamentos não tinham muito valor. E então ela saiu de sua teia, e caminhou ao encontro dos predadores e da lua naquela noite clara. Ela viu outros solitários. A velha e astuta raposa que outrora exibia seus pelos dourados hoje estava senil e só, o lobo que outrora foi Alfa hoje se cobre com sarnas, porém a coruja sempre só não se surpreendia. Ao parar sob sua arvore a coruja lhe disse que agora ela sabia seu futuro e depois voou para se encontrar com outra amiga solitária, a bela aranha resolveu andar. Andando pela floresta a viúva quis chorar.
Foi quando um macaco disse para fugir, ele havia visto um caçador. A viúva sem hesitar, seguiu o rastro, até encontrar uma fogueira e um jovem solitário. Ele limpava uma espingarda. A bela aranha esgueirou-se por trás das arvores e observou, como uma velha predadora, aquele belo rapaz.
Seus dentes se serraram, seus pelos arrepiaram, se coração bateu. Daquela distancia, como muitos anteriormente, ela se apaixonou. E sem ação ela esperou seus olhares se cruzarem. O rapaz levantou-se com um susto ao observar dois olhos brilharem na escuridão da floresta e a recepcionou apontando sua espingarda. A viúva não falou nada, apenas deu um passo para mais perto da luz. O jovem ao se deparar com a bela mulher, abaixou a arma mas com medo hesitou em levanta-la novamente.
Lentamente eles se acostumaram com a presença um do outro, trocando olhares e sinais. Ela chegava mais perto a cada respiração, até que seus corpos se tocaram. Os apaixonados rolaram sob as arvores como se fossem mil noites, seus corpos insaciáveis atravessaram as horas como furacões, até que ela destilou seu veneno.
Havia chegado a hora, a hora que diria seu futuro. A viúva hesitou novamente e com seus penetrantes olhos negros encarou os suaves olhos azuis do rapaz, seu salvador. E com a boca cheia do mais letal veneno, cujo ela fez especialmente para aquela noite, ela beijou sua testa e deitou em seu colo e engoliu todo o veneno. E eles adormeceram, ela acolhida no calor do peito dele, e ele com a mão entrelaçada nos cabelos dela.
O rapaz mal entendeu quando acordou pela manhã, deitado e nu, sob a copa de uma grande arvore, com uma aranha morta sobre seu peito.
terça-feira, 6 de outubro de 2009
O Começo da Continuação da Vida - Capitulo 1 (A Primeira Confusão)
Estávamos todos na sala, sentados, desnorteados e procurando sentido no que acabara de acontecer. Eu pensei em pedir um cigarro, mas comecei a me perguntar se eu fumava mesmo ou se tudo que eu acreditava que era não passava de uma ilusão de como se fosse sempre assim. Não fazia nem uma hora que o primeiro de nós teve a primeira visão. Coisas de muito tempo atrás, sombrias, alegres e sem nenhum sentido.
Essa é a minha primeira lembrança de depois de que eu comecei a recuperar minha memória. É como acordar do coma, ou como se manter morto por anos e surgir dos mortos e esquecidos em meio a uma avalanche e tentar se livrar dela. Tentar viver novamente.
- Então, essa é a primeira vez que estamos todos reunidos? - eu quebrei o silencio.
- Acredito que não, mas, talvez nessa vida sim. - disse Luciano, irmão mais velho de Marina que ainda chorava no canto inverso ao meu.
- Mas por que isso agora? - Marcos procurava um amparo mental ao que acabara de acontecer.
Aos poucos, nossas perguntas eram respondidas por outras perguntas e, a todo momento, imagens do passado eram vomitadas de nossas mentes, sentimentos e laços reforçados a cada momento. Sem explicação maior, um grupo de jovens que mal se conhecia descobriu ser como uma família a muitos anos.
Foi então que eu compreendi que eu tinha 20 anos a séculos, e a cada vez que a sociedade mudava, minha realidade mudava e eu acreditava que era Lucia, Mariana, Laura, Roberta, Ana, Maria e muitos outros nomes como Patricia, meu atual nome. Minhas vidas foram sendo desmistificadas como realidades que existiram apenas por um curto tempo, apenas nas vidas ilusórias que eu vivi, do nascimento a morte.
