quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Dias Noturnos - Capitulo 5 (Encomendas e Borges)

E aquele longo prédio indecifrável a segundos atrás se sobrepunha a sua visão, de maneira que não tivesse tempo para duvidas. Sara adentrou corajosamente no Edifício Borges. Sem pestanejar e olhar para o simpático senhor que estava atrás do balcão. De fato não era um prédio comercial, e Sara andou pensando que era óbvio que tudo estava preparado. Sua entrada sem barreiras denunciava que o prédio esperava por ela, as paredes e toda aquela limpeza de que ela passara longe durante toda a sua estadia nessa cidade.
Era surreal demais até para a sonhadora Sara que já havia esquecido por completo a Vila dos Porcos e todo aquele chiqueiro a uns 2 km de distancia. O elevador parou no quinto andar, a porta lentamente abriu-se e Sara sem esperar o ciclo completar-se, saltara para fora do elevador, adentrando em um corredor de carpete e luzes amarelas, como o de um hotel. Ela andou olhando os apartamentos, um por um, até achar o 512. Sara pensou por um momento “Ainda dá tempo de desistir e procurar a pessoa certa, para quem foi enviado o bilhete...” mas ao mesmo tempo que pensava e mordia os lábios, Sara colocou a chave na porta e a girou, destravando-a e após girar a maçaneta, fazendo a porta abrir vagarosamente, mostrando pela luz do corredor o inicio de uma grande sala.
Mão direita no interruptor e estava lá, tudo como deveria estar em uma bela sala de estar de um apartamento. Uma bela mesa de mármore e madeira, de forma retangular, com 2 cadeiras nas pontas e 2 de cada lado dos lados maiores, em um total de 6 belas cadeiras. Havia também mais perto de Sara dois sofás de quina, pretos, um de 3 lugares, colado na parede, extremamente confortável, e outro de 2 lugares que ficava a frente da mesa. Do lado oposto dos sofás estava uma televisão na parede, dessas de 40'', tela plana, que só rico poderia ter. O chão era branco, um piso bonito e branco, parecia que tinha sido limpo hoje ou quem sabe ontem. Estava impecável.
Sara ainda estava admirando a sala quando reparou um caixote sobre a mesa, aquela bela mesa de mármore. Um caixote de papelão, pequeno, lacrado com fita, escrito “frágil” em sua lateral e com um papel dobrado em cima, preso por uma fita adesiva vagabunda. E esta foi a segunda vez que Sara hesitou, ela poderia sair dali ainda, fingir que tudo era um engano, mas enganada estava. Sara desdobrou o papel e encontrou outras palavras escritas.

“Novo trabalho para você,
Entregue isso a um velho amigo, o endereço é: Rua dos Loucos, número 18. Não se esqueça, é para o Rodrigo Smith!

Casa nova, vida nova. Aproveite!
”


...