- Algum de vocês se lembra de morrer? - cortei o silencio, mais uma vez.
Todos se entreolharam. Inclusive eu me perguntei novamente, “eu morri? Me lembro de algo como morrer?”. Com caras duvidosas e temerosas, todos negaram com a cabeça.
- Eu acho que nunca morri, né? - disse Marcos receoso – Bom, eu acho que não, porque a morte deve ser algo que você se lembre bem. Eu acho. - novamente todas as cabeças concordaram e o silencio desconfortável pairou novamente naquela sala.
João enfim, resolveu acender o cigarro. Foi o primeiro de nós a levantar e lutar contra aquela sensação desconfortável de impotência diante de nós mesmos. E foi quando eu o notei mais familiar do que antes. Eu por um momento soube que já sabia que ele faria isso, e seus passos a seguir eu poderia prever, afinal eu o conhecia muito bem, ele era meu melhor amigo a séculos, mas nessa vida, ou nessa ilusão de vida, nós só nos encontramos uma vez.
- E então, quem somos afinal? - perguntou João dando o primeiro trago,
- Eu não sei, mas tenho a inclinação de dizer alguma coisa, um nome, mas não consigo lembrar, entende? Como se estivesse na ponta da língua, mas não está. - dizia Roberto, tentando se lembrar do que deveria ter dito.
Enfim me convenci naquele momento que aquele não era um encontro de jovens normais, nem muito menos um encontro normal de jovens excêntricos, que era para ter sido. E olhei novamente para João, senti um aperto no coração por nunca mais te-lo tratado como tal. Nesse momento ele me olhou de volta, parecia que ele acabara de lembrar também. Eu levantei e caminhei até ele, nos abraçamos forte.
- Esperança, minha amiga, como senti sua falta!
Essa é a minha primeira lembrança de depois de que eu comecei a recuperar minha memória. É como acordar do coma, ou como se manter morto por anos e surgir dos mortos e esquecidos em meio a uma avalanche e tentar se livrar dela. Tentar viver novamente.
- Então, essa é a primeira vez que estamos todos reunidos? - eu quebrei o silencio.
- Acredito que não, mas, talvez nessa vida sim. - disse Luciano, irmão mais velho de Marina que ainda chorava no canto inverso ao meu.
- Mas por que isso agora? - Marcos procurava um amparo mental ao que acabara de acontecer.
Aos poucos, nossas perguntas eram respondidas por outras perguntas e, a todo momento, imagens do passado eram vomitadas de nossas mentes, sentimentos e laços reforçados a cada momento. Sem explicação maior, um grupo de jovens que mal se conhecia descobriu ser como uma família a muitos anos.
Foi então que eu compreendi que eu tinha 20 anos a séculos, e a cada vez que a sociedade mudava, minha realidade mudava e eu acreditava que era Lucia, Mariana, Laura, Roberta, Ana, Maria e muitos outros nomes como Patricia, meu atual nome. Minhas vidas foram sendo desmistificadas como realidades que existiram apenas por um curto tempo, apenas nas vidas ilusórias que eu vivi, do nascimento a morte.
- Algum de vocês se lembra de morrer? - cortei o silencio, mais uma vez.
Todos se entreolharam. Inclusive eu me perguntei novamente, “eu morri? Me lembro de algo como morrer?”. Com caras duvidosas e temerosas, todos negaram com a cabeça.
- Eu acho que nunca morri, né? - disse Marcos receoso – Bom, eu acho que não, porque a morte deve ser algo que você se lembre bem. Eu acho. - novamente todas as cabeças concordaram e o silencio desconfortável pairou novamente naquela sala.
João enfim, resolveu acender o cigarro. Foi o primeiro de nós a levantar e lutar contra aquela sensação desconfortável de impotência diante de nós mesmos. E foi quando eu o notei mais familiar do que antes. Eu por um momento soube que já sabia que ele faria isso, e seus passos a seguir eu poderia prever, afinal eu o conhecia muito bem, ele era meu melhor amigo a séculos, mas nessa vida, ou nessa ilusão de vida, nós só nos encontramos uma vez.
- E então, quem somos afinal? - perguntou João dando o primeiro trago,
- Eu não sei, mas tenho a inclinação de dizer alguma coisa, um nome, mas não consigo lembrar, entende? Como se estivesse na ponta da língua, mas não está. - dizia Roberto, tentando se lembrar do que deveria ter dito.
Enfim me convenci naquele momento que aquele não era um encontro de jovens normais, nem muito menos um encontro normal de jovens excêntricos, que era para ter sido. E olhei novamente para João, senti um aperto no coração por nunca mais te-lo tratado como tal. Nesse momento ele me olhou de volta, parecia que ele acabara de lembrar também. Eu levantei e caminhei até ele, nos abraçamos forte.
- Esperança, minha amiga, como senti sua falta!
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
Os Irmãos Trouble
Dois pra lá, dois pra cá. E assim começava o casal a dançar desajeitadamente no meio do salão. A valsa fluía majestosamente naquela ocasião, e os penetras aproveitavam a excitação do povo para se divertirem e forrarem seus estomagos famintos pela comida e bebida da nobreza.
Anoitecera já a algum tempo, e os dois entraram já tarde, na hora em que os nobres acreditavam em qualquer coisa. Larissa e George agora se tornavam para os demais presentes barão e baronesa de Waterblue, donos de uma grande quantidade de terra e uma boa frota comercial.
Depois de dias fazendo fortuna as custas das riquezas dos nobres de maneira ilícita, o trabalho estafante de cada dia, surras de guardas, corrida da milícia da cidade e todo tipo de contratempos, o que os irmãos queriam era apenas diversão sem preocupação e de boca farta.
De fato aquele era o melhor vinho de todo o reino, e agora eles estavam montados em uma fortuna que os sustentaria durante anos e anos. Mas o paraíso de dois foras da lei não pode ser longo, nem muito menos sem outras aventuras e perigos de morte. George, ao se aproximar da mesa, onde estavam aquelas aves exóticas assadas, encontrou-se com uma figura que não gostaria, Sir Laurus Glauco, que de primeira o reconheceu e soltou um grito chamando os guardas.
O alvoroço surgiu, e os irmãos arruaceiros ja estavam longe da paz novamente, correndo separados para algum tipo de esconderijo, porem ali, eles estavam cercados por quase todos os lados e, se não o pior, um evento nada bom aconteceu. George conseguiu fugir, mas Larissa foi capturada pela guarda de Sir Laurus.
O que farão separados os irmãos Trouble?
Anoitecera já a algum tempo, e os dois entraram já tarde, na hora em que os nobres acreditavam em qualquer coisa. Larissa e George agora se tornavam para os demais presentes barão e baronesa de Waterblue, donos de uma grande quantidade de terra e uma boa frota comercial.
Depois de dias fazendo fortuna as custas das riquezas dos nobres de maneira ilícita, o trabalho estafante de cada dia, surras de guardas, corrida da milícia da cidade e todo tipo de contratempos, o que os irmãos queriam era apenas diversão sem preocupação e de boca farta.
De fato aquele era o melhor vinho de todo o reino, e agora eles estavam montados em uma fortuna que os sustentaria durante anos e anos. Mas o paraíso de dois foras da lei não pode ser longo, nem muito menos sem outras aventuras e perigos de morte. George, ao se aproximar da mesa, onde estavam aquelas aves exóticas assadas, encontrou-se com uma figura que não gostaria, Sir Laurus Glauco, que de primeira o reconheceu e soltou um grito chamando os guardas.
O alvoroço surgiu, e os irmãos arruaceiros ja estavam longe da paz novamente, correndo separados para algum tipo de esconderijo, porem ali, eles estavam cercados por quase todos os lados e, se não o pior, um evento nada bom aconteceu. George conseguiu fugir, mas Larissa foi capturada pela guarda de Sir Laurus.