- Bom, Victor, agora vem a parte simples – dizia Marina um pouco ofegante – pelomenos para mim.
- Parte simples? Eu vejo a estrada logo ali, mas parece que ela nunca chega! - limpando o suor da testa.
- A parte simples é que seu nome não é mais Victor Brhams. Marcos Borges é seu novo nome. Sua documentação está toda na sua bolsa. - disse Marina de maneira indiferente sempre olhando em direção a estrada.
- Mas como assim? Mudar meu nome? Que história é essa? - Victor estava perplexo. Sua boca aberta e seca, testa franzida e olhos arregalados, tudo isso denunciava seu estado de surpresa e anseio.
- Não é mudar de nome, agora você é outra pessoa. Victor Bhrams morreu no caminho para o hospital, não existe mais! - Seu tom de apático se transformara em agressivo e Victor respondeu com um silencio e um olhar perturbado e amedrontado para Marina.
- É assim então? Eu não existo mais? Sou outra pessoa agora e devo agir como ela?
- Exatamente.
- Tenho escolha?
- Tem, ou você aceita essa sua “nova vida”, ou morre de verdade. - Marina falava essas coisas como se dissesse as horas ou pedisse um hamburguer – Até determinado momento, eu serei sua babá. Não tente fugir de mim, ok?
O que não cabia na cabeça de Victor naquele momento era aquela mulher doce se tornando um monstro ao seu lado, ele ali agora percebeu que ela estava armada, tinha uma pistola bem grande em sua cintura e isso fez Victor tremer.
O caminho até a estrada foi em silencio, enquanto isso Victor, ou Marcos, sentia sua face e todas as partes que estavam expostas ao sol arderem. As pernas começaram a reclamar seus minutos de descanso, os músculos fraquejavam e a língua estava colada no céu da boca, mais seca do que qualquer lembrança sobre sede que Victor tinha. Enfim, quando os dois pensavam em desfalecer, seus pés alcançaram o asfalto rachado da estrada.
Providencialmente havia um carro ali, Marcos, ou Victor, pensou se aquela lata velha realmente funcionaria naquele calor, mas Marina não precisou de muita perícia para tira-lo da inercia. Os dois entraram e partiram em linha reta para o horizonte desabitado, demorou quase a tarde toda para que eles chegassem em uma zona habitada que segundo Marina, era uma área de governo paralelo chamada Dãgslote.
- Pernoitaremos aqui, seu novo patrão tem um bom transito e respeito por essas bandas. - disse Marina parando o carro na frente de um portão de grade apoiado e um muro bem grande.
- Que lugar estranho, espero não ter que passar muito tempo aqui. - disse Victor espantado com todas aquelas ruínas sobreviventes de alguma cidade. Ele de fato nunca havia saído de Lassitah, sua cidade natal, seu inferno pessoal. - Você sabe o que eles fazem por aqui?
- São criminosos, Marcos. - séria e calma, dizendo lentamente palavra por palavra - Eles fazem coisas politicamente erradas e são maus, mas você não está longe de se tornar como um deles. - e terminou a frase com um leve sorriso.
- Eu criminoso? Olha, não tenho coragem nem de matar uma mosca!
- Criminosos covardes são os mais perigosos! - soltou uma grande risada. - Seu amigo o escolheu bem!
Enquanto Marina ria, uma criatura grande se aproximou do carro. “Um troglodita” pensou Victor enquanto via pelo vidro o homem se abaixar para falar com Marina. Aquele ser de seus 2m e alguma coisa de altura, de quase 200kg, carregando correntes, uma arma quase do seu tamanho e toda sorte de metais e tatuagens espalhados pelo corpo. Era de se intimidar, ainda mais ao perceber que ele não era o único, em pouco tempo o carro estava cercado daqueles tipos estranhos e mal encarados. Haviam magros, gordos, baixos e altos, mas nenhum deles parecia ser dotado de simpatia no olhar.

Victor já havia se convencido que aquele pernoite seria o mais estranho da sua vida, mesmo que o da noite anterior, ou dos dias anteriores, fossem bem esquisitos. Ao adentrar em seu suposto aposento, ele se deparou com uma mesa de cirurgia velha e enferrujada e uma almofada, furada e provavelmente cheia de ácaros, sobre ela. Havia apenas uma luz fluorescente sobre um pequeno espelho, que por sua vez era sobre uma pia, que ficava do lado de um vaso sanitário com uma aparência duvidosa. Um vasculhante apenas, um ventilador de teto, daqueles de aço do século passado, que movia-se como uma lesma.
Victor ou Marcos, adormeceu de exaustão sobre a mesa. Seus sonhos infantis dominaram a noite. Victor agora era um famoso jogador de basquete, que tinha super-poderes e muitos amigos, ele também iria se casar com a menina mais bela que conheceu, ela não sabia que ele podia voar.


...

Ela pensou novamente, pensou que talvez não fosse tarde procurar a pessoa certa, mas achou que talvez fosse melhor ir entregar a encomenda e depois procurar saber pra quem era o primeiro bilhete. Talvez também ela estivesse enlouquecendo mesmo e a Rua dos Loucos seria um lugar ideal para se refugiar, quem sabe? Sara tomou as ruas novamente.
Aquele dia quente e úmido, os carros respirando poluição, as obras transpirando poeira e toda a sorte de violência esgueirando-se nos becos em plena luz do dia. De fato nada estava fora do lugar, apenas Sara, praticamente alienígena e perdida, caminhando para seu destino incerto na Rua dos Loucos, logo ali, em algum canto esquizofrênico da cidade.
Ao pegar o ônibus lotado novamente, mais um contratempo, dois carros bateram e fecharam o cruzamento. Sara com pressa, tomou o subterrâneo, o velho Metrô. Sua caminhada árdua até a plataforma não a deixou pensar novamente, as ruas estavam cheias como sempre, e no subterrâneo, a agitação delas chegava a ser sufocante. E então Sara teve a impressão de ver alguém conhecido, um rosto, um andar, mas não pode ter certeza. Ela tentou seguir, mas o Metrô chegou e tanto ela, quanto ele, entraram nele, mas em vagões bem distintos.
Sara quis atravessar os vagões, mas eles não estavam conectados uns aos outros. E então ela ansiosamente esperou até que as portas se abrissem para tentar trocar de vagão. Mas na primeira ela foi empurrada com violência para dentro, e nas outras as coisas ficavam cada vez mais difíceis. Até que em uma delas a maioria saltou.
Sem perder tempo, saltou para o lado de fora e correu na direção do rosto conhecido, mesmo sem saber se ele já havia saltado ou não. Mas por sorte ele saiu ali, mas a multidão era grande, tão grande, que ela o perdeu de vista, mas continuou segundo o fluxo para a saída. E então ela o achou de novo, achou aqueles cabelos loiros que procurava.
Atravessando a multidão, derrubou senhoras, crianças, bancas de comerciantes ilegais, mas sua velocidade acelerada não se continha por esses obstáculos. Chegou a rua e continuou a persegui-lo, ele estava a uns 100m de distancia quando o ônibus parou. Ela gritou:
- Marcos! Marcos, espera!

Ele hesitou, olhou em volta, mas entrou no ônibus deixando Sara para trás.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

A Viúva Negra

A bela viúva negra passeava por sua teia. Tecendo suas bordas, ela bailava ao som dos predadores noturnos que estavam acordando para mais um anoitecer sangrento, feito para o caçador. Mas desta vez a bela viúva negra que tecia seus fios, não os tecia por maldade, não os tecia pelo cheiro da morte, não os tecia por luxuria. Ela apenas tecia-os porque deveria, ela não tinha mais vontade, mas continuava a tecer.
Suas lembranças vieram naquela noite com sabor de nostalgia e arrependimento. O amor e o calor de seus amantes, belos e cegos por sua beleza, a doce traição, o desespero de cada vitima, seus olhares, o veneno e toda a sua natureza destruidora. Ela lamentava sua solidão.
Seu corpo estava frio, suas palavras não eram ouvidas, seus pensamentos não tinham muito valor. E então ela saiu de sua teia, e caminhou ao encontro dos predadores e da lua naquela noite clara. Ela viu outros solitários. A velha e astuta raposa que outrora exibia seus pelos dourados hoje estava senil e só, o lobo que outrora foi Alfa hoje se cobre com sarnas, porém a coruja sempre só não se surpreendia. Ao parar sob sua arvore a coruja lhe disse que agora ela sabia seu futuro e depois voou para se encontrar com outra amiga solitária, a bela aranha resolveu andar. Andando pela floresta a viúva quis chorar.
Foi quando um macaco disse para fugir, ele havia visto um caçador. A viúva sem hesitar, seguiu o rastro, até encontrar uma fogueira e um jovem solitário. Ele limpava uma espingarda. A bela aranha esgueirou-se por trás das arvores e observou, como uma velha predadora, aquele belo rapaz.
Seus dentes se serraram, seus pelos arrepiaram, se coração bateu. Daquela distancia, como muitos anteriormente, ela se apaixonou. E sem ação ela esperou seus olhares se cruzarem. O rapaz levantou-se com um susto ao observar dois olhos brilharem na escuridão da floresta e a recepcionou apontando sua espingarda. A viúva não falou nada, apenas deu um passo para mais perto da luz. O jovem ao se deparar com a bela mulher, abaixou a arma mas com medo hesitou em levanta-la novamente.
Lentamente eles se acostumaram com a presença um do outro, trocando olhares e sinais. Ela chegava mais perto a cada respiração, até que seus corpos se tocaram. Os apaixonados rolaram sob as arvores como se fossem mil noites, seus corpos insaciáveis atravessaram as horas como furacões, até que ela destilou seu veneno.
Havia chegado a hora, a hora que diria seu futuro. A viúva hesitou novamente e com seus penetrantes olhos negros encarou os suaves olhos azuis do rapaz, seu salvador. E com a boca cheia do mais letal veneno, cujo ela fez especialmente para aquela noite, ela beijou sua testa e deitou em seu colo e engoliu todo o veneno. E eles adormeceram, ela acolhida no calor do peito dele, e ele com a mão entrelaçada nos cabelos dela.
O rapaz mal entendeu quando acordou pela manhã, deitado e nu, sob a copa de uma grande arvore, com uma aranha morta sobre seu peito.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O Começo da Continuação da Vida - Capitulo 2 (A Primeira Decisão)