O que farão separados os irmãos Trouble?
terça-feira, 1 de setembro de 2009
A Rua
Ele andava pela rua. Passos lentos em um dia nublado e uma fina garoa de inverno. Uma rua de paralelepipedo muito grande. Ele estava no inicio dela, a uns 10 passos de sua entrada, e não olhava para frente. Se ele olhasse ele veria a linha do horizonte nela, de tão grande que ela era, ele poderia cogitar o seu fim, mas não tinha contato visual com ele.
O cheiro da terra molhada começava a subir enquanto ele andava casualmente por aquela rua que ele não sabia qual era. Nem ao menos olhava para frente, não sentia segurança de faze-lo, apenas olhava para o meio fio e o usava como guia, também olhava para a forma geometrica dos paralelepipedos simetricamente colocados e medidos.
No inicio ele pensou em andar na ponta dos pés para não pisar nas listras, como crianças fazem. Mas ele se achou velho demais para fazer aquela bobagem e a chuva aumentou um pouco, se tornou um chuvisco, com pingos mais pesados e espaçados, mas não molhava mais que uma garoa. Ao se dar conta, ele olhou para o céu. Estava bem nublado e parecia estar cada vez mais carregado, e ele pensou "acho quem vem aí um temporal". Sem olhar o que vinha a diante, ele voltou seus olhos para baixo e continuou seguindo o meio fio.
Mais uma vez ele pensou em brincar com o andar, hesitou duas vezes em andar sobre o meio fio. Na terceira vez ele subiu. Tentou se equilibar, deu alguns passos e logo a diante voltou a andar sobre o chão geometricamente perfeito daquela rua. Ele nem sequer se perguntava o que faria depois de chegar ao final dela, mas queria chegar lá, sabia que era seu objetivo maior e apenas andou novamente.
Sem mais nenhum aviso, a chuva começou a cair de verdade. Os pingos foram engrossando e logo se transformaram em um temporal. Sem hesitar dessa vez, ele olhou a sua volta procurando uma marquise, mas só via muros bem lisos a sua direita, e a sua esqueda havia um descampado enorme, cujo não se via fim. Ele ja havia andado muito para voltar, ja estaria ensopado se voltasse ao inicio da rua. Ele resolveu olhar pela primeira vez para frente.
Subiu lentamente a sau face, seus olhos acompanhavam a rua até o horizonte. Nenhuma marquise e nem sinal da rua terminar. Ele continuou andando, ja não sabia mais o que fazer quando a chuva parou. Ele andou novamente junto ao meio fio, onde haviam poças d'agua e se assustou. Ele se lembrou de como havia entrado naquela rua, apenas um menino, e o reflexo mostrava um homem barbudo e alto. Sentiu medo, mas ainda tinha vontade de andar na estrada sem fim.
O cheiro da terra molhada começava a subir enquanto ele andava casualmente por aquela rua que ele não sabia qual era. Nem ao menos olhava para frente, não sentia segurança de faze-lo, apenas olhava para o meio fio e o usava como guia, também olhava para a forma geometrica dos paralelepipedos simetricamente colocados e medidos.
No inicio ele pensou em andar na ponta dos pés para não pisar nas listras, como crianças fazem. Mas ele se achou velho demais para fazer aquela bobagem e a chuva aumentou um pouco, se tornou um chuvisco, com pingos mais pesados e espaçados, mas não molhava mais que uma garoa. Ao se dar conta, ele olhou para o céu. Estava bem nublado e parecia estar cada vez mais carregado, e ele pensou "acho quem vem aí um temporal". Sem olhar o que vinha a diante, ele voltou seus olhos para baixo e continuou seguindo o meio fio.
Mais uma vez ele pensou em brincar com o andar, hesitou duas vezes em andar sobre o meio fio. Na terceira vez ele subiu. Tentou se equilibar, deu alguns passos e logo a diante voltou a andar sobre o chão geometricamente perfeito daquela rua. Ele nem sequer se perguntava o que faria depois de chegar ao final dela, mas queria chegar lá, sabia que era seu objetivo maior e apenas andou novamente.