Eu o abracei de verdade, e foi como antigamente, como quando nascemos. Mas estes são tempos muito distantes que eu já não consigo mais me lembrar de como foi, apenas sei que é o mesmo sentimento. Fomos feitos para sermos amigos, de verdade, amigos. Não consigo me lembrar de nenhum outro sentimento por ele alem desse.

Ao terminarmos o abraço, percebi que todos estavam compartilhando o mesmo momento, foi que me ocorreu que João era aquele mais velho, que se chamava Severo, e seus olhos agora estavam mais profundos que no minuto anterior. De fato ele foi o Primeiro.
Olhei a minha volta, e os reconheci um por um, Luciano e Marina, os irmãos, os Últimos, lembrei de seus verdadeiros nomes, enquanto eles se entreolhavam.
- Quinto, Lúcido; Sexto, Vita. Lembram agora?
- Esperança, a Segunda! Eu lembro de você! E como lembro! - Vita correu para os meus braços, amável como sempre.
- Agora me lembro, lembro de saber quem somos, mas não lembro quem somos. - Disse Lúcido pausadamente com suas mãos sobre o rosto confuso.

E então eu eu novamente passei os olhos sobre eles e vi, me deparei com Roberto, o Quarto, com quem não precisei falar.
- Espero que se lembre de mim, Esperança. Sou eu, Só.

Meu sorriso cresceu e então virei meu rosto para Marcos, que agora eu tinha certeza que era o Terceiro, o meu Terceiro, aquele que foi feito para me completar, mas não lembrava de seu nome, e para meu espanto ele disse:
- Quem realmente são vocês? Eu não consigo me lembrar. - passava a mão em seus cabelos, agora mal cortados, e ainda confuso disse baixo. - Humano. Acho que sempre fui chamado assim.

Embaraçada com meus sentimentos e minhas lembranças, levantei do sofá e me virei para a porta da sala. Tinha uma vidraça fechada que dava para a rua, o dia era como qualquer dia, mas chovia, como todo dia que acontece algo importante. A chuva alguns de nós acreditamos, serve para acontecimentos importantes, e no momento, o tempo havia parado, como no inicio. A chuva não chovia, não molhava e nem caía, mas era assim mais fácil de perceber sem precisar de muitas perguntas que o tempo havia parado.
- Está acontecendo – disse Severo – O tempo resolveu estar ao nosso favor.
- Eu não diria isso. - Só se aproximou da vidraça ao meu lado, tocou em meu ombro e continuou – Diria que há algo mais importante, ou simplesmente, está na hora de cumprirmos nossa missão.
- Mas, e se for, sei lá, uma armadilha? - Eu pensei por alto – Quem fez isso conosco? Será que... - antes que eu terminasse, Lúcido se levantou.
- Não acredito que possa parar o tempo, mas seja o que for que tenha nos sucedido, é provável que não saiba sobre nós nesse momento e, com isso, nós ganhamos tempo.
- Quer dizer que devemos retomar nossas funções? - disse Severo espantado com o rumo da conversa.
- Como desde sempre. Como nunca deveríamos ter parado! - Lúcido incisivo.
- Que assim seja como antes! Vamos acha-lo! - A ultima palavra como sempre, de Severo.

Só, como sempre, saiu primeiro de encontro ao fim da história.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O Começo da Continuação da Vida - Capitulo 1 (A Primeira Confusão)

Estávamos todos na sala, sentados, desnorteados e procurando sentido no que acabara de acontecer. Eu pensei em pedir um cigarro, mas comecei a me perguntar se eu fumava mesmo ou se tudo que eu acreditava que era não passava de uma ilusão de como se fosse sempre assim. Não fazia nem uma hora que o primeiro de nós teve a primeira visão. Coisas de muito tempo atrás, sombrias, alegres e sem nenhum sentido.

Essa é a minha primeira lembrança de depois de que eu comecei a recuperar minha memória. É como acordar do coma, ou como se manter morto por anos e surgir dos mortos e esquecidos em meio a uma avalanche e tentar se livrar dela. Tentar viver novamente.

- Então, essa é a primeira vez que estamos todos reunidos? - eu quebrei o silencio.
- Acredito que não, mas, talvez nessa vida sim. - disse Luciano, irmão mais velho de Marina que ainda chorava no canto inverso ao meu.
- Mas por que isso agora? - Marcos procurava um amparo mental ao que acabara de acontecer.

Aos poucos, nossas perguntas eram respondidas por outras perguntas e, a todo momento, imagens do passado eram vomitadas de nossas mentes, sentimentos e laços reforçados a cada momento. Sem explicação maior, um grupo de jovens que mal se conhecia descobriu ser como uma família a muitos anos.

Foi então que eu compreendi que eu tinha 20 anos a séculos, e a cada vez que a sociedade mudava, minha realidade mudava e eu acreditava que era Lucia, Mariana, Laura, Roberta, Ana, Maria e muitos outros nomes como Patricia, meu atual nome. Minhas vidas foram sendo desmistificadas como realidades que existiram apenas por um curto tempo, apenas nas vidas ilusórias que eu vivi, do nascimento a morte.

- Algum de vocês se lembra de morrer? - cortei o silencio, mais uma vez.

Todos se entreolharam. Inclusive eu me perguntei novamente, “eu morri? Me lembro de algo como morrer?”. Com caras duvidosas e temerosas, todos negaram com a cabeça.

- Eu acho que nunca morri, né? - disse Marcos receoso – Bom, eu acho que não, porque a morte deve ser algo que você se lembre bem. Eu acho. - novamente todas as cabeças concordaram e o silencio desconfortável pairou novamente naquela sala.

João enfim, resolveu acender o cigarro. Foi o primeiro de nós a levantar e lutar contra aquela sensação desconfortável de impotência diante de nós mesmos. E foi quando eu o notei mais familiar do que antes. Eu por um momento soube que já sabia que ele faria isso, e seus passos a seguir eu poderia prever, afinal eu o conhecia muito bem, ele era meu melhor amigo a séculos, mas nessa vida, ou nessa ilusão de vida, nós só nos encontramos uma vez.

- E então, quem somos afinal? - perguntou João dando o primeiro trago,
- Eu não sei, mas tenho a inclinação de dizer alguma coisa, um nome, mas não consigo lembrar, entende? Como se estivesse na ponta da língua, mas não está. - dizia Roberto, tentando se lembrar do que deveria ter dito.

Enfim me convenci naquele momento que aquele não era um encontro de jovens normais, nem muito menos um encontro normal de jovens excêntricos, que era para ter sido. E olhei novamente para João, senti um aperto no coração por nunca mais te-lo tratado como tal. Nesse momento ele me olhou de volta, parecia que ele acabara de lembrar também. Eu levantei e caminhei até ele, nos abraçamos forte.

- Esperança, minha amiga, como senti sua falta!

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Os Irmãos Trouble

Dois pra lá, dois pra cá. E assim começava o casal a dançar desajeitadamente no meio do salão. A valsa fluía majestosamente naquela ocasião, e os penetras aproveitavam a excitação do povo para se divertirem e forrarem seus estomagos famintos pela comida e bebida da nobreza.

Anoitecera já a algum tempo, e os dois entraram já tarde, na hora em que os nobres acreditavam em qualquer coisa. Larissa e George agora se tornavam para os demais presentes barão e baronesa de Waterblue, donos de uma grande quantidade de terra e uma boa frota comercial.

Depois de dias fazendo fortuna as custas das riquezas dos nobres de maneira ilícita, o trabalho estafante de cada dia, surras de guardas, corrida da milícia da cidade e todo tipo de contratempos, o que os irmãos queriam era apenas diversão sem preocupação e de boca farta.