Sem mais nenhum aviso, a chuva começou a cair de verdade. Os pingos foram engrossando e logo se transformaram em um temporal. Sem hesitar dessa vez, ele olhou a sua volta procurando uma marquise, mas só via muros bem lisos a sua direita, e a sua esqueda havia um descampado enorme, cujo não se via fim. Ele ja havia andado muito para voltar, ja estaria ensopado se voltasse ao inicio da rua. Ele resolveu olhar pela primeira vez para frente.
Subiu lentamente a sau face, seus olhos acompanhavam a rua até o horizonte. Nenhuma marquise e nem sinal da rua terminar. Ele continuou andando, ja não sabia mais o que fazer quando a chuva parou. Ele andou novamente junto ao meio fio, onde haviam poças d'agua e se assustou. Ele se lembrou de como havia entrado naquela rua, apenas um menino, e o reflexo mostrava um homem barbudo e alto. Sentiu medo, mas ainda tinha vontade de andar na estrada sem fim.
terça-feira, 5 de maio de 2009
A Canção do Velho
Nos primeiros momentos era possível ignorar e não dar valor aquele senhor que de tão barbudo e sujo parecia um mendigo. Seu bandolim surrado em seu colo e um chapéu jogado no chão trazia uma imagem pobre, mas apenas para aqueles que só o viram. Dos que ouviram as notas e palavras do velho, nenhum voltou a viver como antes, suas mentes mudaram e, por causa deles, hoje em dia aquela memória ainda existe.
As notas reverberavam dissonantes enquanto aquele senhor recitava algum tipo de melancolia, seus versos contavam lendas antigas e tristes e suas mãos movimentavam-se de forma pesada naquele bandolim. Seu semblante era abatido como as dores que emanavam daquela canção esquecida, era possível sentir gosto de sangue enquanto as notas se tornavam mais agudas, era como se o peso de todo o mundo caísse sobre a cabeça de todos que estavam ali.
As arvores também entoavam sua musica como se também fizessem parte dela, as águas do rio moviam-se e se agitadas e os animais silvestres se perturbavam a cada tom. Era perceptível a qualquer um, mesmo sendo insensível, que aquela não era uma canção comum e que todos os que estavam ali a ouvindo faziam parte dela e, se jovens demais, ainda fariam parte dela.
A carga daquelas notas levaram todos a exaustão e o senhor abatido terminou de contar tudo do passado e do futuro que sabia para aqueles escolhidos, que não sabiam como estavam ali e nem quem era aquele velho. Ao amanhecer a floresta adormeceu, o canto dos pássaros emudeceu e o senhor da mesma forma que chegou, desapareceu.
Então os que presenciaram esse momento souberam que este fora único e secreto.
As notas reverberavam dissonantes enquanto aquele senhor recitava algum tipo de melancolia, seus versos contavam lendas antigas e tristes e suas mãos movimentavam-se de forma pesada naquele bandolim. Seu semblante era abatido como as dores que emanavam daquela canção esquecida, era possível sentir gosto de sangue enquanto as notas se tornavam mais agudas, era como se o peso de todo o mundo caísse sobre a cabeça de todos que estavam ali.
As arvores também entoavam sua musica como se também fizessem parte dela, as águas do rio moviam-se e se agitadas e os animais silvestres se perturbavam a cada tom. Era perceptível a qualquer um, mesmo sendo insensível, que aquela não era uma canção comum e que todos os que estavam ali a ouvindo faziam parte dela e, se jovens demais, ainda fariam parte dela.
A carga daquelas notas levaram todos a exaustão e o senhor abatido terminou de contar tudo do passado e do futuro que sabia para aqueles escolhidos, que não sabiam como estavam ali e nem quem era aquele velho. Ao amanhecer a floresta adormeceu, o canto dos pássaros emudeceu e o senhor da mesma forma que chegou, desapareceu.
Então os que presenciaram esse momento souberam que este fora único e secreto.
Assinar:
Postagens (Atom)