De fato aquele era o melhor vinho de todo o reino, e agora eles estavam montados em uma fortuna que os sustentaria durante anos e anos. Mas o paraíso de dois foras da lei não pode ser longo, nem muito menos sem outras aventuras e perigos de morte. George, ao se aproximar da mesa, onde estavam aquelas aves exóticas assadas, encontrou-se com uma figura que não gostaria, Sir Laurus Glauco, que de primeira o reconheceu e soltou um grito chamando os guardas.

O alvoroço surgiu, e os irmãos arruaceiros ja estavam longe da paz novamente, correndo separados para algum tipo de esconderijo, porem ali, eles estavam cercados por quase todos os lados e, se não o pior, um evento nada bom aconteceu. George conseguiu fugir, mas Larissa foi capturada pela guarda de Sir Laurus.

O que farão separados os irmãos Trouble?

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A Rua

Ele andava pela rua. Passos lentos em um dia nublado e uma fina garoa de inverno. Uma rua de paralelepipedo muito grande. Ele estava no inicio dela, a uns 10 passos de sua entrada, e não olhava para frente. Se ele olhasse ele veria a linha do horizonte nela, de tão grande que ela era, ele poderia cogitar o seu fim, mas não tinha contato visual com ele.

O cheiro da terra molhada começava a subir enquanto ele andava casualmente por aquela rua que ele não sabia qual era. Nem ao menos olhava para frente, não sentia segurança de faze-lo, apenas olhava para o meio fio e o usava como guia, também olhava para a forma geometrica dos paralelepipedos simetricamente colocados e medidos.

No inicio ele pensou em andar na ponta dos pés para não pisar nas listras, como crianças fazem. Mas ele se achou velho demais para fazer aquela bobagem e a chuva aumentou um pouco, se tornou um chuvisco, com pingos mais pesados e espaçados, mas não molhava mais que uma garoa. Ao se dar conta, ele olhou para o céu. Estava bem nublado e parecia estar cada vez mais carregado, e ele pensou "acho quem vem aí um temporal". Sem olhar o que vinha a diante, ele voltou seus olhos para baixo e continuou seguindo o meio fio.

Mais uma vez ele pensou em brincar com o andar, hesitou duas vezes em andar sobre o meio fio. Na terceira vez ele subiu. Tentou se equilibar, deu alguns passos e logo a diante voltou a andar sobre o chão geometricamente perfeito daquela rua. Ele nem sequer se perguntava o que faria depois de chegar ao final dela, mas queria chegar lá, sabia que era seu objetivo maior e apenas andou novamente.

Sem mais nenhum aviso, a chuva começou a cair de verdade. Os pingos foram engrossando e logo se transformaram em um temporal. Sem hesitar dessa vez, ele olhou a sua volta procurando uma marquise, mas só via muros bem lisos a sua direita, e a sua esqueda havia um descampado enorme, cujo não se via fim. Ele ja havia andado muito para voltar, ja estaria ensopado se voltasse ao inicio da rua. Ele resolveu olhar pela primeira vez para frente.

Subiu lentamente a sau face, seus olhos acompanhavam a rua até o horizonte. Nenhuma marquise e nem sinal da rua terminar. Ele continuou andando, ja não sabia mais o que fazer quando a chuva parou. Ele andou novamente junto ao meio fio, onde haviam poças d'agua e se assustou. Ele se lembrou de como havia entrado naquela rua, apenas um menino, e o reflexo mostrava um homem barbudo e alto. Sentiu medo, mas ainda tinha vontade de andar na estrada sem fim.

Pequenas mudanças após uma longa ausencia...

Olá a todos os poucos e fieis leitores desta espelunca!

Para começo de conversa eu ainda não terminei o capitulo 5 do Dias Noturnos e também logo que saí de férias da faculdade eu viajei para um lugar longinquo e cheio de trabalhos, cervejas e jogos de rpg...

Dia desses eu estava pensando em dividir este blog com alguém, alguém digno e que tivesse a mesma ideia e vontade que eu, mal eu percebi que essa pessoa estava bem próxima e, bom simplesmente depois de uma curta conversa, resolvi chama-la para administrar os contos desse blog junto comigo.

Dêem as boas vindas para a Dandara.

E la vamos nós.

OBS: Quando ver o garçon, não esqueça de pedir mais café e boas histórias.